África está a tornar-se o destino dos migrantes dos EUA?
25 de agosto de 2025
A repressão à imigração ilegal é um dos pilares da política interna do presidente dos EUA,Donald Trump, fazendo parte da sua promessa de campanha de realizar "a maior operação de deportação da história americana".
Deportar estes migrantes para países africanos não fazia parte do plano original que o Presidente anunciou quando concorreu à presidência da Casa Branca em 2024. No entanto, o Departamento de Segurança Interna dos EUA afirmou no passado mês de junho que as deportações para países terceiros eram necessárias de forma a expulsar pessoas adjetivadas de "tão bárbaras que os seus próprios países não as aceitam de volta".
O Uganda tornou-se agora o mais recente país da África Oriental a aceitar um acordo com Washington, comprometendo-se a acolher um número ainda por especificar de migrantes que não se qualificam para permanecer nos Estados Unidos.
Poucos dias antes da confirmação do acordo, o ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros do Uganda, Henry Oryem Okello, afirmou que o país não tinha capacidade para acolher migrantes. No entanto, mais tarde, Vincent Bagiire, secretário permanente do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Uganda, confirmou o acordo, afirmando que se tratava apenas de algo temporário.
Alex Vines, diretor do Programa África da Chatham House, destaca que este acordo se baseia em negócios entre os EUA e outras nações africanas adotados no início do ano. "Em julho [de 2025], um pequeno número de pessoas foram enviadas para o Sudão do Sul e Eswatini. Foram menos de 10 no total, mas indica a direção do processo", disse Vines à DW. O acordo com o Uganda é muito mais ambicioso.
"Os próprios ugandeses afirmaram que não querem pessoas com antecedentes criminais ou menores e preferem aceitar africanos", explica.
Uganda acolhe maior população de refugiados de África
O Uganda conta com cerca de 1,7 milhões de pessoas alojadas em vários campos em todo o país, de acordo com as Nações Unidas.
Na sua maioria, são requerentes de asilo e refugiados reconhecidos, provenientes de outros países da região, como a República Democrática do Congo, o Sudão do Sul e o Sudão.
Na generalidade, estas comunidades de imigrantes vivem pacificamente ao lado da população local, mas isso pode mudar.
"O Uganda é um país hospitaleiro, que acolhe muitos refugiados... isso não é nada de especial para nós. Mas, como país de acolhimento, já estamos a sufocar", disse à DW, Dorcus Kimono, moradora de Kampala.
"Se esses migrantes vêm para o nosso país, não nos importamos de partilhar com eles o pouco que temos. Mas o que é que o governo americano está a fazer por nós?", questionou.
Alex Wandeba, também residente de Kampala, partilha da mesma opinião: "O Uganda já está sobrecarregado; temos muitos refugiados dos países vizinhos, República Democrática do Congo, Sudão do Sul. Na minha opinião, acho que já temos o suficiente. Seria melhor que os migrantes fossem levados para outro país".
Grupos de defesa do direitos humanos criticam
Embora os governos anteriores dos EUA também tenham realizado deportações para países terceiros, a prática de Trump de enviar imigrantes para países com crises políticas e humanitárias tem causado alarme entre os grupos de defesa de direitos humanos.
Exemplo disso foi em julho, quando os EUA enviaram cinco imigrantes do Vietname, Jamaica, Laos, Iémen e Cuba para o Eswatini.
Entretanto, o Sudão do Sul, devastado pelo conflito, também concordou em aceitar imigrantes enviados pela administração Trump.
Edmund Yakani, presidente do Fórum das Organizações da Sociedade Civil da África Oriental, disse à DW que os detalhes do acordo estavam a ser mantidos em segredo do público.
Alex Vines, por sua vez, acredita que tudo se resume a um jogo de geopolítica:
"Trata-se desses países procurarem diversificar as suas parcerias e gerar melhores relações com o governo Trump, que podem trazer dinheiro e outros benefícios a longo prazo para eles",disse.
"Eswatini, Sudão do Sul e Uganda, os três países têm um historial muito fraco em termos de governação e direitos humanos, pelo que isto também pode ser visto como uma medida compensatória", acrescenta Vines.
A porta-voz do governo ruandês, Yolande Makolor, confirmou que o seu país também acolheria até 250 deportados dos EUA, sob a condição de que o governo mantivesse "a capacidade de aprovar cada indivíduo proposto para realocação" nos termos do acordo.
Outros países africanos que se sabe terem sido abordados pelos EUA para acordos de deportação incluem a Libéria, o Senegal, o Gabão, a Mauritânia e a Guiné-Bissau.
A Nigéria rejeitou explicitamente qualquer proposta dos EUA, com o seu ministro das Relações Exteriores, Yusuf Tuggar, a afirmar que o país já tinha "problemas suficientes".