Angola: Associação M27 pede esclarecimentos sobre vala comum
11 de maio de 2026
Na passada sexta-feira (08.05), o ministro da Justiça e responsável da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), Marcy Lopes, anunciou terem sido localizados mais de 500 perfis humanos numa vala comum no Cemitério do 14, em Luanda, no âmbito das investigações aos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, um alegado golpe de Estado que envolveu fações do MPLA.
Face às informações sobre a vala, divulgadas na Televisão Pública de Angola (TPA), a M27 manifestou "profunda" preocupação perante a forma como o processo está a ser conduzido, considerando "incompreensível e doloroso" que as famílias das vítimas não tenham sido informadas nem envolvidas previamente.
"Acresce a isso a ausência quase total de esclarecimentos públicos sobre os contornos que levaram ao desaparecimento dos nossos pais e familiares, as circunstâncias das suas mortes e os critérios utilizados para a identificação dos restos mortais encontrados", continuou a M27 em comunicado.
A associação questiona as referências a familiares desaparecidos em diferentes províncias do país e cujos nomes surgem agora associados à vala comum localizada em Luanda, sendo ainda mais "preocupante" a lista divulgada com nomes alegadamente correspondentes aos perfis das ossadas encontradas no Cemitério do 14.
A M27 nota que não foram divulgados de forma transparente à sociedade e às famílias a origem dessa lista, os critérios utilizados, os elementos probatórios existentes e a metodologia científica que sustenta tais associações, "opacidade" que agrava a desconfiança quanto à falta de rigor e transparência do processo e o sofrimento das famílias.
Processo de verdade e reconciliação
A associação acrescenta que tem feito um "esforço sincero", tal como muitas famílias afetadas, para manter o diálogo e contribuir para um processo de verdade e reconciliação, abertura essa que "infelizmente" não tem encontrado reciprocidade, prevalecendo o silêncio e a exclusão.
Sobre a reportagem da TPA, a M27 salienta a profunda dor e consternação que provocou junto das famílias, "que se sentiram emocionalmente devastadas pela forma insensível como um assunto tão traumático e delicado foi exposto publicamente".
"A M27 não procura alimentar divisões nem instrumentalizar esta tragédia", garantiu a associação, defendendo que o processo deve incluir a participação das famílias, a preservação adequada das provas, a identificação científica dos restos mortais, o acesso à informação e o acompanhamento por entidades independentes e organismos internacionais especializados.
"As famílias merecem verdade. Angola merece verdade. E a história do nosso país merece ser tratada com responsabilidade, sensibilidade e respeito", salientou a M27, acrescentando que "nenhuma nação constrói uma reconciliação verdadeira sobre o silêncio, o secretismo ou a exclusão das famílias".
Os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 correspondem a uma alegada tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Agostinho Neto, violentamente reprimida com o apoio de tropas cubanas, num ajuste de contas entre fações do MPLA em que foram detidas e mortas milhares de pessoas, cujo total nunca foi apurado.
Em abril de 2019, o Presidente angolano João Lourenço ordenou a criação da CIVICOP, que tem entre os objetivos a elaboração de um plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos políticos ocorridos em Angola entre 11 de novembro de 1975 e 04 de abril de 2002.