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PolíticaAlemanha

Alemanha: Como a AfD quer transformar a Saxónia-Anhalt

Sara Arnaud
8 de setembro de 2026

Com quase 44% dos votos, a AfD afirmou-se como a principal força política da Saxónia-Anhalt. Mas o que pretende fazer o partido, se conseguir formar governo? A AfD tem uma agenda para os primeiros 100 dias.

Ulrich Siegmund, líder da AfD na Saxónia-Anhalt
Ulrich Siegmund, cabeça de lista da AfD nas eleições regionais da Saxónia-AnhaltFoto: Revierfoto/dpa/picture alliance

Ao afirmar-se como a força dominante nas eleições regionais da Saxónia-Anhalt, com quase 44% dos votos, a Alternativa para a Alemanha (AfD) atingiu, no domingo, um novo patamar de influência no país e aumentou a pressão sobre o governo federal alemão.

Embora o partido de extrema-direita não tenha alcançado a maioria absoluta que procurava no parlamento regional, o resultado representa, segundo os líderes da AfD, um "momento histórico". O impacto destas eleições ultrapassa as fronteiras da Saxónia-Anhalt, com potenciais consequências para a política nacional alemã e para o debate europeu em torno da migração, da identidade e da democracia.

Política

Segundo o chanceler alemão, Friedrich Merz, o resultado eleitoral na Saxónia-Anhalt representa um ponto de viragem para todo o país. 

Para os dirigentes da AfD, este resultado demonstra que o crescente descontentamento com a estagnação económica, as políticas migratórias e os partidos tradicionais está a transformar-se em força eleitoral. O partido tem vindo a consolidar-se como a principal força de oposição ao consenso político dominante na Alemanha, especialmente nos estados do leste, onde muitos eleitores sentem que as suas preocupações são ignoradas por Berlim.

Os partidos tradicionais continuam a recusar cooperar com a AfD. O chamado "cordão sanitário" mantém-se oficialmente em vigor. Mas, nas eleições da Saxónia-Anhalt, a AfD ficou a apenas três deputados da maioria absoluta, e é difícil imaginar uma solução governativa regional que ignore completamente o partido.

Os primeiros 100 dias de AfD

Ulrich Siegmund, o candidato da AfD à chefia do governo regional, apresentou uma lista de medidas que pretende começar a implementar, integrada no programa "Visão 2026”.

Uma das prioridades centrais é a "remigração". Ulrich Siegmund prometeu um reforço imediato das políticas de deportação para pessoas que não tenham autorização legal para permanecer na Alemanha. Para concretizar esse objetivo, defendeu o aumento da capacidade dos centros de deportação.

A agenda migratória estende-se também à educação e à integração. A AfD propõe a criação de turmas separadas para crianças refugiadas cujo futuro na Alemanha seja considerado incerto. Paralelamente, os municípios seriam obrigados a desenvolver programas de trabalho destinados aos requerentes de asilo.

Ascensão da AfD deve preocupar os migrantes na Alemanha?

12:11

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Outro alvo da AfD é o sistema público de radiodifusão. O partido considera que os meios de comunicação públicos são politicamente tendenciosos e excessivamente dispendiosos. Entre os primeiros objetivos de Ulrich Siegmund está o início do processo para retirar a Saxónia-Anhalt do acordo entre estados federados que regula a radiodifusão pública. A longo prazo, a AfD pretende substituir a atual taxa obrigatória paga pelos agregados familiares por um modelo de menor custo, financiado por outro tipo de contribuições.

A redução do tamanho da administração regional é outra prioridade. Entre as medidas defendidas encontram-se a supressão de pelo menos um ministério e a eliminação de estruturas consideradas redundantes.

O que acontece nas escolas

Para além das reformas administrativas, a AfD pretende promover mudanças na esfera cultural. 

O partido defende uma presença mais visível dos símbolos nacionais, incluindo a exibição regular da bandeira alemã em edifícios públicos. Também apoia campanhas destinadas a reforçar o sentimento de identidade nacional e patriotismo.

