A discreta diplomacia africana sobre Ormuz
14 de agosto de 2026
Há quase seis meses que uma das principais artérias do comércio mundial está congestionada: depois dos primeiros ataques aéreos americanos e israelitas na guerra contra o Irão, iniciada no final de fevereiro, o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz foi reduzido ao mínimo. Por vezes, forças iranianas atacaram navios mercantes; noutras ocasiões bastaram ameaças vindas de Teerão ou mesmo de Washington.
Várias rodadas de negociações, um memorando conjunto e propostas de países terceiros para missões navais ainda não conseguiram estabilizar a situação. Resta saber se um acordo entre o Irão e Omã sobre a rota marítima no Golfo Pérsico poderá mudar essa situação.
Em todo o mundo, a guerra encareceu os combustíveis fósseis e, consequentemente, contribuiu para o aumento da inflação. Em África, que é, afinal, um continente vizinho da região do Golfo, as dificuldades de abastecimento provocaram, em alguns lugares, uma escassez real, incluindo filas de carros em postos de gasolina, que ficaram sem combustível.
E, como muitos fertilizantes também vêm da região do Golfo, há risco de colheitas fracas. Os governos africanos, portanto, têm todos os motivos para se empenhar diplomaticamente por uma solução duradoura.
Diplomacia cautelosa
"Acredito que o seu plano de longo prazo ainda se baseia na suposição de que a crise no Médio Oriente poderá continuar", afirma Liesl Louw-Vaudran, responsável pelo dossier União Africana na ONG de segurança International Crisis Group (ICG). Sobre o memorando assinado entre os Estados Unidos e o Irão em junho, a analista acrescenta: "Não vemos sinais de que o documento tenha provocado otimismo ou mudanças no planeamento económico. Acho que todos estão à espera para ver como a situação evoluirá nos próximos meses."
Nos últimos meses, a diplomacia africana em torno de Ormuz foi marcada principalmente por tons moderados: houve repetidos apelos por soluções negociadas, iniciativas diplomáticas foram elogiadas e destacou-se a importância de uma ordem internacional baseada em regras. Além disso, alguns governos africanos demonstraram solidariedade aos Estados árabes do Golfo, que, como aliados dos Estados Unidos, foram alvo de ataques iranianos.
Os atuais membros africanos do Conselho de Segurança da ONU - República Democrática do Congo, Somália e Libéria - apoiaram, em março, uma resoluçãoque condenava duramente os ataques iranianos contra os países do Golfo.
Donald Trump, o elefante na sala
O que chama atenção na comunicação oficial, porém, é que as acusações de responsabilidade são cuidadosamente evitadas - sobretudo contra o Presidente dos Estados Unidos, que, juntamente com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, lançaram a ofensiva militar que desencadeou a guerra.
"Qualquer pessoa racional no mundo sabe que essas crises foram provocadas por Donald Trump", afirma Dismas Mokua, analista de risco político da empresa de consultoria queniana Tricarta. "Mas a maioria dos líderes africanos e do mundo inteiro teme as consequências de dizer isso abertamente. Políticos europeus e asiáticos também evitam o assunto. Ainda não vi nenhum líder político de alto nível criticar Trump publicamente, provavelmente porque temem as consequências de tais declarações."
E se toda a África falasse a uma só voz - por exemplo, por meio da União Africana? A consultora do ICG, Louw-Vaudran, considera que há uma experiência negativa que ainda é muito recente: "A UA teve um dissabor logo no primeiro dia da guerra na Ucrânia, em 2022, quando o então presidente criticou a Rússia. Houve chefes de Estado que o repreenderam e declararam que a Comissão da UA não tinha mandato para comentar assuntos externos em nome de toda a África. A UA tem 55 membros, e eles desenvolveram posições diferentes sobre essa questão. Desde então, a Comissão da UA ficou mais cautelosa ao emitir declarações políticas sobre a grande e rapidamente mutável geopolítica."
"Aliviar os sintomas"
Além disso, a crise exige aos governos não apenas reações verbais, mas também ações concretas. "Para sair com sucesso de uma perturbação global deste género, é preciso reorganizar as cadeias de abastecimento e descobrir formas de atender aos próprios interesses", afirma Dismas Mokua. "Na minha opinião, o Quénia conseguiu fazer isso muito bem. Ninguém reclama da falta de produtos, nem mesmo os agricultores comerciais. Isso é um sucesso. E o abastecimento de petróleo e gás também não entrou em colapso - as entregas continuam constantes, embora mais caras."
No país vizinho, a Etiópia, a situação foi diferente em alguns momentos: problemas de abastecimento obrigaram temporariamente o governo a distribuir combustível prioritariamente às forças de segurança, aos transportes públicos e à agricultura, enquanto particulares enfrentavam filas em postos que estavam a ficar sem combustível. Antes da guerra, a Etiópia também era um dos principais parceiros comerciais africanos do Irão. Essa relação está agora ameaçada, especialmente porque, ao mesmo tempo, a Etiópia aposta em boas relações com os Emirados Árabes Unidos e, cada vez mais, com a Arábia Saudita.
Países como a Etiópia e o Quénia também enfrentam outro efeito indireto da guerra no Irão: Se as economias dos Estados do Golfo entrarem em dificuldades, as remessas de dinheiro dos trabalhadores migrantes da África Oriental diminuirão.
O choque de Ormuz
Ainda assim, há em África países que, a longo prazo, podem até beneficiar-se da situação de incerteza no Golfo. A Nigéria colocou em funcionamento a gigantesca nova refinaria Dangote, inicialmente prevista para aliviar a escassez de combustíveis no país rico em petróleo e que agora se tornou um importante ponto de apoio no mercado mundial. Em abril, a refinaria chegou a tornar-se a maior exportadora de combustível para aviação.
Durante a crise de Ormuz, a Nigéria ofereceu-se como parceira para clientes africanos; o grupo Dangote já planeia outra refinaria no Quénia. O Governo também tentou uma aproximação com os países do Golfo: no mercado de petróleo, pretende ser parceiro, e não concorrente. "A Nigéria posicionou-se economicamente de forma muito inteligente e também possui petróleo bruto", afirma Liesl Louw-Vaudran. "Mas a Nigéria também enfrenta grandes problemas de governação e segurança, que não são fáceis de superar."
E talvez o efeito menos visível no curto prazo, mas mais duradouro, seja que a crise fornece mais um argumento para acelerar a implementação da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA). "Se nos quisermos tornar independentes dos caprichos das perturbações globais, temos de aprender a fazer comércio dentro de África", afirma Dismas Mokua.
"Ainda há alguns países que não compreenderam o que significa eliminar essas fronteiras artificiais entre os países. Eles temem perder o controlo político. Mas acredito que cada vez mais países africanos estão a enfrentar o desafio de deixar para trás as fronteiras traçadas em Berlim em 1885."