Ativista angolano Domingos da Cruz relançou Observatório da Imprensa, um projeto criado em 2015 para monitorizar o desempenho da comunicação social do país.
Foto: picture alliance / Stefan Rupp
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O Observatório de Imprensa já tinha sido lançado em 2015, mas retirado do ar aquando da detenção do ativista Domingos da Cruz no processo que ficou conhecido como 15+2.
Em 2015, Domingos da Cruz, que foi detido em junho daquele ano com outros 16 ativistas angolanos e cerca de um ano depois condenados pelos crimes de atos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores, preparava-se para o início de avaliações, através de pesquisas e análises da situação da imprensa em Angola.
Esta quarta-feira (10.01.), o projeto foi relançado em Luanda através de um video conferência a partir da Suiça onde se encontra o autor do livro "A Liberdade de Imprensa em Angola – Obstáculos e Desafios no Processo de Democratização".
Desempenho da imprensa angolana
Domingos da CruzFoto: DW/J. Carlos
Domingos da Cruz explicou como o "Observatório de Imprensa” vai monitorar os órgãos de comunicação social angolanos.
"Visa monitorar o desempenho da imprensa angolana, uma avaliação que deverá ser feita com base em pesquisa e análise. O Observatório de Imprensa guia-se pelos critérios do direito internacional sobre a democracia, liberdade de expressão e imprensa, assim como as diretrizes da UNESCO sobre uma imprensa livre, independente e ao serviço do desenvolvimento humano".
O projeto é composto essencialmente por uma equipa de voluntários, explicou Domingos da Cruz, e "sem qualquer fonte de financiamento".
Estudos e análises sobre os media
O ativista referiu que, sem preocupação com a periodicidade, o projeto pretende realizar análises individuais, e, caso haja algum apoio financeiro, estudos e análises bem mais alargadas, em forma, por exemplo, de relatórios sobre o estado da imprensa angolana.Para o seu funcionamento, diz o responsável, o projeto já conta com parcerias de organizações e instituições internacionais.
Foto: António Cascais
"Neste momento estamos em parceria com Friend of Angola, uma organização fundada nos Estados Unidos, temos também parceria com Por Dentro de África, no Brasil. Por outro lado, temos também parceria com a Amnistia Internacional, particularmente o seu escritório regional ao nível da África do Sul".
Voluntários em diferentes partes do mundo, nomeadamente da Guiné-Bissau, de Moçambique, Brasil, Alemanha e Itália, maioritariamente docentes universitários nesses países deverão colaborar com o projeto. De acordo com o ativista e professor universitário, essas pessoas vão "ajudar a tornar o projeto de qualidade", com foco essencialmente nos media nacionais.
Jornalistas independentes e código de ética
Numa análise ao estado atual da imprensa angolana, o ativista referiu que Angola continua a ser um país que ainda não responde àquilo que são as exigências democráticas. "Por isso é que temos que trabalhar muito para que possamos ter um quadro diferente, mas parece haver um certo otimismo, sinto isso, há pessoas hoje que falam sobre a possibilidade de haver um quadro diferente e espero que isso venha a acontecer para o bem de Angola", disse, frisando, contudo, que o país está "muito longe daquilo que são as exigências, bastando comparar com órgãos de outros países".
Angola: Relançamento de Observatório da Imprensa
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A título de exemplo, Domingos da Cruz referiu que é recomendável que os países tenham jornalistas independentes, que criem órgãos para monitorizar a imprensa e ter um código de ética.
"Para que ela mesma monitorize a sua ação e não entidades externas a fazer, por exemplo, no contexto de Angola, será a ERCA (Entidade Reguladora da Comunicação Social) a monitorizar o comportamento dos jornalistas, isso vai contra as exigências internacionais e porque nós sabemos que a ERCA não será composta pela classe jornalística, mas sim por elementos ligados às instituições do Estado ou dos partidos, tudo isso põe em causa aquilo que são as exigências internacionais para que se possa de facto ter uma imprensa livre", considerou.
