As controversas viagens diplomáticas de Chapo
14 de agosto de 2026
Só este ano, até meados de julho, o Presidente moçambicano já realizou cerca de dezassete deslocações internacionais. Uma estratégia que o Governo apresenta como diplomacia económica e de captação de investimento externo. Contudo, a frequência dessas viagens continua a alimentar o debate sobre os resultados concretos alcançados para o país.
Um levantamento feito a partir de comunicados oficiais da Presidência da República, despachos da Agência de Informação de Moçambique e outras fontes públicas aponta para uma média de 2,4 viagens por mês de Daniel Chapo, entre janeiro e meados de julho de 2026.
Em pouco mais de meio ano, o Presidente moçambicano passou por países como os Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Portugal, Bélgica, Quénia, Guiné Equatorial, China, Eswatini, África do Sul, Uganda, Ruanda, Angola, Tanzânia e Estados Unidos.
Para Edson Cortez, o problema não é tanto a frequência das viagens, mas a forma como essas deslocações são feitas. O diretor do Centro de Integridade Pública (CIP) considera que a dimensão das comitivas presidenciais e o recurso a jatos privados passam uma mensagem contraditória aos parceiros internacionais.
País descapitalizado
"É muito difícil de entender que o Presidente da República de um país totalmente descapitalizado, mergulhado numa colossal crise financeira e económica, se desloque em jatos privados para fazer diplomacia de mão estendida, pedindo a parceiros internacionais que invistam em Moçambique ou que apoiem o país em projetos de desenvolvimento. Quem chega de forma opulenta para vir pedir ajuda, a mensagem que passa é que não está a precisar de ajuda. Esta opulência contradiz com a miséria que o povo vive", relata.
Mas, para André Mulungo, oficial de programas do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD), é preciso olhar para estas viagens também à luz das crises que o país atravessa.
"Estas viagens devem ser vistas de duas perspetivas. Uma é de um país que está a sair de uma crise, pós-eleitoral, movida por resultados que dividiram os moçambicanos com forte contestação, que levou, assim, à falta de legitimidade de quem foi considerado vencedor", explica.
"Portanto, essas saídas também devem ser vistas na perspetiva de um Presidente que está à procura de legitimidade internacional e mostrar que é o presidente de Moçambique. Aquilo que nos parece é que [Chapo] gastou mais dinheiro nesse exercício de autoafirmação. A outra dimensão é a de um presidente que herda um país numa crise já antiga, com cofres completamente vazios, à procura de dinheiro, e isso não é mau", argumenta.
Mas há outra questão: Que resultados concretos estão a trazer estas deslocações? Em maio, por exemplo, Daniel Chapo teve uma das agendas internacionais mais intensas do ano. Em apenas quinze dias, esteve na África do Sul, Uganda, Quénia e Ruanda.
Pouco antes, Chapo esteve na China durante sete dias. Foi a visita de Estado mais longa do ano. A Presidência moçambicana apresentou a deslocação como uma oportunidade para mobilizar recursos para projetos estruturantes e relançar a economia moçambicana, com destaque para setores como a mineração, energia e agricultura.
Viagens dão resultados?
Daniel Chapo tem defendido que as viagens começam a dar resultados. Recentemente, durante o lançamento das obras do futuro Centro Cirúrgico Nacional, no Hospital Central de Maputo, financiado pela China em cerca de 40 milhões de dólares, o Presidente apontou o projeto como exemplo do retorno da sua diplomacia. Mas a explicação não convence os críticos, que dizem ser necessário apresentar resultados mais concretos.
"Para já, não nos parece que esteja a ter sucesso nas várias saídas que fez, pelo menos do ponto de vista público, não se consegue ver ganhos significativos. Há viagens que eram dispensáveis ser feitas pelo Presidente, o presidente podia delegar um ministro da área específica para tratar isso e isto não envolve gastos astronómicos como aqueles que temos visto e, obviamente, canalizávamos esse dinheiro para áreas que estamos a precisar como a educação, a saúde, no geral, para os setores sociais", diz André Mulungo.
Para Edson Cortez, a prioridade deveria ser outra: "Se não há dinheiro para as coisas básicas do país, de nada vale continuar a fazer viagens caras e dispendiosas em detrimento de aplicar o pouco valor que há em assuntos estruturais. Moçambique precisa de mudanças rápidas e efetivas."
O diretor do Centro de Integridade Pública pede informações sobre o total de viagens e quanto é gasto em cada deslocação.
"Seria muito bom que víssemos que impacto real é que estas visitas criaram. Para isso, a Presidência e o Ministério das Finanças [deveriam disponibilizar tais informações] nos seus websites, e isso seria transparente, disponibilizar quantas viagens o Presidente já fez desde que chegou ao poder, o valor dessas viagens. Isso também é um indicador para a própria governação, e aferir ele como Presidente, até que ponto é que efetivamente as viagens dele têm gerado algum tipo de retorno para o país", detalha.
Transparência
Para André Mulungo, oficial de programas do CDD, a transparência sobre os custos e os resultados poderia ajudar a responder à contestação que cresce dentro do país. "Se o Presidente quer ser transparente num contexto em que as pessoas exigem informação, ele tinha que dizer e não tem que dizer assim, mandando indiretas em eventos."
A Plataforma Decide estima que as deslocações internacionais realizadas pelo Presidente Daniel Chapo durante o primeiro ano de mandato possam ter custado mais de dois milhões de dólares (cerca de 128 milhões de meticais). Segundo o relatório, considerando 28 viagens internacionais em 2025, uma duração média de quatro dias e delegações de pelo menos 30 pessoas, só as ajudas de custo poderiam ultrapassar um milhão de dólares.
Quando se acrescentam despesas com alojamento, logística, seguros e transporte, o valor total poderá ser significativamente superior, sem contar com eventuais alugueres de jatos privados e várias deslocações nacionais, ultrapassando dois milhões de dólares, o equivalente a cerca de 128 milhões de meticais.
Mas, sem dados oficiais sobre os custos e os resultados de cada deslocação, continua por responder a pergunta: Quanto custa, afinal, a diplomacia de Daniel Chapo a Moçambique e quanto é que ela está a trazer de volta?