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PolíticaEstados Unidos

Ameaças dos EUA à Gronelândia fragilizam a NATO

Teri Schultz em Bruxelas
8 de janeiro de 2026

Intervenção militar de Washington num país aliado na NATO era, até agora, considerada impensável. Mas administração Trump está a forçar os países da aliança a repensar as suas estratégias.

Avião de Donald Trump
O impacto da escalada retórica entre EUA e Dinamarca sobre a Gronelândia não pode ser subestimado, dizem analistasFoto: Emil Stach/Ritzau Scanpix/AFP

A NATO tem centenas de páginas de planos militares detalhados sobre como se defender em caso de ataque - mas esses cenários de dissuasão e defesa sempre partiram do princípio de um adversário externo. Não existe um manual para lidar com a retórica inflamada do Presidente Donald Trump, ameaçando tomar território de um país aliado.

A estratégia do secretário-geral da NATO, Mark Rutte, tem sido, até agora, o silêncio - uma opção que não deverá ser sustentável por muito tempo. Já a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, tentou conter o "apetite" de Trump ao alertar, na segunda-feira, que "se os EUA optarem por atacar militarmente outro país da NATO, tudo para".

"Incluindo a própria NATO e, consequentemente, a segurança que foi construída desde o fim da Segunda Guerra Mundial", afirmou.

Mas estas palavras custam caro à credibilidade da NATO. Mesmo antes - ou até sem - qualquer movimento militar, o impacto da escalada retórica é grande.

Vantagem para Putin?

"É uma enorme vitória para [o Presidente russo Vladimir] Putin estarmos a ter esta discussão", observou Patrik Oksanen, investigador sénior do Fórum do Mundo Livre de Estocolmo.

Oksanen acrescenta que a atual situação no seio da aliança terá sido o grande sonho dos líderes soviéticos: "Estamos a levar isto muito a sério", afirmou. "Sobretudo porque estas declarações surgiram pouco depois do caso da Venezuela e foram reforçadas, primeiro, pelo próprio Presidente Trump e depois pelo seu assessor [Stephen] Miller", acrescentou.

Miller chegou a questionar tanto a soberania da Dinamarca sobre a Gronelândia como a capacidade das tropas europeias de resistirem aos Estados Unidos.

Nas redes sociais, uma publicação feita no sábado por Katie Miller, esposa do assessor, mostrava um mapa da Gronelândia coberto com a bandeira dos EUA - e a palavra "EM BREVE", o que aumentou a inquietação.

Ed Arnold, do Instituto Real de Serviços Unidos e antigo funcionário do quartel-general militar da NATO, concorda que os danos vão muito além do nervosismo político. "É uma aliança construída com base em valores e confiança", comentou Arnold em declarações à DW. "O simples facto de termos chegado a este ponto já enfraqueceu a NATO."

Para ele, a ideia de haver consultas formais dentro da aliança sobre este assunto cria "má imagem", com "32 aliados sentados à volta da mesa - e a principal ameaça a vir da própria mesa", explicou.

Reforço?

Alguns analistas defendem que uma solução poderia passar pelo envio de tropas europeias da NATO para a Gronelândia, como forma de mostrar a Trump que a defesa do território está a ser levada a sério e que um destacamento unilateral dos EUA seria desnecessário.

Steven Everts, diretor do Instituto da União Europeia para Estudos de Segurança, considera que essa é uma opção válida — mas apenas se for bem enquadrada. "Os europeus devem levar a segurança do Ártico a sério e, se existirem lacunas, devemos procurar preenchê-las", acrescentou.

Ainda assim, Everts alerta que essa estratégia não deve ser vista como uma forma de apaziguar Trump, uma vez que já ficou provado, em tentativas anteriores, que "isso não resulta".

"Isto não é um exercício, ou algo que se possa simplesmente esperar que passe, acreditando que a situação vai melhorar", disse. "Isto só mudará se tomarmos medidas firmes para defender a nossa posição - não de forma agressiva; não vamos combater as Forças Armadas americanas pela Gronelândia, se chegar a esse ponto -, mas temos de ser muito claros sobre como vemos o futuro da Gronelândia, o futuro da aliança e tudo o que isso implica", afirmou.