"Este julgamento é uma palhaçada"
Presos desde junho de 2015, os 15 ativistas aguardam o desfecho do julgamento desde setembro. Recentemente, Nito Alves classificou o julgamento como uma "palhaçada", o que lhe valeu uma condenação a seis meses de prisão.
Foto: picture-alliance/dpa/P. Juliao
"Este julgamento é uma palhaçada"
Depois de quase seis meses de julgamento, Manuel Nito Alves, um dos 15 ativistas detidos desde junho, afirmou que todo o processo era uma "palhaçada". A afirmação valeu-lhe uma condenação a seis meses de prisão. A Central Angola 7311 resolveu criar várias imagens, onde os ativistas surgem com maquilhagem de palhaço, para desmascarar o "circo" em que estão envolvidos.
Foto: Central Angola 7311
Reclusos do Zédu
No início do julgamento, a 16 de novembro do ano passado, os ativistas chegaram a tribunal com t-shirts onde tinham escritas frases de protesto. Luaty Beirão, um dos revus, afirmou na altura que "Vai acontecer o que o José Eduardo decidir. Tudo aqui é um teatro".
Foto: DW/P.B. Ndomba
#LiberdadeJa
Ao longo dos vários meses de processo, foram vários os protestos que aconteceram nas ruas de Luanda e de outras cidades. A Amnistia Internacional pede a liberdade dos prisioneiros de consciência, que se mostram bastante desgastados psicologicamente.
Foto: Reuters/H. Corarado
Prisão domiciliária desde dezembro
Em dezembro, o Tribunal Constitucional de Angola decretou o fim da prisão preventiva dos 15 ativistas. No acórdão era possível ler-se que "cabe ao juiz da causa determinar a medida de coação a aplicar nos termos da lei". A Procuradoria Geral da República propôs a alteração da medida de coação para prisão domiciliária.
Foto: picture-alliance/dpa/P. Juliao
Prisão domiciliária sem fundamento
Em fevereiro, o Tribunal de Luanda decretou que os ativistas deveriam continuar em prisão domiciliária. Praticamente um mês depois, os revus continuam à espera das alegações finais. "Nós sabemos que não podemos esperar nada de bom disto, apenas uma condenação", disse António Kissanda, da Central Angola 7311, à DW.
Foto: Reuters/H. Corarado
"Os 15+2 estão a ser julgados por falar a verdade"
"Falar sobre as boas condições que José Eduardo dos Santos criou não é crime, mas dizer que não há luz, água potável, educação já é", diz António Kissanda. O 15+2 (Laurinda Gouveia, na foto, e Rosa Conde foram constituídas arguidas, mas aguardam julgamento em liberdade) estão a ser julgados porque "falaram a verdade".
Foto: Central Angola 7311
Ativistas usam greve de fome como forma de protesto
Em setembro, Domingos da Cruz, Inocêncio de Brito, Luaty Beirão (na imagem) e Sedrick de Carvalho declararam uma greve de fome contra a prisão preventiva, ilegal nessa altura, ao abrigo da Constituição angolana. Luaty Beirão manteve-se em greve de fome até ao final de outubro. Agora, é Nuno Dala quem usa a greve de fome como forma de protesto: tomou a decisão há seis dias (9.03).
Foto: Central Angola 7311
Julgamento sem fim à vista
Ontem (14.03), realizou-se mais uma sessão do julgamento dos 15+2. David Mendes (à esquerda na imagem), um dos advogados de defesa do grupo, recusa depor como declarante no processo. A sessão de ontem, prevista para as declarações finais, foi adiada para 21 de março, depois de o advogado ter sido impedido de exercer as suas funções como advogado de defesa.
Foto: DW/Nelson Sul d'Angola
"Isto é uma farsa que os levou à cadeia e os mantém na cadeia"
Para António Kissanda, da Central Angola 7311, este julgamento é uma farsa e lembra todos os outros ativistas que, ao longo dos 36 anos em que José Eduardo dos Santos está no poder, foram perseguidos e mortos. "Nós já estamos mortos, para dizer a verdade, só falta estarmos no caixão como prova disso", afirma. "Tal como em qualquer ditadura, é importante que não se criem mentalidades no povo".