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"Angola e RDC podem formar parceria estratégica para África"

17 de setembro de 2025

A cooperação económica esteve em destaque no II Fórum Científico RDC-Angola. À DW, Rui Verde sublinha que ambos podem formar uma parceria estratégica para ser o motor da África Austral.

Corredor do Lobito, Angola
Segundo Rui Verde, jurista e vice-presidente CEDESA, as convergências e interesses comuns entre Angola e a República Democrática do Congo inclui, entre outros, o Corredor do LobitoFoto: Borralho Ndomba/DW

A cooperação económica entre Angola e a República Democrática do Congo (RDC) esteve em destaque no II Fórum Científico RDC-Angola, esta segunda-feira (15.09), em Bruxelas. 

O evento, promovido em parceria com a Rede de Investigação Científica de Angola (Angola Research Network), reuniu académicos, diplomatas e investigadores para debater temas centrais como a paz, a segurança regional e cooperação internacional, abordando desafios e soluções para a estabilidade da região.

Rui Verde, jurista e vice-presidente CEDESA, foi um dos intervenientes. Em entrevista à DW, o jurista destaca a importância da cooperação económica entre Angola e a RDC, sublinhando que ambos podem formar uma "parceria estratégica para ser o motor da África Austral", resolvendo os problemas da região sem a intervenção de potências externas.

DW África: O que destaca do Fórum RDC-Angola e quais as principais conclusões retiradas?

Rui Verde (RV): Destaca-se como a única atividade deste género que podemos chamar de diplomacia científica que reúne especialistas, diplomatas e jornalistas ligados a Angola e à República Democrática do Congo para discutir as relações entre os dois países.

Portanto, neste aspeto, é um fórum único. A grande conclusão retirada é que, para resolver os problemas da República Democrática do Congo, Angola e a RDC podem constituir uma parceria que seja o motor da África Austral, tal como Berlim e Paris são o motor da Europa.

Quer dizer, o caminho é muito mais longo, mas há muitas convergências e interesses comuns que podem permitir esse destaque e fazer-se aquilo que se costuma se chamar serem os africanos a resolverem os problemas africanos e não intervenientes terceiros como agora está a acontecer.

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DW África: Quais são essas convergências e interesses comuns?

RV: O corredor do Lobito é um deles. A necessidade de uma integração económica entre os dois países é outro. Os problemas da guerra no leste do Congo estavam a ser resolvidos com a mediação de Luanda e depois entraram novos atores que acabam por ter uma perspetiva mais extrativista e ligada aos negócios e não à pacificação. E o desenvolvimento é outro. Portanto, há vários fatores a considerar.

DW África: E Angola reúne atualmente as condições para levar isso em frente?

RV: Sozinha não tem, obviamente. Tem de ser sempre um trabalho conjunto entre Angola e a República Democrática do Congo. Como se viu, a Angola, sozinha, não conseguiu resolver o problema da mediação entre o Ruanda e o Congo na Guerra do Leste.

DW África: O que significa, na prática, esta nova fase ou abordagem?

RV: Uma nova abordagem aos velhos problemas. Uma abordagem que passa mais pela cooperação entre os dois países e a tentativa de resolver os assuntos da África pelos próprios africanos, tentando que não sejam as grandes potências a colocar uns contra os outros.

Digamos assim, a perspetiva que se quer é outra e perceber as vantagens da integração económica e das relações económicas para garantirem a paz nesta zona, também com o Ruanda. Portanto, uma cooperação económica que irá beneficiar os dois países.

DW África: Como vê a cooperação económica entre Angola e a República Democrática do Congo e qual a sua importância para ambos os países?

RV: Relativamente a Angola, é importante que Angola tente aprofundar as relações que tem com a República Democrática do Congo, porque a estabilidade do Congo reflete-se diretamente na estabilidade de Angola.

À lupa: E agora, o que se segue ao acordo RDC-Ruanda?

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Isto é, se há um problema grave no Congo, há uma fuga, uma migração desordenada de pessoas para Angola, provocando mais desequilíbrios do que os que já existem.

Portanto, é muito importante para Angola garantir a paz no Congo e limitar as intervenções que possam levar a guerras.

DW África: Na sua intervenção, falou sobre o acordo de 27 de junho entre o Ruanda, a República Democrática do Congo e os Estados Unidos. Quais são, na sua opinião, os principais impactos desse acordo?

RV: Essa minha intervenção foi sobre o acordo assinado a 27 de junho e que envolveu o Qatar, os Estados Unidos, o Ruanda e a República Democrática do Congo, salientando os aspetos económicos porque esse acordo, e ontem mesmo saiu uma regulação do mesmo acordo, tem uma questão fundamental, que é criar uma espécie de zona, chamemos-lhe livre comércio ou integração económica, entre o leste do Congo e o Ruanda, que permitirá ao Ruanda explorar já de forma legal, digamos assim, as riquezas do leste do Congo.

E nesse aspeto, é bom para o Ruanda. Agora temos de ver quais são os benefícios efetivos que o Congo vai tirar coma entrega de exploração económica e, obviamente, se espera que apareçam grandes empresas americanas para essa exploração.

Também se levanta a questão do eventual choque entre as empresas americanas e as chinesas que já lá estão, e, sobretudo, com a mineração artesanal que tem sido a base desse trabalho no leste do Congo, a mineração do coltan. É uma mineração artesanal não é mineração industrial. E talvez seja o problema deste acordo é que só tem em vista aspetos económicos e não foca todos os outros aspetos que é necessário resolver, desde a desmobilização das tropas ao cessar-fogo e também aos benefícios para a população.

A minha intervenção foi exatamente a chamar a atenção para o excessivo economicismo do acordo, para as vantagens óbvias que o Ruanda tira desse acordo e para as dúvidas em relação às vantagens do Congo. 

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