As autoridades angolanas têm de perceber que é preciso reduzir a dependência do petróleo, defende especialista. Tarifas impostas por Trump tiveram um impacto negativo no setor e podem enfraquecer procura energética, diz.
O petróleo continua a ser a grande fonte das receitas angolanasFoto: AFP via Getty Images
Publicidade
Gabriel Lembe, especialista em mercado de petróleo, apoia-se também num relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), segundo o qual as tarifas impostas pelo Presidente do Estados Unidos, Donald Trump, aos seus parceiros mais diretos, tiveram um impacto negativo no mercado de petróleo e podem acabar enfraquecer a procura energética.
Ao permanecer assim, será preocupante para Angola, um país que angaria receitas na ordem dos 40% do setor petrolífero para o seu orçamento anual, lembra o especialista em entrevista à DW. Neste mês, já chegou a ser cotado há 69 dólares para o BRENT, referência de exportação de Angola.
O executivo angolano está com perspetivas de proceder uma revistão do Orçamento Geral do Estado, como consequencias mais imediatas da queda do preço do barril de petróleo ao nível do mercado internacional.
DW África: As previsões da OPEP apontam para uma redução no preço do barril de petróleo até ao próximo mês. Esta realidade é preocupante para Angola?
Gabriel Lembe (GL): É preocupante para Angola. O petróleo continua a ser a grande fonte das nossas receitas, quando combinando todas as receitas tributárias que o Estado angaria no setor petrolífero chega a ficar perto dos 40%.
Angola: Só a subida no preço do petróleo não basta
05:51
This browser does not support the video element.
DW África: A ser verdade que haja essa redução do preço do petróleo no mercado internacional, até porque já há previsões do cartel de produção, haverá repercussões negativas palpáveis para Angola?
GL: Uma queda do preço então significa que Angola tem de compensar com mais produção.
DW África: Isto terá implicações fiscais ao nível de Angola?
GL: O debate para Angola até não é tão pontual quanto a este, o debate para Angola é perceber que a nossa dependência do petróleo tem de ser reduzida. O governo reconhece isso, por isso, é que se incentiva bastante a diversificação da economia.
DW África: Já há elementos a curto prazo para avançar na questão da diversificação da economia, caso haja uma redução?
GL: Não, ainda não. A nossa economia é dependente, contudo existem projetos estruturantes dentro da indústria petrolífera. O petróleo dá-nos divisas, então existe esta dependência das divisas. Mas aqui implica o porquê, porque as divisas que nós angariamos com as vendas do petróleo são também usadas para compra de derivados.
Angola angaria receitas na ordem dos 40% do setor petrolífero para o seu orçamento anualFoto: Simão Lelo/DW
DW África: Há muito otimismo de que não vai acontecer algo contra Angola?
GL: Angola vai ter as pressões normais que já tem, aquelas pressões normais.
DW África: Há motivos para alarmes ou nem por isso?
GL: Há motivos de uma preocupação cautelosa e não de alarme ainda. Não precisamos apertar o alarme. O preço do barril de petróleo entrou para 69 dólares para o Brent que serve de referência para o nosso país e o nosso orçamento geral é de 70 dólares. Já tivemos preços ao longo do ano que estiveram acima dos 70 dólares, portanto excedentes que Angola já ganhou durante este período. Estamos a falar de 130 mil barris que se aumentam no mercado, não vai criar ainda grandes problemas.
DW África: Quais são os principais países de exportação do petróleo de Angola?
GL: Temos cerca de 40% da nossa produção a exportar para a China, temos os Estados Unidos, a Índia, Africa do Sul , França e até o Canadá.
Angola: Diversificar a economia através da agricultura
O petróleo é a principal fonte de receitas de Angola. Face à crise no mercado internacional, o país procura diversificar a sua economia nomeadamente através da agricultura.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Estado das vias de acesso preocupa
Há 10 anos o Governo realiza, anualmente, a Feira da Banana no Bengo. Apesar do nome, a feira contempla diversos produtos. Bengo possui uma área arável de cerca de 1 milhão de hectares. As culturas mais predominantes são a mandioca, batata doce, feijão, banana, ginguba e batata rena. Mas o estado degradante das vias de acesso tem gerado perdas significativas aos produtores.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Produção nacional de Banana
A produção de banana é uma fonte de rendimento para muitas famílias, gerando postos de trabalho e desenvolvimento nas regiões de produção. Em 2023, a província angolana do Bengo produziu mais de 443 toneladas de banana. Martins Albino, produtor, diz que no município de Bula Atumba explora 8 hectares e consegue colher mais de 100 cachos de banana por mês.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Para quando o relançamento do café?
A produção de café em grande escala também pode ajudar Angola a depender menos do petróleo. O país, antes independência, já foi um dos maiores produtores de café. Os conflitos armados, o envelhecimento da mão de obra e o relaxamento dos produtores freou a sua elevação. Nos últimos tempos, tem havido maior aposta na produção.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Do bombó vem o funge
Na região norte de Angola, o funge de bombó, cuja matéria-prima é a mandioca, é um dos principais alimentos. Rosa José, que vive desta produção há mais de 20 anos, conseguiu empregar três trabalhadores. Em um ano colhe e comercializa mais de uma tonelada de bombó. Face aos níveis de produção na sua localidade, diz que tem procurado vender o bombó em outros mercados.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Cana-de açúcar é outra alternativa
Também a produção de cana-de açúcar já proporcionou muitas alegrias a Angola. A cidade capital do Bengo encontra-se numa zona que recebeu o nome de "Açucareira" precisamente por conta dos elevadores níveis de produção.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Das águas angolanas chegam outras valências
Peixes de diferentes espécies podem ser encontrados no rio ou no mar, na província do Bengo. Ambriz, por exemplo, é conhecido por ser um município piscatório devido ao seu potencial no que à pesca diz respeito. Quem visita a municipalidade não pode deixar de provar a "madiquita".
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Kizaca, o "frango verde" de Angola
Além da mandioca que dá origem ao bombó, da mesma produção vem a kizaca. Um alimento que durante a pandemia da COVID-19 ficou conhecido em algumas zonas de Angola como "frango verde". Muito presente na mesa dos angolanos, a kizaca pode acompanhar o funge, o arroz e até mesmo o molho.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Produção de laranja
Este é outro produto que muito se cultiva em Angola: a laranja. Nesta feira em que participam mais de 500 expositores, com um volume de negócios de mais de cem milhões de Kwanzas (cerca de 109.453€), os participantes aproveitam para fazer negócios. O Governo do Bengo contempla um total de 156 associações de camponeses e 187 cooperativas agropecuárias, grande parte integrada por ex-militares.
Foto: Antonio Ambrosio/DW
Autoridades e produtores buscam soluções
Sentados "à mesma mesa", autoridades e produtores buscam soluções para melhorar e impulsionar a produção nacional e alavancar a diversificação da economia do país.