Ataques e raptos voltam a aumentar em Cabo Delgado após perda da base de Catupa pelos terroristas. O jornalista Quinton Nicuete diz que a dispersão dos insurgentes em pequenos grupos dificulta as operações militares.
Aumento de raptos surge depois das tropas moçambicanas e ruandesas terem desalojado os terroristas da base de Catupa, no distrito de MacomiaFoto: DW
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Pelo menos 10 pessoas morreram e 72 foram raptadas em junho pelos terroristas, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, de acordo com um relatório agora divulgado pelas Nações Unidas. O documento reporta o aumento das incursões terroristas na região em junho.
Em entrevista à DW, o jornalista Quinton Nicuete explica que este aumento surge depois das tropas moçambicanas e ruandesas terem desalojado os terroristas da base de Catupa, no distrito de Macomia. Os insurgentes estão agora "dispersos em pequenos grupos", o que dificulta as operações das tropas governamentais, explica.
DW África: O que poderá estar na origem do aumento dos ataques?
Quinton Nicuete (QN): É sabido que nos últimos dias os ataques têm sido cada vez maiores, diferentemente de nos últimos meses, porque depois da recuperação da base de Catupa, os terroristas ficaram praticamente espalhados e divididos em pequenos grupos.
DW África: Quando fala da recuperação da base de Catupa está a falar da recuperação pelas tropas governamentais?
QN: Exatamente, porque estava nas mãos dos terroristas. A força conjunta do Ruanda juntamente com as nossas defesas militares - estamos a falar da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), que também apoia - conseguiram invadir a base e ir recuperando a base. Então, os terroristas espalharam-se pelo distrito de Ancuabe e Muidumbe, em Quissanga, outro grupo em Metuge, e agora estamos a falar do distrito de Montepuez, entre Montepuez e Mueda.
População reage a provável saída do Ruanda de Cabo Delgado
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DW África: Então, os terroristas estão subdivididos em pequenos grupos?
QN: Exatamente, estão divididos em pequenos grupos. E isso também chega a baralhar as forças de segurança, porque em algum momento podem pensar que estão aqui e estão a vir para outro ponto. Isso pode complicar também cada vez mais e criar mais deslocações, obrigando as comunidades a abandonar as suas aldeias.
DW África: Uma das questões que têm sido levantadas é que também nesse período aumentou o número de raptos. Fala-se, por exemplo, de 72 pessoas que foram raptadas.
QN: Há várias formas que eles utilizam essas pessoas que raptam. Por exemplo, menores de idade que raptam para violações sexuais ou para engrossar as fileiras do grupo. Em algum momento, há pessoas que eles raptam só para as usar como transportadores de víveres que eles mesmos saqueiam nas comunidades. Por exemplo, no dia 24 de julho, houve vazamento de uma mina na aldeia de Muaja...
DW África: Essa mina está em que distrito?
QN: No distrito de Ancuabe. É uma comunidade que faz fronteira com o distrito de Meluco e o distrito de Montepuez. Raptaram oito pessoas. Dessas oito pessoas, até hoje só voltaram cinco pessoas. O seu modus operandi já não é como antigamente, porque já não se foca muito nas vítimas mortais. Não matam mais, só raptam as pessoas para engrossar [as fileiras do grupo]. Se formos a contar o número de mortes, é um número muito reduzido nos últimos dias.
DW África: O que é que pode estar por detrás deste facto de os terroristas hoje não recorrerem muito ao assassinato das comunidades?
QN: É tentar trazer um engano à população, de que estamos convosco e queremos que a religião muçulmana, ou o Estado Islâmico, se torne o Estado a nível de Moçambique. Isto pode ser uma forma de convencer a comunidade.
O rasto do terrorismo em Macomia teima em não desaparecer
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Quarta invasão
No dia 10 de maio de 2024, um grupo de terroristas invadiu Macomia, naquela que foi a quarta vez consecutiva que aquela vila de Cabo Delgado se viu entregue aos terroristas. Permaneceram na sede distrital por cerca de dois dias. Após confrontos com as tropas moçambicanas e aliados, o grupo armado abandonou a vila. Mas a destruição permanece.
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Rasto de destruição
Ao abandonarem o local, os terroristas deixaram edifícios públicos como registo civil, a direção de infraestruturas e a secretaria distrital completamente vandalizados. Alguns desses locais continuam de porta fechadas. O comércio vai reabrindo a conta-gotas e a medo.
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Agências humanitárias não escaparam
Também os escritórios e infraestruturas que albergam organizações humanitárias como a Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, entre outras, foram arrasados pelos terroristas. Desses locais, foram subtraídos medicamentos, viaturas e outros bens.
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Reconstrução é urgente
Autoridades governamentais de Cabo Delgado visitaram Macomia no início de junho para avaliar os danos causados pela presença terrorista. Apesar de admitirem que é uma "prioridade repor aquelas infraestruturas para gradualmente os funcionários prestarem os serviços necessários à população", os serviços continuam a funcionar a meio-gás.
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Paz e medo entre os habitantes
A vila tenta regressar à normalidade, mas o clima ainda é de medo. Os residentes reativaram as atividades de autossuficiência, mas não escondem o receio de um novo ataque, preocupação que paira a todo o instante.
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Chitunda, em Muidumbe, sem serviços públicos
Os cerca de 11 mil habitantes que tinham saído do posto administrativo de Chitunda, em Muidumbe, devido à insegurança, voltaram a casa. Mas nenhuma escola ou hospital está neste momento a funcionar, deixando milhares de crianças fora das salas de aula e os residentes sem acesso a cuidados de saúde.
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Governo promete reabrir escolas e hospitais
Para aceder a cuidados de saúde, a população da aldeia de Miangaleua, no posto administrativo de Chitunda, em Muidumbe, recorre ao distrito de Macomia. Mas o governo local garante que em breve os centros de saúde e as escolas na região voltarão a funcionar.
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Chuvas intensas agravaram a fome
A população de Miangaleua, em Muidumbe, que regressa paulatinamente a casa está a dedicar-se à produção agrícola. Porém, as chuvas intensas que caíram entre finais de 2023 e princípios deste ano arrastaram vários hectares de campos agrícolas junto ao rio Messalo. A produção de arroz e de outras culturas perdeu-se, aumentando a fome na região.
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Autoridades exortam população a produzir comida
O governo local ofereceu sementes de milho e feijões, enxadas, catanas e outros materiais de produção para que os camponeses voltem a semear.
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Corrente elétrica em falta
Os habitantes expressam também o desejo de ver restabelecida a corrente elétrica em Macomia, uma vez que as instalações elétricas também foram afetadas pelos ataques terroristas dos últimos anos. Pequenos painéis solares garantem serviços mínimos, mas não permitem a conservação do peixe que é retirado do rio, por exemplo.
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Mais segurança
Os residentes da aldeia de Miangaleua, em Muidumbe, pedem o reforço da presença das Forças de Defesa e Segurança, para que nunca mais tenham de fugir das próprias terras devido ao terrorismo. Mas a ajuda tarda em chegar.