Cimeira G20: Chefes de Estado defendem "multilateralismo"
22 de novembro de 2025
O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, destacou, este sábado (22.11), "o valor" do multilateralismo como meio de resolver os desafios globais, na abertura da cimeira do G20 em Joanesburgo, boicotada pelo homólogo norte-americano, Donald Trump.
"Os desafios que enfrentamos só podem ser resolvidos através da cooperação, da colaboração e de parcerias", afirmou.
Os chefes de Estado e de Governo do G20 adotaram hoje por unanimidade uma declaração de líderes durante a cimeira anual em Joanesburgo, apesar da ausência dos Estados Unidos nos debates. Para Ramaphosa, a aprovação de uma declaração por unanimidade pelos líderes presentes envia "um sinal importante de que o multilateralismo pode alcançar resultados – e que de facto alcança".
Previamente, Vincent Magwenya, porta-voz do Presidente sul-africano, explicou que, embora a declaração seja geralmente aprovada no final da cimeira, ao longo de sexta-feira, durante várias conversações bilaterais, "surgiu a ideia de que deveríamos proceder primeiro à adoção da declaração da cimeira como primeiro ponto do dia e depois continuar com o restante da sessão".
Embora o conteúdo da declaração ainda não tenha sido divulgado, Magwenya adiantou que o texto reafirma que a Carta das Nações Unidas "continua sendo o ponto de orientação central para analisar e abordar as disputas, evitar o uso da força e nos comprometermos com a resolução pacífica dos conflitos".
Na sua intervenção, o Presidente brasileiro Lula da Silva disse que "o próprio funcionamento do G20 como espaço de coordenação alargado está ameaçado".
Segundo Lula, que não mencionou diretamente os Estados Unidos, "é necessário preservar a capacidade deste fórum para abordar os principais problemas do nosso tempo. Se não conseguirmos encontrar uma solução dentro do G20, não o será possível fazer num mundo idealizado".
No seu discurso, Lula enfatizou ainda que 90% da população mundial vive "em países com elevada desigualdade de rendimentos" e que, neste contexto, o G20 deveria "promover a adoção de mecanismos inovadores de troca de dívida por desenvolvimento e ações climáticas".
Por outro lado, acrescentou, que é tempo de "declarar a desigualdade uma emergência global e reformular as normas e instituições que perpetuam as assimetrias".
João Lourenço: Dívida e acesso ao financiamento são obstáculos
Por sua vez, o Presidente angolano frisou que o peso da dívida compromete investimentos essenciais e apontou o défice de financiamento acessível como o "maior constrangimento à ambição africana", apelando a ações para a reestruturação da dívida.
João Lourenço falava em Joanesburgo na qualidade de presidente em exercício da União Africana, onde pediu ao G20 que acelere reformas dos bancos multilaterais de Desenvolvimento, apoie o financiamento em moeda local, modernize as agências de 'rating' e implemente com urgência o Quadro Comum, "assegurando um alívio profundo aos países com dívida insustentável".
O chefe de Estado angolano afirmou que "África encontra-se no centro dos esforços geopolíticos, económicos e sociais" e que a entrada da União Africana como membro permanente do G20 colocou o continente "numa posição de destaque no âmbito do multilateralismo".
Assinalou, por outro lado, que a cimeira realizada pela primeira vez em solo africano deve "trazer ao de cima as prioridades africanas", destacando a liderança do Presidente sul-africano, e defendeu uma "sensibilização coordenada para a mobilização de recursos internos".
Recordou ainda que África está a construir as suas próprias instituições financeiras continentais, essenciais para reduzir dependências externas num contexto de "acentuado declínio da ajuda pública ao desenvolvimento".
João Lourenço frisou que o continente está "a acelerar a transformação e a diversificação económicas", protegendo as suas economias dos choques externos, e destacou o impacto estratégico da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) que vai criar um mercado de 3,4 biliões de dólares e proporcionará a diversificação necessária para a estabilização das cadeias de abastecimento globais".
"Exortamos o G20 a encarar esta iniciativa não apenas como um projeto africano, mas como uma contribuição essencial para a estabilidade do comércio mundial", instou.
Lourenço reiterou o compromisso africano com o multilateralismo e apelou à implementação das reformas da arquitetura financeira internacional, sublinhando que a União Africana "endossa plenamente as recomendações constantes dos Relatórios do Painel de Peritos Africanos e da Comissão Extraordinária de Peritos Independentes sobre a Desigualdade de Riqueza Global".
A cimeira em Joanesburgo tem como temas principais o alívio da dívida dos países de baixo rendimento e o combate à desigualdade económica, bem como o reforço da resiliência a catástrofes, o financiamento de uma transição energética justa e a exploração de minerais críticos para o crescimento inclusivo e o desenvolvimento sustentável.
O evento decorre hoje e domingo no centro de convenções Nasrec, em Joanesburgo, e marca o fim de um ciclo de presidências do G20 exercidas pelos países do Sul Global, depois da Indonésia (2022), Índia (2023) e Brasil (2024).
Os Estados Unidos anunciaram já a intenção de redirecionar o foco do G20 para as questões de cooperação económica. A próxima cimeira está prevista para dezembro de 2026 em Miami, num campo de golfe da família Trump.