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Bissau: "Não acredito que militares voltem para os quartéis"

João Carlos em Lisboa
22 de dezembro de 2025

O regime militar na Guiné-Bissau tem demonstrado absoluto desrespeito pela comunidade internacional, critica Ruth Monteiro, ex-ministra da Justiça no país, em declarações à DW.

Foto de arquivo: Ruth Monteiro, antiga ministra da Justiça da Guiné-Bissau, em abril de 2020
Ruth Monteiro: "Este regime de Sissoco já desafiou a CEDEAO mais do que uma vez"Foto: DW/B. Darame

A Guiné-Bissau está numa encruzilhada depois do golpe militar de 26 de novembro. Não foi respeitada a vontade popular nas eleições gerais do dia 23, nem há "um mínimo de compromisso com a lei", diz a propósito a ex-ministra guineense da Justiça, Ruth da Conceição Monteiro.

"Este é um golpe atípico, que não se compreende", afirma a antiga governante em declarações à DW. "Uma das primeiras declarações dos golpistas foi suspender a Constituição, mas quando eles criam os seus parlamentares, tomam posse e ocupam as instalações do Parlamento, eles juram a Constituição. E agora estão a rever a Constituição."

Não há um mínimo de compromisso com a lei, continua Ruth Monteiro, referindo que o interesse dos golpistas seria apenas o "exercício do poder pela força das armas e, provavelmente, pelas mãos dos narcotraficantes."

Incoerências na narrativa

A jurista considera que a força das armas contra a população civil coloca a Guiné-Bissau num beco sem saída, supostamente a mando do Presidente cessante Umaro Sissoco Embaló.

"As pessoas que dizem ter dado o golpe contra Sissoco e o seu regime são as que estão no poder. E as pessoas que não estavam no regime e que não tinham acesso às armas são as que foram detidas e estão presas", nota.

A ex-ministra da Justiça aplaude as reações, em vários tons, de "alguma comunidade internacional", nomeadamente da Comunidade Económica de Desenvolvimento dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), União Africana (UA), Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), União Europeia (UE) e da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ainda assim, apesar da pressão internacional, Ruth Monteiro não acredita que os militares vão ceder e deixar o poder. "Este regime de Sissoco já desafiou a CEDEAO mais do que uma vez. Expulsou delegações da CEDEAO. Portanto, tem demonstrado um absoluto desrespeito pela comunidade internacional porque se sente respaldado por forças que desconheço", comenta a antiga governante guineense.

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"Não acredito que eles saiam de boa vontade e que voltem para os quartéis. Porque, se voltarem para os quartéis nos termos da deliberação da CEDEAO, quem nos garante que amanhã – porque não gostam do novo primeiro-ministro ou não gostam do novo Presidente – não voltam a dar o golpe?"

Na opinião de Ruth Monteiro, a CEDEAO deveria ter tido ido mais longe na sua reação ao golpe, aplicando sanções mais incisivas.

Um pedido de desculpas dos militares?

O músico guineense Manecas Costa pede aos militares que voltem para os quartéis em nome da paz: "Acredito que não são todos [nas Forças Armadas] os que estão de acordo com aquilo que está a acontecer", afirma.

"Aquilo é um teatro, que não nos leva a lado nenhum. O apelo que faço: Vamos deixar o país andar. Não podemos estar a destilar os ódios em cada esquina da nossa casa. Isto é que é perigoso."

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O músico, que transporta sempre na sua guitarra a bandeira da Guiné-Bissau, defende o respeito pela vontade expressa nas urnas pelo povo, que vive crises políticas constantes depois da proclamação da independência em 1973. Manecas Costa pede também a libertação dos políticos que foram presos indevidamente, entre os quais Domingos Simões Pereira, líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

"Os militares têm de pedir desculpas e dizer: 'Isto não volta a acontecer'," diz o músico. "É importante sentirem que são parte da independência. Têm de se orgulhar do povo da Guiné-Bissau. Se os militares não se orgulham do povo da Guiné-Bissau, então estamos falhados."

Manecas Costa e Ruth Monteiro são dois dos guineenses na diáspora que participaram neste domingo, nas Jornadas de Luta pela Democracia, Direitos Humanos e Futuro da Guiné-Bissau, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

As jornadas decorrem até 17 de janeiro de 2026, justificadas com a preocupação dos guineenses face à grave situação política, institucional e democrática que se vive no país depois das eleições de 23 de novembro.