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PolíticaPortugal

As mulheres da Revolução dos Cravos

19 de abril de 2014

Foram militares portugueses, homens, que pensaram e executaram o golpe de Estado de 1974 para acabar com a guerra colonial e com uma ditadura de quase meio século. Mas onde estavam as mulheres na revolução?

Manifestação de mulheres em Portugal durante a década de 1970Foto: UMAR/Centro de Documentação e Arquivo Feminista Elina Guimarães

Maria Teresa Horta lembra-se bem daquela noite terrível. A escritora portuguesa acabara de sair de casa. Um carro acendeu as luzes. Ela começou a andar, à procura de um táxi, mas deteve-se. "Vejo que o carro avança, tenta atropelar-me, eu fujo para dentro do passeio, ele pára mais adiante." Dois homens saíram do carro. "Correram para mim, deitaram-me ao chão. E começaram a bater com a minha cabeça no chão e a dizer uma frase espantosa que era 'isto é para tu aprenderes a não escreveres como escreves'."

Um passante foi em socorro de Maria Teresa Horta. Levou-a ao hospital, porque ela estava a sangrar. Os agressores fugiram. Maria Teresa Horta acabara de escrever o livro de poesia "Minha Senhora de Mim", que era, nas palavras da autora, "uma escrita de erotismo, uma escrita dos sentidos, uma escrita que ainda não se tinha visto em Portugal. Que era uma mulher a falar do seu corpo, a falar do corpo do homem."

Eram os inícios dos anos setenta. O ditador fascista português António Salazar já morrera, mas o seu sucessor, Marcello Caetano, deu seguimento à linha conservadora do regime.

O lugar da mulher era em casa, segundo a ideologia vigente na altura. À mulher eram atribuídas as tarefas domésticas e a função de cuidar dos filhos. Nas famílias mais pobres, as mulheres também trabalhavam, mas tinham direitos limitados. Na altura, se uma mulher quisesse trabalhar no comércio, abrir uma conta bancária ou sair de Portugal tinha de pedir autorização ao marido.

Maria Teresa Horta nunca se conformou com essas coisas. Aos 13 anos já colocava questões incómodas em casa. "Comecei a achar estranho que perguntassem a todos os meninos que estavam ao pé de mim 'o que queres fazer quando fores grande?' E a nós, nada!", critica.

A Revolução dos Cravos salvou Maria Teresa Horta da prisãoFoto: privat

O feminismo é algo que lhe deve estar nos genes, graceja. Ainda criança, costumava acompanhar a avó paterna a reuniões de feministas. "Senhoras de chapelinho, que tomavam chá e conversavam umas com as outras", recorda Maria Teresa Horta.

Uma dessas senhoras era a escritora Maria Lamas, que foi presa várias vezes pelo regime ditatorial e forçada ao exílio. Como ela, outras mulheres foram presas por subversão. A ceifeira Catarina Eufémia, por exemplo, foi inclusive assassinada num protesto contra o regime de Salazar.

Sem liberdade nada feito

Antes de lutar pelos direitos das mulheres, era preciso lutar contra a ditadura moralista, diz Maria Teresa Horta. “Não se pode lutar pelo feminismo sem se lutar pela liberdade”, sublinha a escritora.

"Não éramos as feministas americanas, que tinham uma Constituição e uma democracia. Não, nós não podíamos ser nada em Portugal. As mulheres não podiam ser coisa nenhuma. Não tinham direito a nada."

As mulheres da Revolução dos Cravos

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Por isso, até à revolução portuguesa, a luta feminista foi ofuscada pela luta para derrubar a ditadura, explica a historiadora Irene Pimentel.

"As mulheres da oposição ao regime lutavam sobretudo contra o regime, não de forma autónoma. Muitas delas lutavam no seio do Partido Comunista. Outras por questões democráticas, de eleições."

Mesmo dentro dos movimentos de oposição ao regime fascista, a mulher era muitas vezes relegada para o lugar que já ocupava na sociedade machista, refere a historiadora.

"Por exemplo, as mulheres do Partido Comunista Português (PCP) normalmente tratavam das casas dos funcionários clandestinos e tinham as mesmas tarefas no lar. Tratavam da cozinha, etc. Muitas até eram analfabetas", recorda Irene Pimentel.

As mulheres eram tratadas como "companheiras na sombra".

"Retaguarda familiar"

Maria Barroso recebe-nos no escritório da Pro Dignitate, uma fundação de direitos humanos que ajudou a criar em 1994 e a que preside até hoje. Em cima de uma grande secretária estão vários papéis e livros. Mas há um que se destaca no topo: a biografia do marido, Mário Soares.

No livro, Maria Barroso é co-protagonista. Soares foi um dos principais opositores à ditadura portuguesa, Maria Barroso garantia a "retaguarda familiar", escreveu o biógrafo Joaquim Vieira.

As constantes viagens, para contactos políticos, e as deportações de Soares obrigaram Maria Barroso a ficar em casa a cuidar da educação dos dois filhos e do sustento da família, o Colégio Moderno, em Lisboa.

Maria Barroso viveu vários momentos de aflição ao lado do marido. Como no dia em que a polícia política portuguesa, a PIDE, perseguiu o casal a caminho do sul de Portugal.

