A mulher que quer pôr fim ao mandato de 43 anos de Paul Biya
Susanne Lettenbauer
11 de outubro de 2025
Tomaino Ndam Njoya está confiante de que pode conseguir nas eleições de 12 de outubro o que muitos não conseguiram nas últimas quatro décadas: destituir o presidente dos Camarões, Paul Biya.
Tomaino Ndam Njoya é presidente da câmara de Foumban e presidente da União Democrática dos CamarõesFoto: Etienne Mainimo/Matrix Images/IMAGO
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Houve grande surpresa quando a comissão eleitoral dos Camarões anunciou os 12 candidatos que irão concorrer às eleições presidenciais de 12 de outubro. Pela terceira vez na história política do país, um dos candidatos ao cargo mais alto do país é uma mulher.
O facto de Hermine Patricia Tomaïno Ndam Njoya ter sido autorizada a concorrer é notável, dado que a lista inicial incluía mais de 80 candidatos. Kah Walla, que fez história como a primeira mulher candidata à presidência dos Camarões em 2011, não conseguiu derrotar o Presidente Paul Biya. O mesmo aconteceu com Esther Dang, também em 2011.
Mas desta vez, as hipóteses de uma futura Presidente mulher parecem melhores do que nunca. Isto não se deve apenas ao facto de África ter cada vez mais mulheres políticas, ministras e presidentes.
Com a adoção da primeira Convenção das Mulheres em 2021, mais de 81 organizações femininas em todo o país ganharam influência, que seria impensável em eleições anteriores.
Nos Camarões prevalece a igualdade perante a lei. As mulheres representam mais de metade da população. Mas estar ao lado de 11 candidatos presidenciais masculinos ainda é uma raridade.
A presidente da câmara com ambições presidenciais
Tomaino Ndam Njoya não é novata na política ativa. É presidente da câmara de Foumban e presidente da União Democrática dos Camarões (UDC).
O slogan da campanha eleitoral da candidata de 56 anos é "Liberdade. Justiça. Progresso".
Tomaino Ndam Njoya é a única candidata feminina nas eleições de 12 de outubro nos CamarõesFoto: UDC
Os Camarões estão numa "encruzilhada", disse à DW Ndam Njoya. "É claramente uma questão do povo soberano liderar a República dos Camarões, que foi enfraquecida e ameaçada por uma governação caótica de longa data, para uma nova era que todos merecemos", acrescentou.
Tomaino Ndam Njoya não se incomoda com o facto de poucas pessoas acreditarem que tem chances de ganhar. Pretende lutar e aposta também nas plataformas de redes sociais para fazer campanha. No entanto, tem de ler alguns comentários depreciativos. Os seus concorrentes masculinos referem-se a ela como "a esposa do seu falecido marido".
Em 2021, Tomaino Ndam Njoya assumiu a presidência da UDC do seu falecido marido, Adamou Ndam Njoya, uma figura proeminente da oposição, que foi ministro da Educação dos Camarões no final da década de 1970. Adamou Ndam Njoya concorreu à presidência em 1992, 2004 e 2011, mas perdeu para Paul Biya, que governa o país há quatro décadas. O presidente de 92 anos está a concorrer a um oitavo mandato.
Tomaino Ndam Njoya estabeleceu metas ambiciosas. Na corrida para as eleições, visitou a diáspora na Alemanha, Itália e França para incentivá-los a votar. Ao contrário da diáspora camaronesa em França, a comunidade camaronesa na Alemanha apoia amplamente o partido de Biya.
Como membro do parlamento, foi membro do Fórum das Mulheres de África e Espanha por um Mundo Melhor e membro da União Parlamentar Africana.
Paul Biya, de 92 anos, lidera os Camarões há 43 anos Foto: AFP/Getty Images
O facto de, apesar dos seus extensos contactos, ter optado por não seguir uma carreira internacional, mas sim lutar pelo futuro do seu país, também lhe rendeu a boa vontade de outros políticos da oposição.
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Apoios de ex-candidatos presidenciais
Uma dúzia de ex-candidatos presidenciais declararam o seu apoio a Tomaino Ndam Njoya.
Entre eles está Shewa David Damuel, empresário nomeado pelo Movimento Patriótico para um Novo Camarões (MPCN) e ex-membro do Partido Social Democrata (SDF). "A oposição deve trabalhar em conjunto", disse à DW. "Os Camarões estão numa encruzilhada. A oposição está dividida, é fraca, por isso devemos apoiar Tomaino Ndam Njoya", justificou.
Assim como a Tanzânia, Libéria, Maláui e a Namíbia, os Camarões também pode vir juntar-se ao crescente número de países africanos liderados por mulheres.
E Tomaino Ndam Njoya tem grandes planos. A candidata quer cumprir os objetivos do seu marido de unir os Camarões como um Estado federal e acabar com a crise anglófona. Também quer combater o desemprego juvenil e melhorar as condições para o investimento.
A sua candidatura também chamou a atenção na Alemanha, porque ela defende um princípio de rotação quando se trata da restituição de bens culturais saqueados. Ndam Njoya está convencida de que os bens culturais camaronenses e a sua história colonial devem permanecer acessíveis aos visitantes dos museus alemães.
Ao contrário do sultão do reino tradicional Bamoun, que quer trazer de volta o trono de Foumban, que está guardado em Berlim desde 1907, para o novo museu do sultão, Ndam Njoya luta para garantir que o raro artefacto cultural se torne propriedade do povo.