Bandeira da Gronelândia hasteada no Castelo H.C. Andersen, ou Castelo Tivoli, em CopenhagaFoto: Ida Marie Odgaard/Ritzau Scanpix/REUTERS

Dinamarqueses endurecem a posição

Anders Vistisen, deputado dinamarquês no Parlamento Europeu, concorda com Everts e defende que a Europa deve "parar com os jogos diplomáticos, com cedências e tentativas de convencer os EUA a serem mais razoáveis ou de os apaziguar, seja com mais gastos militares no Ártico, concessões mineiras na Gronelândia ou outras propostas que têm sido discutidas".

Apesar de Vistisen pertencer ao Partido Popular Dinamarquês, de direita, o que poderia sugerir proximidade política com Trump em alguns temas, o eurodeputado ganhou destaque há um ano ao usar linguagem obscena para dizer ao então Presidente dos EUA o que poderia fazer com a sua intenção de comprar a Gronelândia.

À DW, ele diz que prometeu não repetir publicamente a expressão, mas mantém a posição e a estratégia de usar uma linguagem direta para deixar claro a Washington que essa postura é inaceitável. "Chegámos a um ponto de tal gravidade que não pode haver qualquer dúvida ou margem de manobra na nossa comunicação", disse Vistisen.

"Precisamos de uma resposta muito forte e muito clara para dizer à administração americana e ao Presidente Trump: 'Não. Não vão ter qualquer direito sobre a Gronelândia. Não nos vão persuadir, pressionar ou intimidar para agir de outra forma'."

Vistisen afirmou ainda que, apesar de apreciar as declarações de apoio de outros líderes europeus, não acredita que estes estejam dispostos a enviar tropas para a Gronelândia.

Segundo argumenta, a resposta decisiva deve partir da própria primeira-ministra dinamarquesa: "Isto tem de ser resolvido entre o Reino da Dinamarca e a administração dos Estados Unidos", disse.

União Europeia em socorro da NATO?

Um dos colegas de Vistisen no Parlamento Europeu, Per Clausen, do grupo da Esquerda, acredita que a chave da pressão pode estar nas mãos da União Europeia. Clausen divulgou uma carta dirigida aos seus colegas eurodeputados, propondo que a aprovação do acordo sobre tarifas transatlânticas - fechado no ano passado e amplamente considerado favorável aos EUA - seja suspensa até que Washington recue em relação à Gronelândia.

"Se aceitarmos este acordo enquanto Trump ameaça a ordem internacional e faz reivindicações territoriais diretas contra a Dinamarca, isso será visto como uma recompensa pelas suas ações e apenas irá deitar mais lenha na fogueira", lê-se na carta.

"Há muitas medidas económicas que poderíamos tomar e que prejudicariam seriamente os Estados Unidos", afirma Clausen. "E penso que devemos deixar totalmente claro aos EUA que estamos dispostos a usar esse instrumento se não cessarem a agressão contra a Gronelândia."

Críticos duvidam que aliados europeus consigam travar os EUA, se Trump efetivar ameaçasFoto: Guglielmo Mangiapane/REUTERS

Gravidade da ameaça

Falando à DW a partir da Dinamarca, Clausen disse que os cidadãos no país estão "extremamente zangados" - mais do que com medo. E espera que a sua proposta ganhe peso político suficiente para demonstrar que "a Dinamarca não está isolada e que os líderes europeus não se limitam a falar de solidariedade com a Dinamarca e a Gronelândia, mas estão também dispostos a agir."

Steven Everts afirmou ter identificado pelo menos um sinal encorajador nesse sentido: Reunidos em Paris, na terça-feira, no âmbito da "Coligação dos Voluntários" para apoiar a Ucrânia, os líderes da Alemanha, Itália, Polónia, Espanha e Reino Unido juntaram-se à primeira-ministra dinamarquesa numa declaração conjunta, sublinhando que "cabe à Dinamarca e à Gronelândia - e apenas a elas - decidir sobre assuntos que lhes dizem respeito."

A declaração foi difundida pouco antes de um encontro com intermediários norte-americanos, Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump, sem receio do confronto político que isso poderia gerar ou do impacto no apoio dos EUA aos esforços europeus em relação à Ucrânia. É um gesto que pode parecer modesto, mas que, segundo Everts, "reflete a seriedade" com que os líderes encaram a ameaça.

Para Patrik Oksanen, do Fórum do Mundo Livre de Estocolmo, a gravidade da situação exige uma resposta mais robusta, pois muito mais do que o fim da NATO, uma imposição dos EUA sobre a Gronelândia representaria "o fim do mundo tal como o conhecemos".