19 vozes jovens dos PALOP "unidas" em nova antologia
27 de agosto de 2025
Uma antologia a propósito dos 50 anos das independências nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) é lançada, esta quarta-feira (27.08), em Maputo. Organizaram a obra os escritores Eduardo Quive, de Moçambique, e Israel Campos, de Angola.
Denominada "Construir amanhã com barro de dentro", a obra conta com 19 contos de novos autores da África lusófona.
Em entrevista à DW, o escritor Eduardo Quive diz que a obra, que inclui apenas escritores nascidos no pós-independência, é também uma reivindicação de espaço que direciona os holofotes para seletos nomes da literatura dos PALOP: é um deselitizar da literatura.
DW África: Esta é a primeira antologia que reúne 19 vozes da literatura jovem dos PALOP. Qual é o significado desta iniciativa?
Eduardo Quive (EQ): Sim, esta é a primeira e, felizmente, a reunir logo 19 vozes. Esperamos que seja uma porta para futuras publicações, quem sabe até livros integrais.
DW África: Esta antologia é também um contributo para deselitizar a literatura nos PALOP, ao destacar os novos rebentos da literatura?
EQ: Sim, a intenção é criar novas oportunidades, novos espaços para a demonstração de novos talentos. Muitos destes autores já têm alguma visibilidade nos seus países. O maior problema está na circulação e internacionalização dessas vozes. Juntando todos, é uma maneira de fazer com que haja interesse pelo livro em todos os cinco países, porque em África, os livros não circulam.
DW África: A literatura jovem dos PALOP, de certa forma, ficou ofuscada pelos poucos dinossauros que conseguiram captar a atenção internacional. Como é lutar para sair da sombra, sobretudo no estrangeiro?
EQ: : É muito difícil. Temos muitas desvantagens. São pouquíssimos os escritores com [projeção internacional] — dois ou três, no máximo. Alguns países praticamente não têm. E muitas vezes, o facto de autores africanos não aparecerem fora está relacionado com aspetos extra- literários, incluindo racismo sistémico ou preconceitos associados ao "Terceiro Mundo". O facto de muitos escritores não estarem na Europa também dificulta o lançamento dos livros, as editoras não são acessíveis. E também tem a ver com o próprio português. Nós temos português de Moçambique, de Angola, de Cabo Verde... Para um português europeu, esse português pode não ser o correto. Por isso, com esta antologia esperamos contrariar essa tendência.
DW África: No âmbito do lema "a união faz a força", como tem sido a conexão entre os países africanos de língua portuguesa para vingar no espaço internacional?
EQ: : Infelizmente, tem sido muito pouca. Estamos bastante fragmentados. Muitas vezes, os escritores africanos conhecem-se em eventos fora dos PALOP. Por exemplo, eu e a Israel Campos conhecemo-nos no Gana, e não nos nossos países. O que procuramos agora é fazer esta nova frente de união.
DW África: Ainda assim, a vossa antologia conta com a bênção de nomes consagrados, como Paulina Chiziane, que fez o prefácio da vossa obra. Portanto, não há aqui nenhum divórcio litigioso com as referências literárias consideradas mais maduras dos PALOP?
EQ: Não há e muito pelo contrário. Nós temos o prefácio da Paulina Chiziane e posfácio da Inocência Mata. O próprio título da antologia — Construir o amanhã com barro de dentro — é retirado de um poema da angolana Ana Paula Tavares. Portanto, é uma geração antes da independência. Não há rutura, nem conflito.
DW África: Os temas que marcam a literatura antes da independência são os mesmo de hoje e são destacados na vossa antologia, como a revolução e a independência, mas também temas intemporais e transversais na literatura como inquietação... Qual a temática central da vossa antologia?
EQ: O que acontece é que 50 depois, olhamos para os nossos países e para as manchetes dos jornais da imprensa da altura e os problemas continuam os mesmos. Há independência, sim, mas também muita dependência em muitas. A revolução nesse sentido continua e basta ver o que acontece nos nossos países. Continuamos a sonhar 50 anos depois e não devia ser assim.
DW África: Podemos então dizer que a literatura contestatária está bem viva, goza de boa saúde e recomenda-se?
EQ: : Recomenda-se, sobretudo, porque há novas linguagens.