"Eu até a certa altura disse ao meu marido: 'Tenho a impressão que vinha polícia atrás de nós.' E ele disse: 'Lá estás tu com a mania da polícia.' E quando chegámos ao hotel onde nos instalámos, o homem disse-nos: 'cuidado, acabaram de se instalar junto do vosso quarto gente da polícia política.' E eu até fiquei assustada e fiz uma coisa que parece uma garotice, mas peguei na escova do cabelo do meu marido (risos) que tinha um cabo e pus debaixo do travesseiro e disse: 'Se for preciso lutar...' Mas depois eles ali não fizeram nada", conta.

Numa outra vez, Maria Barroso recebeu uma encomenda com uma bala. Lá dentro havia também uma mensagem que dizia "das dez que esperam o doutor Mário Soares", segundo a biografia do político.

Mário Soares e Maria Barroso numa manifestação a 1 de maio de 1974, uma semana depois da revoluçãoFoto: casacomum.org/Arquivo Mário Soares

Revolução libertou mulheres

Agora, olhando para trás, todas essas dificuldades valeram a pena, afirma Maria Barroso. Porque aconteceu o 25 de Abril de 1974. Nesse dia, ela estava em Bona, na Alemanha, porque Mário Soares tinha encontro marcado com o então chanceler Willy Brandt.

"Estávamos no hotel e era manhã cedo quando recebi o telefonema a dizer-me que tinha havido uma revolução em Portugal. De maneira que eu fiquei muito excitada, acordei o meu marido e disse-lhe: 'Tens que ouvir isto!' E passei-lhe o telefone. Tinha havido, de facto, uma revolução em Portugal", recorda Maria Barroso.

Maria Barroso estava na Alemanha quando recebeu a notícia da revoluçãoFoto: Fundação Pro Dignitate

Nas ruas de Lisboa, os capitães de Abril derrubaram do poder Marcello Caetano. Otelo Saraiva de Carvalho coordenou as operações, as tropas de Salgueiro Maia cercaram o Quartel do Carmo, onde Caetano se refugiou, e foi o general António Spínola que recebeu o poder das mãos do Governo.

Entretanto, uma mulher, Celeste Caeiro, repartiu cravos vermelhos pelos militares, que os colocaram nos canos das espingardas.

A revolução foi uma óptima notícia para a luta pelos direitos das mulheres, diz a escritora Maria Teresa Horta. "Eu costumo dizer que toda a gente ganhou com o 25 de Abril em Portugal. Mas as mulheres particularmente. Porque as mulheres de repente descobriram que podiam ir para a rua, descobriram que podiam dizer não, não quero isto."

A revolução salvou Maria Teresa Horta da prisão. Dois anos antes, ela escrevera as "Novas Cartas Portuguesas" com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Mas o livro foi proibido. As autoridades da ditadura portuguesa acusaram as "três Marias" de pornografia, obscenidade e abuso da liberdade de imprensa. "Nós ousávamos. Nós, mulheres, ousávamos falar da sexualidade de uma forma clara. E mais ainda. Nós falávamos da guerra de África. Isso era uma afronta dupla", afirma.

A escritora recorda-se bem da primeira sessão do julgamento, quando "o promotor público pega num dos textos das Novas Cartas e leu: ‘Ai, os portugueses são tão bons na arena e tão maus na cama.' E pega no livro e deita o livro pelo ar. Uma coisa dramática. Desatou tudo a rir. Até o juiz pôs a mão à frente da cara, porque desatou a rir. Aquilo era uma coisa ridícula. Ele era gordo, pequenino, e então achava que dizer que os homens portugueses eram maus na cama era uma afronta à sua masculinidade."

O julgamento prolongou-se durante meses. Maria Teresa Horta conta que o mais certo era ela e as suas colegas serem condenadas. Mas, entretanto, justamente antes da última sessão do julgamento, deu-se a revolução. Tudo mudou. As "três Marias" foram absolvidas. O juiz chegou mesmo a convidá-las para jantar.

"Não só o juiz disse que nós éramos uns génios e que aquele era um livro fabuloso, como até deu um jantar, uma quantidade de gente, sim senhora, em casa dele, um espavento. E porquê? Porque já estávamos no 25 de Abril", afirma a escritora.

Após muitos meses de julgamento, as “três Marias” foram absolvidasFoto: privat

Depois da revolução, rasgaram-se leis como a que obrigava as mulheres a pedir autorização aos maridos para sair do país. E não só. Segundo a historiadora Irene Pimentel, antes da revolução "não era permitido a uma mulher ser juíza ou diplomata – por exemplo, embaixadora. Era proibido. A seguir ao 25 de Abril, se formos ver, as juízas e as magistradas estão em maioria."

Mas nem tudo foram rosas para as mulheres. No período quente, depois da revolução, Maria Teresa Horta ajudou a organizar uma manifestação de luta pelos direitos das mulheres. Aí, previa-se a queima de símbolos da opressão feminina: vassouras, grinaldas de noiva… Porém, centenas de homens juntaram-se em redor das mulheres e começaram a bater-lhes. "Eram murros, despiam as mulheres, tentavam violá-las", conta a escritora.

Reinava ainda a mentalidade machista, admite Maria Teresa Horta. Ainda hoje, as chamadas "companheiras na sombra" só lentamente saem para o sol. "Claro que na Constituição é proibido trabalho igual e salário desigual. Mas todas as centrais sindicais continuam a permitir e a fazer contratos de trabalho com trabalho igual e salário desigual", critica a escritora. "São eles que mandam sempre. Há uma maioria esmagadora de empresas que continua a ter sobretudo os homens à cabeça. Você olha para a Assembleia da República e aquilo é um deserto de mulheres".

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