Organização ameaça impor sanções às entidades que colocam entraves ao Acordo de Conacri. Presidente José Mário Vaz aceita nomear novo primeiro-ministro se deputados expulsos do PAIGC forem reintegrados.
Líderes da CEDEAO em AbujaFoto: Präsidentschaftsbüro Kap Verde
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Os líderes da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental deram 30 dias aos responsáveis políticos da Guiné-Bissau para acabarem com o impasse político no país. A posição consta do comunicado final da 52.ª conferência de líderes da organização, que teve lugar este sábado (17.12), na Nigéria, na qual foi debatida a situação política na Guiné-Bissau, marcada por um impasse que já dura há mais de dois anos.
No comunicado lido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, Robert Dussey, os líderes da CEDEAO determinaram dar 30 dias aos políticos guineenses para que cheguem a um entendimento.
Os líderes da organização sub-regional africana deram aquele prazo para que se possa aplicar um roteiro proposto pelo Presidente guineense, José Mário Vaz, visando a aplicação integral do Acordo de Conacri, nomeadamente a nomeação de um primeiro-ministro de consenso, diz o comunicado.
O Acordo de Conacri é um instrumento proposto pela CEDEAO, em outubro de 2016, para acabar com a crise política na Guiné-Bissau, mas a sua aplicação tem sido objeto de controvérsia entre os líderes guineenses.
Chefe da diplomacia togolesa, Robert DusseyFoto: DW/K. Tiassou
"Para permitir a aplicação consensual do roteiro proposto (por José Mário Vaz), a conferência incumbiu ao Presidente Alpha Conde, da Guiné-Conacri, e Faure Gnassinbé, do Togo, de encetarem consultas com todas as partes, num prazo de 30 dias, findo os quais as sanções coletivas e individuais serão aplicadas às entidades que colocam entraves na aplicação do Acordo de Conacri", frisaram os líderes da CEDEAO.
Constataram ainda que, pese embora as recomendações da última conferência da organização realizada na Libéria, no passado mês de junho, não houve avanços na aplicação do Acordo de Conacri. A CEDEAO apela às organizações internacionais, nomeadamente a ONU e a União Africana, para que a acompanhem na aplicação das sanções a serem impostas aos incumpridores.
Roteiro com condições
À chegada a Bissau, após a cimeira, o Presidente José Mário Vaz disse que só vai aceitar a nomeação de um novo primeiro-ministro com a reintegração plena e sem condições dos 15 deputados expulsos no PAIGC, partido vencedor das últimas eleições legislativas.
Quinze deputados ao Parlamento foram expulsos do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), abrindo uma crise no seio daquele partido, que venceu as legislativas de 2014 com uma maioria absoluta. O Presidente guineense considera a crise no PAIGC como a fonte do impasse político no país.
Umaro Sissoco Embaló e José Mário VazFoto: DW/B. Darame
José Mário Vaz disse ter apresentado aos seus homólogos da CEDEAO um roteiro para a saída da crise e que este foi aceite. O documento lido pelo próprio Presidente guineense no aeroporto de Bissau refere que a reintegração no PAIGC dos militantes e dirigentes expulsos, e ainda a anulação de todas as iniciativas em curso naquela formação política com vista ao próximo congresso poderiam conduzir à nomeação de um novo primeiro-ministro.
O PAIGC marcou para entre 30 de janeiro e 4 de fevereiro de 2018 o seu nono congresso ordinário. O Presidente guineense coloca ainda como condição para a exoneração do atual primeiro-ministro, Umaro Sissoco Embaló, e a nomeação de um novo chefe do governo a reabertura do Parlamento, bloqueado há mais de dois anos devido às divergências entre os principais partidos naquele órgão.
José Mario Vaz realça que, cumpridas aquelas condições, aceitaria nomear um novo primeiro-ministro que liderasse um governo inclusivo, que teria como uma das suas missões a realização de eleições, que seriam em simultâneo, em 2019, ou seja as legislativas e presidenciais.
De acordo com o calendário normal, as próximas eleições legislativas deveriam realizar-se em 2018 e as presidenciais em 2019.
