Construção de fábricas de refinação de ouro em África e o controlo das fugas ilícitas ajudariam significativamente os governos africanos a beneficiar da sua riqueza em ouro, diz analista.
O ouro está a sair dee África a baixo preço, alerta analistaFoto: IMAGO/Pond5 Images
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A alta no preço do ouro fez com que países africanos produtores se apressassem para capitalizar. Mas será que conseguirão ajustar se com rapidez suficiente? Como África pode lucrar com a corrida ao ouro?
Os principais produtores de ouro de África estão a procurar lucrar com a subida do preço do ouro, que aumentou 65% em 2025 e ultrapassou os 5.580 dólares por onça (cerca de 31 gramas) na semana passada.
O Burquina Faso, por exemplo, registou uma produção recorde de 94 toneladas de ouro em 2025, ou seja, um aumento de mais de 30 toneladas em comparação com os números de 2024.
"África está bem posicionada em termos de reservas", explica Marvellous Ngundu, investigador do Instituto de Estudos de Segurança (ISS), com sede na África do Sul.
Segundo ele, "o continente produz mais de 1/4 do ouro global, o que significa que os benefícios se acumulam como resultado das receitas de exportação, receitas fiscais e também do aumento das entradas de moeda estrangeira".
"Mas isso só acontecerá se as fugas ou os fluxos financeiros ilícitos associados ao ouro forem controlados", alerta.
Garimpeiro ilegal no Gana lava terra em busca de ouroFoto: Cristina Aldehuela/AFP/Getty Images
Gana: Alterar as leis de mineração
O Gana, o maior produtor de ouro de África, está a alterar as leis de mineração para obter maior participação nas receitas do ouro. Autoridades locais afirmam que condições fiscais deixam o Estado com uma participação limitada.
Além dos investidores ocidentais, a China e a Rússia investiram na mineração de ouro, incluindo nos países do Sahel.
No ano passado, o Burquina Faso concedeu à gigante mineradora russa Norgold uma concessão para desenvolver a mina de Bissa-Bouly, a cerca de 85 quilómetros a norte da capital, Ouagadougou.
Para o analista Ngundu, o aumento do preço do ouro, embora bem-vindo para as mineradoras africanas, representa uma faca de dois gumes para os Governos.
"Uma receita inesperada proveniente do ouro pode alimentar a sobrevalorização da moeda e excluir outras exportações, a menos que seja gerida. Veremos que, no final deste trimestre, as exportações de África serão elevadas, especialmente para aqueles que exportam ouro", disse.
Garimpeiros numa mina de ouro na República Democrática do CongoFoto: Alexis Huguet/AFP/Getty Images
Paradoxo africano
África vive um paradoxo: Embora produza mais ouro do que qualquer outro continente, detém apenas 2% das reservas mundiais. Em termos comparativos, os Estados Unidos têm 8.133 toneladas em reservas de ouro, seguidos da Alemanha, Itália e França. Enquanto isso, o país africano com a maior reserva, a Argélia, tem apenas 174 toneladas.
Mas Ngundu alerta que o ouro está a sair do continente - e está a sair a baixo preço. "O problema é que está a ser vendido a outros países na sua forma bruta. Em seguida, passa o valor para outros países que o compram para fins de refinação e o mantêm como reserva", explica.
Para o investigador, "a construção de fábricas de refinação de ouro em África e o controlo das fugas ilícitas ajudariam significativamente os Governos africanos a beneficiar da sua riqueza em ouro", argumenta.
Apesar de rica em ouro, a região de Mara Norte é das mais pobres da Tanzânia. A exploração fica à mercê de uma multinacional e os locais que invadem a mina à procura de resquícios de ouro são violentamente expulsos.
Foto: DW/J. Hahn
O tesouro
Nos solos de Mara Norte, no noroeste da Tanzânia, ainda repousam 3,8 milhões de onças de ouro. A mina de ouro que aqui se encontra é uma das seis existentes em todo o país. É operada desde 2006 pela African Barrick Gold, uma subsidiária da Barrick Gold, a maior empresa de ouro do mundo.
Foto: DW/J. Hahn
A mina de ouro
"Gokona" é uma das três minas a céu aberto de Mara Norte. Todos os dias são retiradas pedras de ouro dos solos. O material de primeira contém quatro a cinco gramas de ouro por tonelada. Em cerca de dez anos, no entanto, calcula-se que as reservas aqui estarão esgotadas.
Foto: DW/J. Hahn
A esperança de arranjar emprego
A mina da African Barrick Gold é o maior empregador em toda a região de Mara Norte. Mais de 2.000 pessoas estão diretamente empregadas ou trabalham como fornecedores de serviços externos para a multinacional. No entanto, a maioria das pessoas da região não tem emprego.
Foto: DW/J. Hahn
Muro de proteção
Uma cerca de arame farpado protege a mina de saqueadores, que muitas vezes conseguem fazer buracos na cerca. Por essa razão, a mina é vigiada por seguranças particulares e também por polícias tanzanianos. Constantemente há confrontos, mortos e feridos.
Foto: DW/J. Hahn
Os "invasores"
Muitas vezes, são às centenas os "intruders" – ou "invasores" – como eles próprios se denominam. De manhã, à tarde e à noite, invadem a mina em busca de pedras que contêm pequenas quantidades de ouro e que podem vender a intermediários para obter algum dinheiro.
Foto: DW/J. Hahn
A corrida ao ouro
“Só levamos o que sobra”, diz Jumanne. “Mas a polícia expulsa-nos, persegue-nos nas nossas próprias aldeias”, conta. Tal como muitos outros “invasores” de minas, Jumanne defende que a multinacional devia deixar os montes de cascalho para os habitantes da aldeia.
Foto: DW/J. Hahn
A garimpeira
O cascalho é lavado pelos “invasores”, que procuram encontrar vestígios de ouro. É um trabalho difícil, sobretudo para as mulheres. Passam horas a procurar nos montes de cascalho, mas a maioria parte de mãos vazias. Por mês, esta garimpeira ganha 20.000 xelins tanzanianos (cerca de dez euros).
Foto: DW/J. Hahn
Uma região esquecida
A região de Mara Norte é uma das mais pobres e menos desenvolvidas da Tanzânia. Durante muito tempo, os habitantes das sete aldeias nos arredores da mina extraíam eles mesmos o ouro. O cenário mudou com a chegada das multinacionais, no fim da década de 90. Hoje, a pecuária e a agricultura dão pouco dinheiro.
Foto: DW/J. Hahn
Os desiludidos
“Por nós, a mina não tem feito nada”, dizem estes moradores de Kewanja. Eles não têm água corrente nem eletricidade. Aqui, uma família com mais de 20 membros vive com 300.000 xelins por mês (cerca de 140 euros).
Foto: DW/J. Hahn
Um filho perdido
“A mina levou-me tudo”, conta Gati Marembera Mwita. No dia 6 de novembro de 2012, um polícia disparou contra o seu filho. “Dezenas de invasores, sobretudo homens jovens com armas tradicionais, invadiram a mina”, lê-se numa notícia. “O meu filho não era um invasor”, diz o pai. “Ele estava, por mero acaso, ali perto, a cuidar das ovelhas e das cabras.”
Foto: DW/J. Hahn
Os rendimentos
Pedras - pó - ouro. Os habitantes da aldeia especializaram-se nas diversas fases de produção. Todas elas são perigosas. No final, o pó que contém ouro é misturado com mercúrio altamente tóxico para ligar o metal precioso. Um grama vale cerca de 42 mil xelins tanzanianos (cerca de 20 euros).