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História

"A independência não era a meta final, era uma etapa"

João Carlos (Lisboa)11 de junho de 2015

Em entrevista à DW África, o ex-Presidente são-tomense assume que houve erros desastrosos após a independência - cometidos por inexperiência governativa e devido à fragilidade da estrutura económica.

Foto: DW/J. Carlos

Miguel Trovoada, 78 anos, foi o segundo Presidente da República de São Tomé e Príncipe (1991-2001), depois de Manuel Pinto da Costa.

O fundador da Ação Democrática Independente (ADI) inaugurou em 1991 o regime multipartidário, pondo fim aos primeiros 15 anos de partido único. Antes, Trovoada, um dos históricos do MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe), foi um dos nacionalistas que se envolveram, a partir do exterior, na luta que conduziu à proclamação da República Democrática de São Tomé e Príncipe, a 12 de julho de 1975.

O ex-chefe de Estado faz parte da lista dos antigos associados da Casa dos Estudantes do Império, recentemente homenageados em Lisboa. Mas, segundo Trovoada, a Casa não teve, de uma forma direta, um papel decisivo no processo para a independência do arquipélago. Ela contribuiu sim para a formação da consciência política de muitos dirigentes africanos.

"A independência não era a meta final, era uma etapa", diz Miguel Trovoada

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DW África: Qual foi a importância da Casa dos Estudantes do Império na luta pela independência?

Miguel Trovoada (MT): A Casa dos Estudantes do Império teve um papel importante na formação e consciencialização política de muitos estudantes africanos que a frequentaram ao longo dos anos e que, depois, vieram a desempenhar um papel no quadro da luta pela independência dos seus países.

DW África: Qual era a ligação entre o MLSTP e outros movimentos nacionalistas africanos?

MT: Nós criámos em 1961 a CONCP [Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas]. Já mostra que havia esta ligação. Eu próprio estive um ano em Conacri, quando saí de Lisboa, e vivia com Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, Aristides Pereira, que eram também dirigentes dos outros partidos em luta pela independência nacional. Portanto, a ligação era estreita. Mais tarde, quando ascendemos à independência, o MLSTP, o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola], a FRELIMO [Frente de Libertação de Moçambique], todos, mantiveram este espírito de unidade, colaboração e fraternidade.

DW África: Por que razão não houve luta armada de libertação em São Tomé e Príncipe?

MT: Um país isolado, a algumas centenas [de quilómetros] da costa africana, teria muita dificuldade em desenvolver uma luta armada. O espaço geográfico e territorial era muito pequeno e muito dificilmente podia sustentar uma guerrilha sem que se criassem problemas logísticos ou de segurança. O mesmo fenómeno deu-se em Cabo Verde. Foram circunstâncias ditadas pela própria geografia, mais do que pela História.

DW África: Quais os países que mais apoiaram a causa da independência de São Tomé e Príncipe?

Roça Agostinho Neto, em São Tomé e PríncipeFoto: DW/R. Graça

MT: A Guiné-Conacri, incontestavelmente. Deu emprego a todos nós para que pudéssemos ter uma base de sustentação. Mas também Marrocos e a Argélia, que vinha de uma luta revolucionária e entendia muito mais a necessidade de reforçar o processo de libertação através de um apoio maciço aos movimentos independentistas, inclusive militar. Toda a África, uns mais, outros menos, contribuiu para a nossa libertação, o que não excluiu a continuação de ações bilaterais dos países em prol da nossa luta de libertação nacional.

DW África: Depois, como é que se explica o rápido declínio sociopolítico do país nos primeiros anos após a independência?

MT: Não, sabe, não foi um caso único. Foi um fenómeno que atingiu todos os nossos países. Os dirigentes da luta de libertação não tinham experiência de governação. Reproduzimos modelos na estruturação do Estado um pouco importados e influenciados por aqueles que considerávamos os nossos aliados naturais, no Leste, e que não estavam adaptados à situação nos nossos países. Não nos esqueçamos também que os países ocidentais, na altura da Guerra Fria, ao ver que tínhamos uma ligação muito grande com os países do Leste, não fizeram nada para nos ajudar, claro. Pelo contrário. Quando eles nos pudessem complicar a vida, não se privavam de o fazer. Sabíamos perfeitamente que a independência não era a meta final, era uma etapa. Mas os mecanismos do desenvolvimento foram mais difíceis. A estrutura económica baseada na agricultura tinha como organização as roças que foram nacionalizadas, logo de início, com aquele élan nacionalista, patriótico, e uns laivos de ideologia marxista. Tudo isso levou-nos a fazer opções que, ideologicamente, tinham algum sentido, mas, na prática, se revelaram desastrosas.

Miguel Trovoada diz que esta fase marcou uma etapa, com erros que certamente não serão repetidos. O antigo chefe de Estado afirma que hoje há que gerir o país com outros olhos, utilizando todos os recursos fundamentais para o desenvolvimento nacional. Trovoada sublinha que o poder deve ser um instrumento de realização das aspirações do povo são-tomense e não para a satisfação de pequenos interesses pessoais ou de grupos.

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