Em Chiúre, Cabo Delgado, 98% dos deslocados vivem em sofrimento psicológico sem qualquer apoio especializado. A crise humanitária agrava-se com a ausência total de psicólogos e psiquiatras.
Saúde mental ignorada. Chiúre sem apoio especializado, diz relatórioFoto: DW
Publicidade
A crise humanitária em Cabo Delgado expõe falhas graves no atendimento psicológico: a ausência de psicólogos e psiquiatras deixa milhares sem tratamento adequado.
Um relatório de monitorização aos centros de deslocados em Chiúre, Cabo Delgado, datado de 20 de agosto de 2025, revela uma situação alarmante: 98% das pessoas em sofrimento psicológico não recebem qualquer apoio especializado. Estima-se que cerca de 35 mil deslocados vivam com sintomas de depressão, ansiedade ou trauma severo, mas apenas 652 consultas especializadas foram realizadas até ao momento, todas sem acompanhamento adequado devido à escassez de profissionais.
A cobertura actual, de apenas 1,87%, é considerada "indefensável" pelos padrões humanitários internacionais. Entre as principais lacunas identificadas estão a inexistência de psicólogos e psiquiatras, mecanismos de referenciação frágeis e a sobrecarga das poucas unidades sanitárias em funcionamento. Casos graves, como psicose, epilepsia e trauma complexo, permanecem sem diagnóstico nem tratamento, agravando-se silenciosamente.
Deslocados em Cabo Delgado sem cuidados psicológicos, segundo um relatório a que a DW teve acessoFoto: ALFREDO ZUNIGA/AFP/Getty Images
Saúde mental esquecida
O relatório alerta ainda para o impacto direto sobre profissionais da linha da frente, enfermeiros, professores e agentes de segurança, que também vivenciam situações traumáticas sem qualquer apoio, correndo elevado risco de desenvolver perturbações mentais incapacitantes.
Entre as recomendações urgentes estão a mobilização imediata de psicólogos e psiquiatras, formação intensiva em primeiros socorros psicológicos e a integração do apoio psicossocial com os mecanismos de proteção, sobretudo para crianças desacompanhadas.
A ausência de uma resposta imediata poderá agravar severamente a crise humanitária e de saúde mental no distrito de Chiúre, comprometendo tanto a recuperação das comunidades deslocadas como a resiliência da população local.
Mais de um mês após ciclone Chido: Resposta ainda é lenta
A 16 de dezembro de 2024, o norte de Moçambique foi fustigado pelo ciclone Chido, que deixou um rastro de devastação. Mais de um mês depois, a reconstrução continua lenta na província de Cabo Delgado.
Foto: Delfim Anacleto/DW
Assistência às vítimas
As autoridades governamentais lideradas pelo Instituto Nacional de Gestão de Riscos de Desastres (INGD) avaliam ter prestado ajuda a 71% das vítimas do ciclone Chido. Do grupo de apoio, constam produtos alimentares e alguns materiais de construção para retirar as famílias do relento onde ficaram depois do ciclone ter destruído as suas habitações.
Foto: Delfim Anacleto/DW
Moradia improvisada
Apesar das ajudas anunciadas, um grande número de famílias continua à espera de apoio, principalmente material de construção. Maria Pedro vive no bairro de Metula, em Pemba, e improvisou uma cabana usando restos de chapas de zinco e paus que reaproveitou dos escombros. "Nos dias de chuva, toda a água termina no nosso corpo por falta de abrigo adequado. Ninguém aqui na zona recebeu apoio", diz.
Foto: Delfim Anacleto/DW
Resposta "muito lenta"
Também o presidente do Conselho Autárquico de Pemba avalia a resposta ao ciclone na capital provincial como "muito lenta". "Temos nos reinventado à nossa maneira e com os recursos próprios e temos aproximado o Governo provincial, que também tem mais desafios", diz, referindo-se a outros distritos. Para Satar Abdulgani, é urgente que se dê impulso às famílias: "Esta população não tem onde dormir."
Foto: Delfim Anacleto/DW
Solidariedade internacional
A ONU continua a apelar para a urgência de apoio dos parceiros internacionais para mitigar o sofrimento das vítimas do ciclone Chido. Paola Emerson, chefe do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários em Moçambique, aponta alimentação, sementes para cultivo e bens de necessidades básicas como itens urgentes: "Apelamos para que a solidariedade internacional continue".
Foto: Delfim Anacleto/DW
Vulnerabilidade agravada
No bairro de Mahate, em Pemba, há famílias que estão a perder os seus terrenos por causa de uma cratera que cresce a cada época chuvosa. O ciclone Chido acelerou ainda mais a erosão, destruiu casas e outras estão em risco de desabarem. A edilidade local está a sensibilizar famílias para abandonarem estas zonas de risco.
Foto: Delfim Anacleto/DW
Oferta ambulatória de cuidados de saúde
O setor da saúde foi um dos mais afetados, em Cabo Delgado, com unidades sanitárias a ficarem destruídas - dificultando o acesso da população aos cuidados de saúde. O setor está a promover brigadas móveis de saúde. Ou seja, em zonas onde o centro de saúde foi destruído, técnicos de saúde oferecem serviços de consulta, farmácia e outros cuidados.
Foto: Delfim Anacleto/DW
Aulas em "espaços temporários"
1.419 é o número de salas de aula destruídas pelo ciclone Chido nos oito distritos de Cabo Delgado atingidos. Quando se prepara o arranque do ano letivo a 31 de janeiro em curso, o setor da Educação está a construir "espaços temporários" que substituirão provisoriamente as salas de aula convencionais para acolher a lecionação de conteúdo.
Foto: Delfim Anacleto/DW
Energia reposta
A 12 de janeiro, os distritos fustigados pelo Chido voltaram a usufruir da corrente elétrica depois de duas semanas sem eletricidade. Em Mecufi, a população recorria a geradores de energia à base de combustível para carregar telemóveis e lâmpadas para iluminação. Com a passagem do ciclone, mais de 1.800 postes de média tensão e 21 postes de transformação ficaram totalmente danificados.
Foto: Delfim Anacleto/DW
Aprender para corrigir
O distrito costeiro de Mecufi foi a porta de entrada do ciclone Chido em Moçambique. Quase tudo o que havia foi derrubado. Para a reconstrução, o então Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, havia anunciado que o Governo deveria observar rigorosamente o ordenamento territorial como forma de criar resiliência a futuros eventos extremos. A reconstrução nesses moldes, entretanto, ainda não arrancou.