Os chefes de Estado há mais tempo no poder
São presidentes, príncipes, reis ou sultões, de África, da Ásia ou da Europa. Estes são os dez chefes de Estado há mais tempo no poder.
Foto: Jack Taylor/Getty Images
Do golpe de Estado até hoje - Teodoro Obiang Nguema
Teodoro Obiang Nguema Mbasogo assumiu a Presidência da Guiné Equatorial em 1979, ainda antes de José Eduardo dos Santos. Teodoro Obiang Nguema derrubou o seu tio do poder: Francisco Macías Nguema foi executado em setembro de 1979. A Guiné Equatorial é um dos países mais ricos de África devido às receitas do petróleo e do gás, mas a maioria dos cidadãos não beneficia dessa riqueza.
Foto: DW/R. Graça
O Presidente que adora luxo - Paul Biya
Paul Biya é chefe de Estado dos Camarões desde novembro de 1982. Muitos dos camaroneses que falam inglês sentem-se excluídos pelo francófono Biya. E o Presidente também tem sido alvo de críticas pelas despesas que faz. Durante as férias, terá pago alegadamente 25 mil euros por dia pelo aluguer de uma vivenda. Na foto, está acompanhado da mulher Chantal Biya.
Foto: Reuters
Mudou a Constituição para viabilizar a reeleição - Yoweri Museveni
Yoweri Museveni já foi confirmado seis vezes como Presidente do Uganda. Para poder concorrer às eleições de 2021, Museveni mudou a Constituição e retirou o limite de idade de 75 anos. Venceu o pleito com 58,6% dos votos, reafirmando-se como um dos líderes autoritários mais antigos do mundo. O candidato da oposição, Bobi Wine, alegou fraude generalizada na votação e rejeitou os resultados oficiais.
Foto: Getty Images/AFP/I. Kasamani
"O Leão de Eswatini" - Mswati III
Mswati III é o último governante absolutista de África. Desde 1986, dirige o reino de Eswatini, a antiga Suazilândia. Acredita-se que tem 210 irmãos; o seu pai Sobhuza II teve 70 mulheres. A tradição da poligamia continua no seu reinado: até 2020, Mswati III teve 15 esposas. O seu estilo de vida luxuoso causou protestos no país, mas a polícia costuma reprimir as manifestações no reino.
Foto: Getty Images/AFP/J. Jackson
O sultão acima de tudo - Haji Hassanal Bolkiah
Há quase cinco décadas que o sultão Haji Hassanal Bolkiah é chefe de Estado e Governo e ministro dos Negócios Estrangeiros, do Comércio, das Finanças e da Defesa do Brunei. Há mais de 600 anos que a política do país é dirigida por sultões. Hassanal Bolkiah, de 74 anos, é um dos últimos manarcas absolutos no mundo.
Foto: Imago/Xinhua/J. Wong
Monarca bilionário - Hans-Adam II
Desde 1989, Hans-Adam II (esq.) é chefe de Estado do Liechtenstein, um pequeno principado situado entre a Áustria e a Suiça. Em 2004, nomeou o filho Aloísio (dir.) como seu representante, embora continue a chefiar o país. Hans-Adam II é dono do grupo bancário LGT. Com uma fortuna pessoal estimada em mais de 3 mil milhões de euros é considerado o soberano europeu mais rico.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Nieboer
De pastor a parceiro do Ocidente - Idriss Déby
Idriss Déby (à esq.) foi Presidente do Chade de 1990 a 2021. Filho de pastores, Déby formou-se em França como piloto de combate. Apesar do seu autoritarismo, Déby foi um parceiro do Ocidente na luta contra o extremismo islâmico (na foto com o Presidente francês Macron). Em abril de 2021, um apenas dia após após a confirmação da sua sexta vitória eleitoral, Déby foi morto num combate com rebeldes.
Foto: Eliot Blondet/abaca/picture alliance
Procurado por genocídio - Omar al-Bashir
Omar al-Bashir foi Presidente do Sudão entre 1993 e 2019. Chegou ao poder em 1989 depois de um golpe de Estado sangrento. O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu em 2009 um mandado de captura contra al-Bashir por alegada implicação em crimes de genocídio e de guerra no Darfur. Em 2019, foi deposto e preso após uma onda de protestos no país.
Foto: Getty Images/AFP/A. Shazly
O adeus - José Eduardo dos Santos
José Eduardo dos Santos foi, durante 38 anos (de 1979 a 2017), chefe de Estado de Angola. Mas não se recandidatou nas eleições de 2017. Apesar do boom económico durante o seu mandato, grande parte da população continua a viver na pobreza. José Eduardo dos Santos tem sido frequentemente acusado de corrupção e de desvio das receitas da venda do petróleo. A sua família é uma das mais ricas de África.
Foto: picture-alliance/dpa/P.Novais
Fã de si próprio - Robert Mugabe
Robert Mugabe chegou a ser o mais velho chefe de Estado do mundo (com uma idade de 93 anos). O Presidente do Zimbabué esteve quase 30 anos na Presidência. Antes foi o primeiro-ministro. Naquela época, aconteceram vários massacres que vitimaram milhares de pessoas. Também foi criticado por alegada corrupção. Após um levantamento militar, renunciou à Presidência em 2017. Morreu dois anos mais tarde.