Como a Rússia está a tentar atrair estudantes africanos
Privilege Musvanhiri
1 de novembro de 2025
À medida que a Rússia estreita laços com países africanos que procuram distanciar-se da influência ocidental, a diplomacia académica ganha força na política externa de Moscovo.
Estudantes africanos numa universidade russa, em MoscovoFoto: Anton Novoderezhkin/TASS/IMAGO
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Desde o início da guerra na Ucrânia, a Rússia tem-se voltado cada vez mais para os países do Sul Global para combater o isolamento internacional.
O país atribuiu este ano mais de 5 mil vagas a estudantes africanos em universidades financiadas pelo Estado, depois de receber mais de 40 mil candidaturas - principalmente de países como o Sudão, Gana e Chade.
E a educação é uma via fácil, diz a historiadora russa Irina Filatova, pois "é a forma mais barata possível de conseguir aliados, e a Rússia precisa de aliados neste momento", explica.
"É claro que a Rússia criou a imagem de ser um dos países líderes na luta contra o colonialismo, e os africanos acreditam nisso", acrescenta.
A Rússia intensificou os seus esforços para demonstrar gestos de amizade em relação aos países africanos, especialmente os da região do Sahel Foto: FANNY NOARO-KABRE/AFP
Plano de expansão
A Rússia anunciou planos para expandir a sua rede de centros culturais e educacionais em África num programa conhecido como "Casas Russas”, para fortalecer sua presença no continente.
No entanto, críticos acusam essas Casas Russas de servirem como postos de propaganda secreta que promovem as narrativas do Kremlin no exterior.
Organizações de direitos humanos também denunciaram relatos de que estudantes estrangeiros teriam sido pressionados a se alistarem no exército russo em troca da renovação do visto.
Segundo afirmam, é mau para a imagem da Rússia atribuir bolsas de estudo se as pessoas acabam por fazer algo diferente, e acreditam que o país precisa dos países africanos como aliados, não cheios de pessoas dececionadas.
Além da geopolítica, as propinas na Rússia são significativamente mais baixas do que nas universidades ocidentais ou mesmo em algumas universidades africanas.
Delegação queniana em Moscovo, em 1964Foto: Alexei Stuzhin/TASS /IMAGO
Acomodação e alimentação
Com três filhos a estudar na Rússia, o zimbabuano Keith Baptist explica que "a acomodação e a alimentação também são muito mais baratas na Rússia em comparação com um estudante que estuda aqui no Zimbábue".
Jefry Makumbe, também do Zimbábue e que estudou Jornalismo na Rússia, aponta outras vantagenss. "A relação entre a Rússia e outras nações do mundo. A Rússia tem relações muito cordiais com países africanos, como o Zimbábue. E a maioria dos jovens em África prefere ir estudar na Rússia", diz.
Durante a era soviética, Moscovo posicionou-se ao lado de Estados recém-independentes da Ásia, África e América Latina. Milhares de estudantes de países não alinhados, muitos dos quais se tornaram mais tarde líderes políticos, formaram-se na União Soviética.
Ao invadir a Ucrânia, o Presidente Vladimir Putin foi acusado pelos países ocidentais de provocar uma guerra na Europa. Veja aqui a cronologia dos acontecimentos que levaram à guerra entre a Rússia e a Ucrânia.
Foto: UMIT BEKTAS/REUTERS
2004
O candidato pró-Rússia, Viktor Yanukovich (na foto), é declarado Presidente, mas alegações de fraude eleitoral provocam um movimento de protesto. Conhecida como a Revolução Laranja, a iniciativa força uma nova votação, que resulta na eleição do pró-ocidental Viktor Yushchenko.
Foto: Reuters/T. Makeyeva
2005
Um ano mais tarde, o novo Presidente, Viktor Yushchenko, promete retirar a Ucrânia da órbita de Moscovo e conduzi-la em direção à NATO e União Europeia. Durante a sua campanha em 2004, Yushchenko sofreu uma tentativa de assassinato por envenenamento que o deixou desfigurado. Desde então, fez uma recuperação física total.
Foto: picture-alliance/dpa/Sputnik/A. Vitvitsky
2008
Na cimeira de Bucareste, a NATO concorda em iniciar o processo de adesão da Ucrânia e da Geórgia. "Acordámos hoje que estes países se tornarão membros da NATO", lê-se na declaração da cimeira. Na mesma cimeira, o Presidente russo, Vladimir Putin (na foto), avisou que as relações com o Ocidente dependeriam do respeito pelos interesses do seu país.
Foto: Vladimir Rodionov/dpa/picture-alliance
2010
Viktor Yanukovich derrota Yulia Tymoshenko nas presidenciais e torna-se chefe de Estado. As eleições foram consideradas justas por observadores internacionais. Uma semana antes da assinatura do acordo com a UE, Yanukovich suspende o processo e anuncia que a Ucrânia prefere juntar-se à Rússia na União Aduaneira Eurasiática.
