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História

Como evitar criar locais de romaria para fascistas?

5 de setembro de 2019

Portugal debate a criação de um museu sobre Salazar e o Estado Novo, na terra natal do ditador, Santa Comba Dão. Mas os críticos temem que o local se torne num "santuário" para fascistas. Como evitar que isso aconteça?

Foto: picture-alliance/AP/P. Carroll

Uma exposição sobre o ditador Adolf Hitler? Na Alemanha? Em 2010, o Museu Histórico Alemão, em Berlim, quebrou tabus com a exposição "Hitler e os Alemães".

Foi a primeira vez que um museu alemão focou a relação do ditador nazi com a sociedade. Na exposição questionava-se como foi possível a Hitler chegar ao poder e por que motivo tantas pessoas o apoiaram.

Colocar Adolf Hitler em grande plano numa exposição tem os seus riscos. Por isso é que, até 2010, poucas pessoas se atreveram a fazê-lo, segundo a historiadora Simone Erpel: "Havia o medo de se reativar uma espécie de culto ao líder. Estamos a falar de uma exposição com vários objetos: uniformes, suásticas, fotos, cartazes, ou seja, material de propaganda."

Evitar um local de romaria

Erpel foi uma das pessoas que ajudou a criar a exposição "Hitler e os Alemães". A curadora conta que, na altura, uma das grandes preocupações era que a exposição se tornasse num local de romaria para neonazis, interessados apenas em ver as relíquias do ditador.

Capas sobre Adolf Hitler da revista alemã Spiegel na exposição "Hitler e os Alemães", em 2010Foto: DW

Foi por isso que vários objetos pessoais de Adolf Hitler ficaram de fora. Foram precisos dois anos para preparar a exposição, e foram ouvidos vários especialistas na matéria, diz Erpel em entrevista à DW África.

"Não estávamos interessados em focar a biografia completa de Hitler, mas em mostrar como é que a sociedade o via e porque é que, nessa altura, ele teve essa oportunidade e conseguiu, do nada, derrubar o Governo alemão. Foi esse o foco", acrescenta.

Contextualizar a história

Na Alemanha, o antigo local de férias de Adolf Hitler em Obersalzberg, nos Alpes, é hoje um centro de documentação sobre o regime nazi e sobre a perseguição e assassinato de seis milhões de judeus.

Como evitar criar locais de romaria para fascistas?

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Em 2016, quando o livro "Mein Kampf" de Adolf Hitler voltou a ser publicado na Alemanha, veio numa edição em dois volumes, com 3.700 anotações e duas mil páginas. "É a tentativa de dar um enquadramento científico meticuloso, de contextualizar, de esclarecer as coisas de forma racional, onde é possível fazê-lo... Porque, no nacional-socialismo, há muitas áreas irracionais que vão além da compreensão humana", explica o historiador alemão Dominik Geppert.

Em 2010, este enquadramento, com textos explicativos e fotos sobre o tempo antes, durante e depois do Terceiro Reich, terá contribuído para que a exposição "Hitler e os Alemães" não se tornasse um local de romaria: "Começa logo pelo título. Não se chamava 'exposição Hitler', mas 'Hitler e os Alemães'", afirma a historiadora Simone Erpel.

O caso de Predappio

Em Predappio, no centro-norte de Itália, aconteceu o contrário. O local de nascimento de Benito Mussolini, um aliado de Hitler, tornou-se local de peregrinação de fascistas. Quem já foi conta que na localidade até havia souvenirs do "Duce" à venda.

Túmulo de Mussolini em Predappio, um local de romaria de fascistas e que atrai muitos turistasFoto: picture-alliance/akg-images/Hedda Eid

Os críticos à abertura de um museu sobre António Salazar em Portugal lembram o exemplo de Predappio. Temem também que o museu, a ser criado em Santa Comba Dão, possa tornar-se um local de romaria.

Salazar não foi um ditador como Mussolini. E o seu regime também não se pode equiparar ao de Adolf Hitler, lembra o historiador alemão Arnd Bauerkämper: "É preciso distinguir os casos de Salazar e de Hitler. Salazar foi um governante autoritário, que cometeu crimes, mas numa dimensão muitíssimo menor do que o nacional-socialismo". Mas "é claro que não se justifica perpetuar uma adoração a Salazar".

"Não se deveria repetir o exemplo de Predappio", refere o historiador à DW África. "Deveria recorrer-se a especialistas e envolver organizações da sociedade civil. Penso que este processo de debate garante que se crie, de facto, um centro de documentação ou de memória e não um local de culto a um ditador. Porque Salazar foi um ditador autoritário."

A Câmara Municipal de Santa Comba Dão, em Portugal, rejeita a criação de um "santuário" para fascistas e garante que o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra fará a consultoria científica e tecnológica para o "Centro Interpretativo do Estado Novo".

Em entrevista ao jornal português Público, o historiador João Paulo Avelãs Nunes, consultor do projeto, sublinhou que a ideia não é criar uma "casa-museu Salazar" para enaltecer o ditador, mas "um centro de interpretação, com grande grau" científico.

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