Boicote aos exames: "A decisão está nas mãos do Presidente"
11 de novembro de 2025
Em Moçambique, os professores ameaçam boicotar os exames finais do ensino público, previstos para breve, se o Governo não pagar as horas extraordinárias dos últimos três anos.
Desesperada, a Associação Nacional dos Professores (ANAPRO) enviou uma carta ao Presidente da República, Daniel Chapo, mas obteve uma resposta "maluca", diz o presidente da ANAPRO, Isac Marrengula, em entrevista à DW.
"Se o Presidente quer que os exames aconteçam, então que ordene o pagamento", avisa a Associação. Sobre um eventual desagrado por parte dos alunos, Marrengula diz contar com o seu apoio, como já aconteceu anteriormente.
DW África: O que leva a ANAPRO a ponderar um boicote aos exames?
Isac Marrengula (IM): É uma decisão que já foi tomada há muito tempo. Na verdade, não serão os professores a boicotar o exame. Será o Presidente da República a abrir espaço para que os professores possam boicotar o exame. São negociações que vêm sendo feitas já há bastante tempo. Como associação, já levamos este caso para todas as instâncias. Para a Assembleia da República, para o Tribunal Administrativo, para o gabinete do Primeiro-ministro e não nos restava outra alternativa a não ser encaminhar este processo ao próprio Presidente da República. Fizemos isso para o informar que tudo está nas suas mãos.
DW África: Qual foi a reação do Presidente da República, Daniel Chapo?
IM: Foi uma resposta maluca, digamos assim. Se recorremos à Presidência da República é porque já não nos restava mais nada, mais ninguém a quem pudéssemos recorrer. Mas, estranhamente, a Presidência da República disse-nos que recebeu com agrado a nossa carta e que o processo estava a ser reencaminhado às entidades competentes. Voltámos a submeter mais uma outra carta à Presidência da República dizendo claramente que se recorremos à Presidência é porque já não confiamos em nenhuma outra instância, a não ser o próprio Presidente da República. Voltámos a reiterar que se o Presidente da República quiser que os exames decorram a nível nacional, tem de ordenar ao seu Governo para proceder com o pagamento das horas extras.
DW África: Caso persista a ausência de uma reação a ANAPRO pondera avançar para uma greve geral?
IM: Caso não haja uma resposta, os professores poderão avançar para o boicote dos exames. Nós demos como prazo até o dia 15 deste mês para que o Presidente da República possa se pronunciar ou que o Governo pague aos professores. Depois do dia 15, havendo ignorância da parte do Governo, a nós, como associação que representa os professores, não restará outra alternativa a não ser anunciar a paralisação dos exames à escala nacional. A decisão agora está nas mãos do Presidente.
DW África: E se este boicote dos exames tiver o efeito reverso? Já pensou nessa possibilidade de os alunos, que se dedicaram ao longo do ano, se sentirem frustrados por não realizarem a exames e verem o seu futuro relativamente comprometido?
IM: Somos professores, os nossos filhos estão dentro do Sistema Nacional de Educação, algumas das escolas e professores também fazem parte desse mesmo Sistema Nacional de Educação. Estamos preparados. Sem contar que o nosso exame é uma farsa. O aluno não vai ao exame. Em Moçambique não existe exame, porque o professor, muitas das vezes, é obrigado a ter que dar respostas ao aluno. Então, isto é uma grande conjuntura. O que seria bom era que a própria sociedade despertasse, de uma vez por todas, para a causa do professor. A causa do professor não é só do professor, é a causa da nação. O aluno, na verdade, também está ciente disso. Prova disso é que em escolas que boicotaram [os exames] no ano passado tivemos o apoio por parte dos alunos.