Assassinatos: CDD condena "silêncio cúmplice" de Daniel Chapo
13 de outubro de 2026
Em Moçambique, o partido ANAMOLA voltou a denunciar o assassinato de um dos seus membros, Araújo Tendence, quadro sénior do ANAMOLA no distrito de Mopeia, província da Zambézia, na sexta-feira (09.10) .
Segundo o líder do ANAMOLA, Venâncio Mondlane, no total, foram já assassinados quase 60 membros do partido, no espaço de um ano. Além deste caso mais recente, Mondlane denunciou também, nas suas redes sociais, o "rapto e tortura" de outro quadro da formação política no distrito municipal da Katembe, cidade de Maputo. E ontem, voltou a denunciar, na mesma plataforma, mais uma tentativa de assassinato, desta vez ao coordenador do ANAMOLA no distrito de Chibabava.
O Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) considera indispensável que a justiça moçambicana investigue, "com independência e celeridade" todos estes casos. Em entrevista à DW, André Mulungo, do CDD, começa por condenar o silêncio do Presidente da República perante o que chama "assassinatos seletivos".
DW África: Mais um membro do ANAMOLA foi morto. Segundo Mondlane, são já quase 60 vítimas mortais num ano. Como avalia o silêncio das autoridades, em específico do Presidente da República, perante tantas mortes?
André Mulungo (AM): Estamos a falar do mesmo Presidente da República, Daniel Chapo, que quando tem a oportunidade de ter um microfone à sua frente faz questão de condenar as manifestações pós-eleitorais enquanto um fenómeno que está a condicionar o desenvolvimento de Moçambique. Mas esse Presidente já não é capaz de dizer uma única palavra sobre esta onda de assassinatos. Isto levanta várias questões, como, por exemplo, o silêncio do Presidente poder ser interpretado como um silêncio cúmplice. Porque, por um lado, não vemos nenhum sinal de investigação por parte das instituições que deviam investigar esses casos. Estou a falar do SERNIC, do Ministério Público, etc. E, por outro lado, o Presidente da República que não diz nada. Fica a ideia de que o Presidente está num silêncio cúmplice. É como se soubesse de alguma coisa, mas ao mesmo tempo não pode falar sobre por razões que desconhecemos. Aqui, antes de falarmos de políticos ou de membros, ou de indivíduos ligados a partidos políticos, estamos a falar de vidas de cidadãos. E quando vidas de cidadãos são tiradas de forma recorrente, seguindo o mesmo padrão, um chefe de Estado não pode ficar calado diante disto.
DW África: É possível falar de reconciliação e Diálogo Nacional Inclusivo quando membros de partidos da oposição continuam a ser assassinados no país?
AM: É claramente uma contradição. Mas, como dissemos, o diálogo nunca foi sério desde o início. Desde logo porque não incluiu a todos. Mas é um diálogo que não discute as questões centrais que levaram à crise. Mas também é um diálogo que não aborda uma questão fundamental, que é a questão da reconciliação. E enquanto não nos reconciliarmos como moçambicanos, dificilmente teremos paz. É preciso neste momentos nos perguntarmos como sociedade: qual é o estado de espírito das pessoas do ANAMOLA e dos colegas dessas pessoas que estão a ser assassinadas, dos familiares de todas essas pessoas? Como é que estão? A forma como olham para o Estado. Será que olham para um Estado que é justo? Para um Estado que lhes representa? Para um Estado que lhes protege? Ou para um Estado que lhes faz mal? Então, com este ambiente, com este quadro, é difícil nós, como país, nos reconciliarmos. Daí exigirmos que haja investigação. Mas, mais do que investigação, é preciso que haja pronunciamento público do Presidente da República. Pelo menos a condenar e a pedir aos órgãos para que investiguem, para que acabemos com estas matanças. Porque, como disse, não sabemos como é que estão estas pessoas e como poderão reagir aos próximos tempos perante o silêncio do Estado moçambicano.
DW África: Em comunicado, o CDD afirma que esta "ausência de esclarecimentos pode ser interpretada como falta de vontade política para enfrentar a violência". Que consequências pode esta falta de ação trazer para o país?
AM: Este movimento intimida, com certeza, as pessoas. É uma ameaça à participação. Esse movimento é, no fim do dia, uma ameaça à democracia.