Cabo Delgado: Maputo "incapaz" do apoio que Ruanda precisa
21 de maio de 2026
O Ruanda anunciou recentemente que vai manter a presença militar em Cabo Delgado no combate ao terrorismo, apesar do fim do apoio financeiro concedido pela União Europeia à operação. Kigali acusou Bruxelas de "relutância" e de politizar os pedidos de financiamento apresentados pelo Governo ruandês, acrescentando que os custos passarão agora a ser assumidos por Moçambique.
Numa mensagem publicada na rede social X, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, afirmou que a cooperação entre os dois países "tem sido bem-sucedida" e garantiu que o trabalho das forças ruandesas em Cabo Delgado continua a ser reconhecido pelo Governo moçambicano.
O Ruanda afirmou também que a sua presença militar na província já ultrapassa os 6.300 militares e defendeu a necessidade de um "quadro de financiamento sustentável" para garantir a continuidade da operação. O acordo entre Moçambique e o Ruanda sobre o financiamento da missão nunca foi tornado público.
Em entrevista à DW África, o pesquisador e professor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade Joaquim Chissano, Énio Chingotuane, considera que Moçambique não tem capacidade financeira para sustentar sozinho as forças ruandesas em Cabo Delgado e defende que, neste momento, não existe alternativa imediata à presença militar do Ruanda na província.
DW África: O Governo de Moçambique está em condições de suportar o financiamento necessário para as forças de segurança ruandesas em Cabo Delgado?
Énio Chingotuane (EC): Neste momento, Moçambique não está em condições de prestar o apoio necessário às forças ruandesas. O país atravessa uma situação financeira não muito boa, mas isso não exclui a possibilidade de Moçambique angariar fundos externos ou estabelecer parcerias com atores que tenham interesse em Cabo Delgado, de forma a conseguir esses valores.
DW África: O ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, lançou críticas fortes à União Europeia, dizendo que são precisamente as empresas europeias que mais beneficiam do trabalho das tropas ruandesas em Cabo Delgado, mas que ao mesmo tempo são os europeus que criticam Ruanda. O MNE do Ruanda tem alguma razão quando lança essas críticas?
EC: Acho que aqui é preciso separar as águas, porque o que leva a União Europeia a ser reticente em relação ao engajamento ruandês em Moçambique nem sequer tem a ver com factos que acontecem dentro de Moçambique ou em Cabo Delgado. A operação em Cabo Delgado é bem vista, o esforço ruandês é reconhecido internacionalmente e toda a gente está a favor da presença ruandesa, pelo menos por enquanto.
O que leva a União Europeia a afastar-se ou a deixar de financiar tem muito mais a ver com o que está a acontecer na República Democrática do Congo. Talvez a União Europeia esteja receosa de suportar uma força que tem sido condenada pelos norte-americanos e por grande parte das agências europeias de direitos humanos, devido às ações em relação à RDC.
Agora, o que o ministro diz não deixa de ser verdade: Os europeus, nomeadamente, a França, estão a atuar em Cabo Delgado e provavelmente vão tirar maior proveito da situação de estabilidade que o Ruanda ajuda a garantir em Cabo Delgado.
DW África: Qual é a sua opinião: As tropas ruandesas são substituíveis? Ou será que são imprescindíveis, neste momento?
EC: Eu creio que não. Primeiro, em termos numéricos, estamos a falar de uma força que cresceu de mil homens, em 2021, para cerca de 5 mil a 6 mil homens. É muita gente para substituir. Não há país com a capacidade de fazer essa substituição de forma imediata. Neste momento, o Exército moçambicano não consegue assumir sozinho um esforço equivalente.
Também é preciso ter em consideração que o tipo de guerra que estamos a enfrentar em Cabo Delgado mostra que os ruandeses parecem ter mais conhecimento do que outras forças que tentaram engajar-se no terreno. Não vejo o Exército moçambicano a conseguir fazê-lo e também não vejo outro "player" a fazer o mesmo tipo de investimento.
DW África: Em Cabo Delgado estão em causa imensos interesses - investimentos, negócios - e os ruandeses podem estar com o olho nisso também. A longo prazo, eles vão querer beneficiar das oportunidades que poderão abrir-se no futuro em Cabo Delgado?
EC: É normal que isso aconteça. O Governo moçambicano foi a Kigali por duas vezes firmar contratos e acordos de parceria que vão muito além da questão militar. Já existe uma abertura do próprio Governo moçambicano para que os ruandeses façam alguns investimentos em Moçambique e para que haja uma cooperação mais acelerada nos domínios económicos, financeiros e de outras vertentes. Portanto, é o próprio Governo moçambicano que está a abrir portas para o Ruanda engajar-se noutras estruturas.