Amnistia denuncia "comportamento predatório dos poderosos"
21 de abril de 2026
A conclusão retirada pela Amnistia Internacional no relatório anual "A Situação dos Direitos Humanos no Mundo em 2026" é sombria: as violações dos direitos humanosestão a aumentar em todo o mundo, tanto por parte dos Estados como de atores não estatais. Na maioria dos casos, os responsáveis não são punidos.
O mais recente relatório da organização de defesa dos direitos humanos, que acaba de ser divulgado em vários pontos do mundo, afirma que o ano de 2025 foi marcado pela atuação de muitas figuras poderosas que classifica como "predadores".
A Amnistia Internacionaldenuncia em particular líderes políticos cujas acções dominaram as manchetes a nível global no último ano: "Líderes políticos como Trump, Putin e Netanyahu, entre muitos outros, levaram a cabo as suas conquistas para dominação económica e política através da destruição, repressão e violência em larga escala."
"Violar o direito internacional não libertará o Irão"
Segundo Julia Duchrow, secretária‑geral da Amnistia Internacional na Alemanha, a guerra no Irão é atualmente a questão mais urgente. No entanto, sublinha que a Amnistia documentou violações dos direitos humanos em cerca de 140 países.
"No Irão, as pessoas enfrentam uma dupla ameaça: por um lado, os ataques dos EUA e de Israel em violação do direito internacional - incluindo contra a população civil e infra‑estruturas - e, por outro, a repressão do seu próprio governo, que já provocou muitos milhares de mortos", disse Duchrow em entrevista à DW.
Ainda assim, segundo Duchrow, o regime de Teerão só poderá ser substituído se o direito internacional for respeitado: "Os ataques ilegais não conduziram a uma melhoria da situação. Tememos agora represálias ainda mais duras por parte da liderança iraniana contra o seu próprio povo."
Mas não são apenas os Estados Unidos da América (EUA), a Rússia e Israel que há muito abandonaram a antiga ordem mundial. Muitos outros Estados estão também a afastar‑se cada vez mais de um sistema político baseado em regras internacionais firmes, segundo o relatório anual da Amnistia.
"Uma ordem mundial que emergiu das cinzas do Holocausto e da destruição indescritível provocada por duas guerras mundiais, e que foi construída ao longo dos últimos 80 anos - com grande esforço, embora infelizmente sem estabilidade suficiente", refere a organização.
Os países que continuam comprometidos com a democracia, o Estado de direito e a estabilidade internacional parecem frequentemente impotentes e cada vez mais dependentes do apaziguamento.
O que resta da velha ordem mundial?
Será que já nada resta da velha ordem mundial? Pelo contrário, defende a organização de defesa dos direitos humanos. O relatório elogia o "trabalho magistral" de diplomatas e ativistas que, desde 1945, se empenham por um mundo mais pacífico.
"A adopção, em 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, bem como os muitos outros instrumentos normativos debatidos e aprovados ao longo dos últimos 80 anos, não são uma ilusão", é referido.
O relatório afirma ainda que aqueles que hoje lamentam em voz alta o fim da ordem mundial baseada em regras estão, na sua maioria, apenas interessados no seu desaparecimento: "Não haja dúvidas: os relatos sobre a morte da ordem internacional baseada em regras são manifestamente exagerados."
A Amnistia Internacional destaca em particular dois governos: os dos Estados Unidos e de Israel. No que respeita aos EUA sob a presidência de Donald Trump, o relatório refere que, em janeiro de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio apresentou uma visão para uma nova ordem - uma aliança ocidental de civilizações cristãs - que ignora factos históricos fundamentais.
E o relatório é claro: "As palavras não conseguem esconder os factos: trata‑se também de uma história de dominação, colonialismo, escravatura e genocídio."
As observações sobre as acções de Israel contra os seus vizinhos no conflito do Médio Oriente são igualmente contundentes: "Para milhões de pessoas, as salvaguardas internacionais falharam, como no caso dos palestinianos sujeitos a genocídio, apartheid e ocupação por parte do governo israelita.”
E, dirigindo‑se ao Presidente russo Vladimir Putin, o relatório refere que "a Rússia continua a cometer crimes contra a humanidade na Ucrânia."
Esperança no envolvimento da sociedade civil
Tudo isto aponta para uma tendência que parece destinada a continuar sem travões e a gerar novos conflitos. No entanto, pelo menos no caso da guerra conduzida pelos EUA e por Israel contra o Irão, o relatório anual assinala que alguns Estados‑membros da União Europeia (UE) se distanciaram claramente do conflito.
"No início de 2026, alguns países europeus pareceram avaliar melhor os riscos, recusando juntar‑se aos ataques dos EUA e de Israel contra o Irão e comprometendo‑se a proteger a segurança estratégica."
Julia Duchrow encontra ainda motivos de esperança num mundo que parece estar a desmoronar‑se: "No Irão, as pessoas saíram à rua apesar de saberem que as suas vidas estavam em perigo. Na Hungria, as políticas desumanas de Viktor Orbán acabaram de ser afastadas do poder através do voto. E continuam a ser libertadas pessoas detidas, como Maria Kolesnikova, na Bielorrússia, por quem lutámos", diz.
Maria Kolesnikova, conhecida musicista e ativista dos direitos civis bielorrussa, foi finalmente libertada em dezembro de 2025, após cinco anos presa.