África do Sul: A Operação Dudula caça migrantes
6 de outubro de 2025
Com o seu lema "Put South Africans First” ("Primeiro os sul-africanos”), o grupo parece ter tocado num nervo sensível. A "Operação Dudula" tem ganho notoriedade e alimentado o sentimento xenófobo de muitos sul-africanos. A hostilidade contra estrangeiros — sobretudo vindos de outros países africanos — está profundamente enraizada na sociedade, e os ataques violentos são frequentes.
"Dudula" significa algo como "expulsar”. Na sua campanha mais recente, o grupo exige que as crianças migrantes sejam excluídas das escolas públicas enquanto não houver vagas suficientes para todas as crianças locais.
"O estrangeiro tornou-se o inimigo"
Fundada em 2021, com o objetivo de combater o crime e o tráfico de droga em Soweto, nos arredores de Joanesburgo, a organização registou-se como partido político, embora não tenha concorrido às eleições de 2024.
Segundo Fredson Guilengue, gestor de projetos na Fundação Rosa-Luxemburg, em Joanesburgo, a Operação Dudula ganhou força após os distúrbios de julho de 2021, quando o país, incluindo Soweto, foi palco de saques.
"Mais tarde, a narrativa evoluiu para ligar o crime, o desemprego e o fraco acesso à saúde à presença de estrangeiros no país", explicou Guilengue à DW. Esta visão é mais comum em Joanesburgo e Durban do que na Cidade do Cabo.
Culpar migrantes pelos problemas do país não é novo, lembra Guilengue: "O apartheid criou duas sociedades — uma branca, com segurança, boa saúde, educação e riqueza; e uma negra, sem direitos, sem trabalho e obrigada a competir pelos poucos recursos disponíveis.”
Nesse contexto de desigualdade, os estrangeiros acabaram vistos como inimigos.
Ainda assim, a economia sul-africana continua fortemente dependente de mão-de-obra estrangeira barata. Em tempos de elevado desemprego, os migrantes são vistos como concorrentes pelos mesmos empregos e recursos.
Acusações de que estrangeiros "roubam" empregos e mulheres espalharam-se rapidamente. Dudula aproveitou e reforçou essa narrativa. "Mas não estão sozinhos”, nota Guilengue. "O partido Action SA também segue uma linha populista de direita."
"A proteger os nossos direitos"
Os membros de Dudula invadem edifícios, procuram migrantes, exigem documentos e bloqueiam centros de saúde.
O grupo é liderado por uma jovem, Zandile Dabula. "Trata-se de proteger os nossos direitos de cidadãos. Somos todos africanos, amamos os nossos irmãos e irmãs, mas não apreciamos o modo como se comportam neste país”, disse em entrevista à DW.
Recusa as acusações de "caça a migrantes": "O crime, o tráfico de drogas e de pessoas estão fora de controlo. Alguém tem de agir para salvar o país para a próxima geração. Estamos a proteger, não a perseguir", afirma, dizendo que só agem contra migrantes ilegais.
"Dependemos de denúncias. As pessoas dizem-nos onde encontrá-los", acrescenta.
Mas o que há de verdade nas acusações de Dudula?
Um estudo do Institute for Security Studies (ISS), de Pretória, publicado em 2022, concluiu que "o número de migrantes na África do Sul é amplamente exagerado”. Segundo o ISS, existem cerca de 3,95 milhões de migrantes, ou seja, 6,5% da população, valor dentro dos padrões internacionais.
Distração do fracasso governamental
Uma das autoras do estudo, Lizette Lancaster, diretora do Justice and Violence Prevention Programme, explica:
"As falsas alegações de que os imigrantes cometem a maioria doscrimes ou sobrecarregam os serviços públicos são frequentemente repetidas por políticos e pelo Governo, reforçando o sentimento negativo.”
Isto serve, diz, "para desviar a atenção do fracasso do Estado em prestar serviços, devido à corrupção e à má gestão”.
Os dados criminais analisados mostram que os imigrantes não cometem mais crimes do que os sul-africanos. Apenas 2,3% dos prisioneiros condenados por ano são estrangeiros sem autorização de residência.
"A maioria dos crimes é cometida por sul-africanos, embora possam ter ligações a redes internacionais. A crise criminal é da responsabilidade do próprio país", sublinha Lancaster.
Os autores do estudo alertam que culpar estrangeiros pelos males sociais é parte de uma tendência global preocupante.
Tragédia e investigação criminal
Nem os doentes escapam ao zelo do grupo. Em julho, uma mãe malawiana e o seu bebé de um ano foram impedidos de entrar num centro de saúde em Alexandra por membros da Dudula, por não terem um documento sul-africano. O bebé morreu pouco depois.
O partido Economic Freedom Fighters (EFF) apresentou queixa por homicídio, e a polícia abriu uma investigação contra o grupo.
Segundo Guilengue, apenas setores da EFF e da Aliança Democrática (DA) — o maior parceiro do Congresso Nacional Africano (ANC) — se opõem firmemente à narrativa de Dudula.
O ANC, diz, tem contribuído para ela ao endurecer a lei da imigração, dificultando o acesso de estrangeiros com baixa qualificação a licenças de trabalho.
"Mistura tóxica" de desconfiança e corrupção
Os protestos anti-imigração têm mobilizado grandes multidões, especialmente em KwaZulu-Natal, Durban e Joanesburgo. Guilengue afirma que há "um número considerável de sul-africanos que culpam sobretudo os estrangeiros". No fundo, a Dudula procura poder político.
Lancaster, do ISS, não vê perigo imediato para a democracia: o movimento tem poucos apoiantes, concentrados em zonas urbanas pobres e sobrelotadas, com alto desemprego e carência de serviços.
"As pessoas sentem-se esquecidas pelo governo", diz. "Mas mais de 90% dos sul-africanos não apoiam a violência contra migrantes."
O ISS defende que o Estado deve tornar os dados populacionais mais acessíveis ao público e às instituições, para combater a desinformação.
Por enquanto, a situação é agravada por uma "mistura tóxica" de desconfiança em relação aos migrantes e corrupção policial: agentes que, segundo Lancaster, extorquem subornos de estrangeiros durante as verificações de documentos.