Foto: Reuters
2013 e 2014
A decisão de Yanukovich gera uma onda de protestos de apoiantes da integração europeia. O movimento chamado "Euromaidan", por centrar as manifestações na Praça Maidan, em Kiev, tornam-se violentos. Dezenas de manifestantes são mortos, mas o Presidente acaba por ser retirado do Governo, exilando-se na Rússia.
Foto: Tomas Rafa
2014 - anexação da Crimeia
Em março, a Rússia anexa a península da Crimeia, no sudeste da Ucrânia.
Em abril, separatistas com apoio de Moscovo declaram a independência das "repúblicas" de Luhansk e de Donetsk, na região oriental ucraniana do Donbass, iniciando uma guerra que provoca 14 mil mortos em oito anos.
Foto: Imago Images
2019
O ex-ator e comediante Volodymyr Zelensky é eleito Presidente da República em 21 de abril e promete pôr fim ao conflito no leste da Ucrânia. Em 2021, apela ao novo Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, para apoiar a adesão da Ucrânia possa à NATO, colocando o país em novamente nos trilhos rumo à Europa.
Foto: picture-alliance/dpa/P. Sivkov
2021 - Março até Novembro
O Governo russo estaciona tropas perto da fronteira da Ucrânia, alegando treinos miltares.
A Ucrânia acusa Putin de ter concentrado 100 mil tropas e armamento pesado nas suas fronteiras, o que motiva um pedido de explicação dos EUA ao Kremlin. Putin acusa o Ocidente de exacerbar tensões "entregando armas modernas a Kiev e conduzindo exercícios militares provocatórios" no Mar Negro.
Foto: Maxar Technologies via REUTERS
2021 - Dezembro
Biden adverte que a Rússia será alvo de sanções económicas duras se invadir a Ucrânia.
Moscovo divulga as suas exigências ao Ocidente: tratados a proibir a adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO, o estabelecimento de bases militares no leste e a retirada de tropas aliadas da Roménia e da Bulgária, num regresso à situação anterior a 1997.
Foto: Brendan Smialowski/AFP
2022 - 10 de Fevereiro
Tropas russas e bielorrussas iniciam dez dias de exercícios de combate próximo da fronteira da Bielorrússia com a Ucrânia. A presença destas tropas gera mais preocupação na comunidade internacional, que vê os exercícios como um posicionamento estratégico das tropas russas, dando-lhes mais um ponto de entrada na Ucrânia.
Foto: Alexander Zemlianichenko/AP Photo/picture alliance
2022 - 21 de Fevereiro
Os líderes das autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Luhansk pedem a Putin para as reconhecer como Estados independentes. Putin assina os decretos em que a Rússia reconhece a independência das regiões e ordena ao exército russo que envie uma missão de "manutenção da paz" para os territórios no leste da Ucrânia.
A NATO acusa Moscovo de fabricar um pretexto para invadir a Ucrânia.
Foto: Alexei Alexandrov/AP Photo/picture alliance
2022 - 22 de Fevereiro
Zelensky pede ao Ocidente "medidas de apoio claras e eficazes", assegura que os ucranianos "não vão ceder uma única parcela do país" e responsabiliza a Rússia por tudo o que acontecer.
Olaf Scholz, chanceler da Alemanha, diz que tomou medidas para interromper a certificação do gasoduto Nord Stream 2, numa decisão saudada pela UE e pelos EUA.
Foto: Clemens Bilan/Getty Images
2022 - 24 de Fevereiro
Tropas russas entram na Ucrânia e muitos locais são atingidos por mísseis. Vladimir Putin pronuncia um discurso no qual afirma que apenas alvos militares serão atingidos. Mas relatos de civis feridos e vídeos de ataques em zonas urbanas enchem as redes sociais. Várias baixas são reportadas nas primeiras horas do conflito.
Foto: Ukrainian President s Office/Zuma/imago images
2022 - 24 de Fevereiro
Edifícios residenciais civis atingidos durante a operação militar do Kremlin contra a Ucrânia. Relatos, vídeos e pedidos de ajuda surgem nas redes sociais, expondo vários cenários em que zonas urbanas e civis foram apanhados na destruição dos ataques militares.
Foto: UMIT BEKTAS/REUTERS
2022 - 24 de fevereiro
Muitas pessoas utilizaram as estações de metro em Kiev como abrigo durante a operação militar do Kremlin. As sirenes contra ataques aéreos soaram pela primeira vez desde a 2ª Guerra Mundial. As estações encheram-se de pessoas à procura de guarida.
Foto: Zoya Shu/AP/dpa/picture alliance
2022 - 24 de Fevereiro
Protestos contra a iniciativa militar do Kremlin surgem em vários países, incluindo na Rússia. Na foto, uma manifestante russa é detida pela polícia enquanto segura um cartaz que diz "Não à guerra!".