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Casos de cólera voltam a aumentar em Nampula

9 de fevereiro de 2026

A cólera volta à província de Nampula, causando 23 mortos e mais de 30 casos diários. Autoridades sanitárias apontam o incumprimento do saneamento e a desinformação como principais fatores da rápida propagação da doença.

Moradores queixam-se da falta de saneamento e do lixo em Nampula
"Está muito difícil conviver com esta situação no meio do lixo", queixa-se um residenteFoto: Sitoi Lutxeque/DW

A província moçambicana de Nampula, no norte do país, está a registar casos da cólera desde finais de setembro do ano passado, mas a situação tem vindo a agravar-se. Todos os dias, Eráti, Memba e Nacala-Porto registam casos da doença. O fraco saneamento de meio e o consumo da água imprópria são apontados como os principais motivos.

Geraldino Avalinho, médico chefe provincial de Nampula, diz que Nacala é o epicentro da doença na província. "Nacala-Porto preocupa-nos com o número diário de casos novos que tem dado entrada. Estamos a falar de uma média de 25 casos que entram diariamente no nosso centro de tratamento de cólera, que já foi estabelecido", explica.

A cidade de Nampula, capital da província com o mesmo nome, ainda não registou o surto. Mas os cidadãos receiam que isso aconteça por causa do estado avançado de degradação em que se encontram muitos bairros.

Torres Alfredo, reside no bairro de Mutauanha, não tem dúvidas do perigo a que estão sujeitos os moradores e do risco de eclosão da doença. "Está muito difícil conviver com esta situação no meio do lixo. Por exemplo, naquela área do Waresta [o maior mercado grossista de Nampula], uma pessoa logo depara-se com o lixo na entrada daquele mercado, totalmente degradado. E ao sair daqui, pode ficar infetado pela doença. O nosso governo não está a fazer quase nada, a cidade está cheia de lixo e há águas estagnadas", lamenta.

Água imprópria para consumo

Fátima Joaquim, residente de Piloto, bairro de Mutauanha, lamenta o facto de a população estar a consumir muita água dos poços caseiros, por conta da deficiência na provisão da água potável pela empresa fornecedora.  "A água que consumimos é do poço e quando sai das torneiras, sai suja, com risco de contrairmos cólera", diz.

O médico chefe provincial de Nampula, Geraldino Avalinho, afirma que o setor de saúde tem feito campanhas de sensibilização e distribuição de purificadores de água nas comunidades para travar a doença, mas não tem sido acatadas devido à desinformação.

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"Infelizmente, o nosso setor continua a deparar-se com cenários de desinformação a nível das comunidades, mesmo com os esforços acrescidos que temos feito, o que nos preocupa. Compreendemos que ainda temos pessoas que desconhecem os mecanismos de disseminação da cólera", refere.

Torres Alfredo e Fátima Joaquim também desconhecem as campanhas a nível da cidade de Nampula. "Tudo está parado, não há nenhuma campanha de sensibilização, se houvesse pelo menos a população estaria ciente de que deveria fazer.", lamenta o primeiro. "Essa campanha a que se referem sobre a distribuição de medicamentos, neste bairro ainda não chegou, não estamos a ver", concorda a moradora.

Campanha de vacinação em curso

Na passada quarta-feira (04.02), o Ministério da Saúde iniciou a campanha de vacinação que irá abranger inicialmente alguns distritos de quatro províncias de Cabo Delgado, Niassa, Zambézia e Sofala. Exclui-se Nampula e as autoridades locais não garantem se será, ou não, abrangida.

De acordo com o boletim diário de atualização deste domingo (08.02), a província registou 31 casos, sem óbitos mantendo os 23 óbitos, e conta com um total de 1961 casos de cólera.

As autoridades sanitárias na província moçambicana de Nampula admitem que a desinformação sobre cólera é uma barreira no combate à doença, com as comunidades a perseguir e a apedrejar os agentes que trabalham na sensibilização.

Em causa estão as recorrentes perseguições aos ativistas e profissionais de saúde naquela província do norte de Moçambique face à desinformação sobre cólera, com as comunidades a alegarem que estes grupos são causadores da doença, preocupando as autoridades da saúde que recorrem às igrejas para sensibilizar.