Aviões da Air Mozambique estão totalmente operacionais?
20 de agosto de 2026
Os recentes aviões adquiridos pela Air Mozambique estão ou não integralmente operacionais? Depois da pompa e circunstância na Air Mozambique, na apresentação da nova roupagem da empresa e com a aquisição de mais duas aeronaves, surgem agora denúncias públicas que levantam dúvidas sobre a sua plena operacionalidade.
Segundo o Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD), os dois aviões Embraer, supostamente sem condições, teriam usado as mesmas peças para fazer os mediáticos voos inaugurais da rota lançada no último fim de semana, que liga a região centro de Moçambique.
O diretor da organização não-governamental (ONG), Adriano Nuvunga, descreveu à DW o que classifica como as "ginásticas" entre o Zambeze e o Limpopo: "São aviões podres que estão a ser recondicionados e vivem trocando de peças. Pintados os aviões, segundo informações que nós tivemos, tiraram peças de um avião para conseguir colocar outro a voar, fazer o voo inaugural, fazer fotografias para dar a ideia de que a companhia está a funcionar."
Segundo Nuvunga, isso aconteceu "a meio da semana passada" e quando o avião voltou, "em vez de carregar passageiros, que há necessidade urgente, foi para o hangar. E está no hangar para tirarem peças e devolver ao outro avião, para este também poder fazer o voo inaugural", acrescentou.
O CDD, que tem seguido de perto os sucessivos escândalos de corrupção e má-gestão nas Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), agora Air Mozambique, aponta agora para suspeitas de algo muito grave relacionado à capacidade operacional e solicita a intervenção urgente das autoridades competentes, incluindo do Tribunal Administrativo e de uma comissão de revisão técnica, até como medida preventiva.
"Não é normal"
Adriano Nuvunga não é o único a afirmar estar na posse desses dados. O especialista em aviação Alves Gomes disse à DW que recebeu informações idênticas. "Não é normal que a manutenção de uma companhia aérea devidamente certificada pela autoridade aeronaútica faça esse tipo de operação ao nível da sua área de manutenção, para manter uma aeronave a voar. Mas, de facto, confirma-se que foram tiradas algumas [peças] sobressalentes de um avião para que o outro pudesse efetuar o tal voo inaugural a que se fez publicidade no fim de semana passado", explica.
"Não é normal, pode acontecer uma vez e outra, mas numa situação em que se anuncia que as duas aeronaves já estão operacionais e depois se descobre que não é verdade, porque para que uma esteja operacional a outra fique inoperacional, é muito triste", lamenta.
Não foi possível averiguar as acusações de forma independente. A DW contactou a Air Mozambique para ouvir a sua reação, mas até ao momento não obteve resposta.
Substituição de peças é violação procedimental?
A confirmar-se, a alegada substituição de peças representaria uma violação, do ponto de vista procedimental? "Será violação quando não comunicada à autoridade aeronaútica. Não se pode. Porque um avião quando sai da fábrica, depois de se fazer a substituição das peças, cada uma delas tem um número de série que é atribuído a uma aeronave. Se acontece algum acidente ou incidente que exija uma auditoria ou inspeção, isso vai constar como um grave atropelo às regras de segurança", responde Alves Gomes.
As questões em torno das aeronaves remontam já ao processo da sua aquisição. O especialista em aviação afirma ter tido acesso a informações de avaliações recentes que, segundo diz, apontariam para uma possível inaptidão dos aparelhos.
"Tenho provas de que, de facto, as aeronaves não estavam em condições. Como a Kenya Airways opera Embraer, foram chamados para vir fazer um levantamento do estado em que se encontravam as aeronaves, e essa equipa descobriu [na] buroscopia aos motores [...] que não estavam em condições.", explica Alves Gomes.
Há ainda "muita poeira", como se diz em Moçambique, e pouca clareza sobre a assistência prestada às aeronaves, mas Adriano Nuvunga refere que não está disposto a aceitar opacidade numa empresa de interesse público.
"Detalhes sobre isso não tenho, por isso solicitámos que as entidades públicas de Moçambique interviessem, mandassem parar. Nós solicitámos uma providência cautelar para mandar parar tudo isso e levar ao Instituto Nacional de Comunicações, que supervisiona a qualidade do serviço aéreo, para intervir, mas isso foi bloqueado pelas autoridades e a Justiça em Moçambique, que como se vê, em vez de estarem a proteger o interesse público, estão a atender a expedientes político-partidário", conclui o diretor executivo do CDD.
Tanto o novo nome da companhia de bandeira, como a aquisição dos dois aparelhos têm sido enquadrados como parte de um esforço para melhorar a imagem da empresa, que tem sido bastante criticada, tanto pelos seus serviços como pelas frequentes fragilidades operacionais.