A AfD defende a exibição regular da bandeira alemã em edifícios públicosFoto: Odd Andersen/AFP

Estas propostas tocam num tema particularmente sensível na Alemanha. Desde 1945, a cultura política alemã tem sido marcada por uma grande cautela em relação às manifestações explícitas de nacionalismo, devido à memória nazi. 

No setor da educação, a AfD pretende legalizar o "ensino em casa", que até ao momento não é permitido na Alemanha. 

A AfD também quer que as escolas deem prioridade à bandeira nacional alemã em detrimento de símbolos associados a movimentos sociais ou políticos, incluindo a bandeira LGBTIQ+.

Rússia e Ucrânia

Apesar de os estados federados alemães disporem de competências consideráveis em áreas como a educação e a segurança interna, a política externa continua a ser sobretudo uma responsabilidade do governo federal.

Ainda assim, o programa da AfD na Saxónia-Anhalt inclui oposição ao apoio financeiro à Ucrânia e a defesa do fim das sanções impostas à Rússia. Embora um governo regional não possa implementar diretamente essas mudanças, uma administração liderada pela AfD poderia utilizar a sua influência política e institucional para promover essas posições a nível nacional. 

Alemanha e Rússia: Olho por olho diplomático

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É uma das razões pelas quais os desenvolvimentos na Saxónia-Anhalt estão a ser acompanhados com atenção em toda a Europa. As posições da AfD sobre migração e sobre as relações económicas e diplomáticas com Moscovo enquadram-se numa tendência mais ampla observada em vários partidos da direita nacionalista que têm ganho terreno em diversos países europeus.

O que significa isto para a Alemanha?

Estas eleições evidenciam uma transformação mais profunda da política alemã. A influência tradicional da CDU e do Partido Social-Democrata (SPD) tem vindo a enfraquecer, enquanto a fragmentação do eleitorado e a insatisfação com os partidos tradicionais aumentam.

Mesmo que a AfD não consiga formar governo de imediato, a sua vitória expressiva reforça a narrativa de que representa uma parte significativa da opinião pública alemã. É provável que o partido de extrema-direita utilize este resultado para sustentar a ideia de que a sua mensagem já ultrapassou o mero voto de protesto.

Para o chanceler alemão e líder da CDU, Friedrich Merz, o resultado levanta questões difíceis sobre como responder às preocupações dos eleitores sem legitimar as propostas da AfD. Já para os partidos tradicionais, o desafio será manter o "cordão sanitário" em torno da extrema-direita ao mesmo tempo que procuram responder às causas do descontentamento que alimentam o seu crescimento.

A CDU tem defendido que as propostas do partido em matéria de migração e de "remigração" são incompatíveis com os seus valores e com a sua visão para a sociedade alemã. 

O atual ministro-presidente da Saxónia-Anhalt, Sven Schulze, considerou que os eleitores "enviaram um sinal" aos partidos tradicionaisFoto: Kay Nietfeld/dpa/picture alliance

O ministro-presidente cessante, Sven Schulze, igualmente da CDU, advertiu ainda que as posições favoráveis à Rússia defendidas pela AfD poderão isolar politicamente a Saxónia-Anhalt dos seus principais parceiros nacionais e internacionais.

Para além das medidas concretas, a CDU considera que o projeto político mais amplo da AfD é incompatível com os princípios democráticos e constitucionais na Alemanha, razão pela qual continua a rejeitar qualquer forma de cooperação governativa com o partido. Os democrata-cristãos argumentam, por outro lado, que várias das promessas centrais da AfD, sobretudo nas áreas do asilo e da cidadania, ultrapassam as competências de um governo regional e exigiriam alterações a nível federal ou mesmo constitucional.

Porque é que a Europa está atenta?

Em vários países europeus, os chamados partidos tradicionais têm enfrentado dificuldades para travar a ascensão de movimentos nacionalistas e antissistema. O resultado obtido pela AfD na Saxónia-Anhalt insere a Alemanha numa tendência que já é visível em países como França, Itália e Países Baixos.

Sendo a maior economia da União Europeia, qualquer mudança significativa na política alemã tem inevitavelmente repercussões para além das suas fronteiras. Uma AfD mais forte poderá influenciar os debates sobre migração, integração europeia, relações com a Rússia e o futuro projeto político europeu.

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