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MigraçãoAlemanha

Vale a pena emigrar para a Alemanha atualmente?

Danilson Gomes
7 de maio de 2026

Cidadãos africanos lusófonos na Alemanha falam das oportunidades e dos desafios de começar uma nova vida no país, que continua a atrair migrantes apesar da estagnação económica recente.

Migrantes de Cottbus em feira de emprego
Foto: Rainer Weisflog/IMAGO

Apesar dos sinais recentes de desaceleração económica, a Alemanha continua a afirmar-se como um dos principais destinos para migrantes em busca de melhores condições de vida.

 A promessa de estabilidade, acesso ao mercado de trabalho e apoio social mantém o país no radar de muitos estrangeiros. No entanto, a realidade quotidiana revela um percurso exigente, marcado por obstáculos que vão desde a língua até à adaptação cultural e ao contexto político.

Para compreender melhor esta realidade, a DW África ouviu os migrantes de países da África lusófona, pertencentes a diferentes gerações, que partilham experiências distintas sobre o que significa viver e trabalhar na Alemanha.

História de quem conseguiu estabilizar-se

Joelson Djaló, natural daGuiné-Bissau, vive na Alemanha há cerca de 15 anos. Ao longo deste período, conseguiu não só integrar-se como também criar o seu próprio negócio. Em Hamburgo, fundou uma consultoria dedicada à assistência de migrantes, com especial foco no apoio a recém-chegados.

A ideia surgiu da sua própria experiência enquanto imigrante e da identificação de lacunas no acompanhamento inicial.

"Eu tive a ideia há muito tempo e consegui concretizar. Hoje ajudo muitas pessoas que chegam e têm dificuldades, sobretudo com a língua”, afirmou.

Centro central de acolhimento inicial para requerentes de asilo, AlemanhaFoto: Patrick Pleul/dpa/picture alliance

Djaló destaca o papel do Estado alemão no processo de integração, nomeadamente através de cursos de língua e programas de apoio social. Para ele, o sucesso depende, em grande parte, da iniciativa individual.

A língua: a primeira grande barreira

Se há um ponto comum entre os migrantes, é a dificuldade com o idioma. A língua alemã continua a ser um dos principais entraves à integração, especialmente nos primeiros tempos.

Um cidadão natural de angola, recentemente chegado ao país, descreve esta fase como particularmente desafiante. Sem dominar o idioma, tarefas simples tornam-se complexas, desde interações no dia a dia até exigências profissionais.

"Não é uma língua impossível de aprender, mas exige tempo. No meu curso profissional, a comunicação é essencial — se não percebes bem uma instrução, podes cometer erros”, revelou o migrante angolano que pediu anonimato.

Para ultrapassar esta dificuldade, muitos migrantes recorrem a cursos de integração financiados pelo Estado, bem como a aplicações digitais de aprendizagem.

Adaptação ao clima e ao estilo de vida

Outro desafio frequentemente mencionado é o clima. Para quem vem de países com temperaturas mais elevadas, como os Países Africanos lusófonos, o inverno alemão pode ser particularmente duro.

"O clima não tem nada a ver com o nosso. Mas o ser humano adapta-se. Se outros conseguem viver aqui, nós também conseguimos”, afirmou o cidadão angolano.

Inverno na Alemanha contrasta com temperaturas altas da África Lusófona Foto: Fabian Bimmer/REUTERS

Ainda assim, há quem sublinhe que a Alemanha está bem equipada para lidar com estas condições. Maria dos Anjos, cidadã cabo-verdiana a viver há três décadas no país, considera que as infraestruturas ajudam a minimizar o impacto do frio.

"É um país preparado para o inverno. Há condições para enfrentar o frio de forma mais confortável do que em muitos outros lugares”, disse.

Racismo: perceções diferentes

As perceções sobre o racismo variam significativamente entre os entrevistados.

 Joelson Djaló afirma nunca ter sentido discriminação direta, defendendo que o fenómeno existe em vários países e não é exclusivo da Alemanha: "O racismo está em todo o lado. Aqui nunca senti diretamente”.

Manifestação contra o racismo em Berlim, Alemanha - 21 de janeiro de 2024Foto: Christian Mang/AFP/Getty Images

No entanto, outras vozes apontam para experiências diferentes. O cidadão angolano refere episódios em instituições públicas onde sentiu falta de paciência no atendimento, levantando dúvidas sobre possíveis preconceitos.

Já Maria dos Anjos apresenta uma visão mais crítica, apontando para um racismo estrutural e menos visível: "Não é um racismo direto. É mais subtil, muitas vezes refletido nas oportunidades e nas regras do sistema”.

Segundo a mesma, há uma perceção de que estrangeiros enfrentam mais dificuldades para ascender profissionalmente, sobretudo em cargos de liderança.

Preocupação com o crescimento da extrema-direita

Para além dos desafios do dia a dia, o ambiente político também influencia a perceção de segurança e estabilidade dos migrantes. O crescimento do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) tem gerado preocupação.

Conhecido pelas suas posições críticas em relação à imigração, o partido tem vindo a ganhar expressão no panorama político alemão. Na mais recente sondagem, surge em primeiro lugar nas intenções de voto, com 28% das preferências dos eleitores inquiridos.

Alternativa para Alemanha preocupa migrantes lusófonosFoto: Markus Scholz/dpa/picture alliance

Maria dos Anjos considera que esse crescimento pode ter consequências diretas: "Quando um partido com estas ideias ganha força, aumenta o receio. Pode haver mudanças nas leis que afetem os imigrantes”.

O cidadão angolano partilha da mesma preocupação, defendendo, no entanto, a importância do bom comportamento individual na construção da imagem dos migrantes.

Um país que precisa de migrantes

Apesar das dificuldades, a Alemanha continua a necessitar de mão de obra estrangeira. Setores como saúde, engenharia e tecnologia enfrentam escassez de profissionais, o que abre portas a quem procura oportunidades.

Para muitos migrantes, o objetivo passa por construir uma vida estável, contribuir para a sociedade e alcançar independência financeira.

"Quero aprender a língua, integrar-me e trabalhar. Quero contribuir para o desenvolvimento do país”, afirma o cidadão angolano.

Maria dos Anjos sublinha, no entanto, que o acesso às oportunidades não é igual para todos: "Depende da idade, da formação e das competências de cada pessoa.”

Entre a aprendizagem da língua, o choque cultural, as condições climáticas e as incertezas políticas, os migrantes enfrentam um processo complexo. Ainda assim, muitos conseguem encontrar o seu espaço e construir uma nova vida.  

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