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A propaganda de guerra de Putin em África

Martina Schwikowski
29 de novembro de 2022

A RT, emissora estatal russa proibida na Europa e no Canadá desde a invasão da Ucrânia, instala-se na África do Sul e procura aliados em África. Máquina de propaganda do Kremlin ainda é limitada, mas ganha velocidade.

Foto: Sergei Bobylev/TASS/dpa/picture alliance

É apenas uma questão de tempo para que mais propaganda russa seja transmitida a partir da metrópole empresarial sul-africana de Joanesburgo. A RT, anteriormente conhecida como emissora estatal russa Russia Today, quer instalar a primeira sede em língua inglesa do continente africano na cidade de Joanesburgo.

A sul-africana MultiChoice, que gere um importante serviço de televisão por satélite na África subsaariana, também se fechou às emissoras estrangeiras russas, uma semana após o início da guerra na Ucrânia.

Assim, a propaganda russa ficou limitada no continente, excepto em países africanos que ainda têm velhos laços com Moscovo desde os tempos da União Soviética - incluindo a África do Sul.

 "Vivemos uma época em que o governo do apartheid não tolerava jornalistas que julgava ser demasiado críticos, ou que relatavam coisas que não queriam, e expulsou uma série deles. Não queremos voltar a ver nada do género", afirma Anton Harber, professor de jornalismo na Universidade de Witwatersrand de Joanesburgo.

Ao mesmo tempo, Harber adverte o quão perigosa pode ser a propaganda quando as pessoas não se preocupam com os factos e deixam de ter um olhar crítico.

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Reação dos meios de comunicação social

Como está a decorrer a campanha de desinformação do Kremlin no continente e como é que os meios de comunicação social estão a reagir?

"Alguns são bastante indiferentes, outros são muito explícitos nas suas críticas à guerra de agressão russa contra a Ucrânia. Não há um movimento de massas e os debates diferem de país para país", responde Christoph Plate, da Fundação Konrad Adenauer em Joanesburgo.

Plate exemplifica que as pessoas no Quénia e na Nigéria estão muito mais esclarecidas sobre as causas da guerra na Ucrânia, devido a uma sociedade civil crítica e muito ativa nas redes sociais.

"Nas ruas, as pessoas não estão assim tão interessadas na guerra, que está muito longe. Mas entre jornalistas, diplomatas e funcionários governamentais, esta guerra está a ser fortemente discutida", nota.

Muitas embaixadas russas em África são muito ativas na publicação de informações falsas ou na colocação de artigos de opinião nos jornais para promover a narrativa russa em África contra a narrativa ocidental.

Os laços antigos, reativados na sequência da política da Rússia para África, estão a ajudar. "Houve cooperação militar durante a era soviética e foram concedidas milhares e milhares de bolsas de estudo a estudantes de países africanos", lembra Plate.

Retransmissões da RT estão suspensas na União Europeia (UE) desde o início da guerra na UcrâniaFoto: Muhammed Ibrahim Ali/ZUMA Wire/IMAGO

Impacto mediático difícil de avaliar

De acordo com Guido Lanfranchi, do Instituto Holandês de Relações Internacionais, a campanha dos media russos faz parte da estratégia de Vladimir Putin para obter mais poder no continente: "Esta ofensiva de encanto mediático está relacionada com os esforços da Rússia para expandir novamente a sua presença no continente."

Mesmo sem ainda ser muito claro o impacto mediático desta propaganda sobre a população africana, Lanfranchi refere que há provas que "sugerem que um número crescente de pessoas em África tem acesso a estes meios de comunicação e que isto influencia positivamente a sua perceção da Rússia."

Porém, acrescenta, "o impacto real é difícil de avaliar, porque não há estudos concretos nesta área".

A influência da Rússia é significativa na área da cooperação em matéria de segurança. Com 44%, a Rússia é o maior exportador de armas em África. Mas "a presença da Rússia em África está a crescer muito rapidamente em todas as áreas", sublinha Guido Lanfranch.

"A rutura das relações entre Moscovo e o Ocidente poderia acelerar esta tendência, à medida que a Rússia procura novos aliados a nível internacional, pelo que poderíamos ver uma presença russa mais forte no continente no futuro", conclui.

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