A crise económica e política que a Guiné-Bissau vive há mais de um ano e meio não vai passar sem deixar as suas marcas no Natal. Muitos salários estão em atraso e o poder de compra dos guineeneses voltou a cair.
Foto: DW/B. Darame
Natal na Guiné-Bissau não é para todos
Muitas famílias na Guiné-Bissau tentam manter a tradição da árvore de Natal, apesar da crise. Mas mesmo a venda das árvores de plástico sofreu uma queda significativa neste ano. Foi um ano diícil para a população, apanhada entre querelas políticas e pessoais e crises económicas e financeiras, que, mais uma vez, adiaram o desenvolvimento do país.
Foto: DW/B. Darame
Cuidado com os larápios
Como a contrariar o espírito natalício, neste período aumenta o número de roubos nos mercados do país. Jovens sem emprego nem escola, entre os 15 e os 30 anos, aproveitam a azáfama para furtar carteiras, telemóveis e fios de ouro. O reforço das medidas de segurança pela polícia não consegue deter os delinquentes.
Foto: DW/B. Darame
Made in Germany
Quem pode, compra produtos de importação, alegadamente de melhor qualidade. Mas os fregueses desta loja de móveis no bairro de Pilum, que vende produtos em segunda mão importados da Alemanha, não são muito numerosos. Mesmo os móveis descartados pelos alemães, recolhidos do lixo naquele país longínquo, não encontram muita vazão na Guiné-Bissau.
Foto: DW/B. Darame
Prendas para as crianças
Os produtos fabricados na China são mais baratos e têm maior procura, mesmo se a qualidade muitas vezes deixa a desejar. Hélia Sá, mãe de três filhos, passou muito tempo a vender comida na rua para poder dar uns poucos presentes de Natal às crianças. Na Guiné-Bissau, o lema é gastar o menos possível, mesmo nos mini-mercados.
Foto: DW/B. Darame
Compras de Natal e não só
Não obstante a crise, no mercado a céu aberto de Bandim regista-se um aumento de movimentação à medida que se aproxima o dia de Natal. Mas não é só por causa da quadra natalícia. É que tradicionalmente os guineenses celebram os casamentos em dezembro, dando ímpeto ao comércio. Fraco consolo para os funcionários públicos, por exemplo, alguns dos quais têm os salários mais de 30 meses em atraso.
Foto: DW/B. Darame
Quebra de receitas
Os comerciantes queixam-se do fraco negócio de Natal neste ano. As mulheres que vendem legumes e fruta dizem que, comparadas a 2015, antes da queda do Governo naquele ano, as receitas baixaram fortemente. Neste contexto não cai bem a todos o diretor do Banco Central, João Fadia, afirmar que a saúde financeira do país é "boa", tendo em conta as reservas cambiais e a inflação modesta de 2,6%.
Foto: DW/B. Darame
Roupa ocidental
A roupa em segunda mão importada da Europa chama-se "fuca" e é muito procurada por quem tem poucos meios. A maioria dos jovens guineenses é desempregada e por isso recorre aos comerciantes que chegam com esta mercadoria dos países vizinhos. A loja é um pano no chão, sobre o qual se deitam as camisas, calças, meias, bocers e camisolas importados do velho continente. É à escolha do freguês.
Foto: DW/B. Darame
Têxteis africanos estão na moda
Apesar da crise, e das roupas em segunda mão oriundas da Europa serem muito baratas, este ano os panos tradicionais africanos ganharam nova popularidade. Para grande satisfação dos alfaiates e artesãos nacionais, jovens e adultos dos dois sexos estão a comprar panos, ou vestidos e camisas feitos com têxteis africanos para usar na quadra festiva.
Foto: DW/B. Darame
Espírito natalício?
Há famílias desavindas que não vão passar juntas a quadra festiva e a tradicional ceia de Natal. O motivo: a política. A crise política que divide o país passa pelo meio de famílias, com os dois lados a assumir posições intransigentes. O impacto da crise na vida das pessoas assume as mais variadas formas, mas todas são negativas.