Moçambique: Fim de apoio da USAID trava construção de escola
22 de março de 2025
A construção da Escola Secundária de Maringanha, na cidade de Pemba, no norte de Moçambique, arrancou em 2023. Mas agora pode não ser acabada.
A administração Trump iniciou em janeiro o desmantelamento da agência de desenvolvimento norte-americana USAID, que tinha um orçamento anual de 42,8 mil milhões de dólaresFoto: Ute Grabowsky/photothek/picture alliance
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A construção da maior escola da província moçambicana de Cabo Delgado, com capacidade para 4.500 alunos, está parada há dois meses devido à suspensão das atividades da USAID, decidida pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, foi revelado este sábado (22.03).
"A obra, realmente, ficou paralisada. Está a cerca de 60, 65%. E estamos à espera de uma comunicação oficial", disse o diretor provincial de Educação de Cabo Delgado, Ivaldo Quincardete.
A Escola Secundária de Maringanha, na cidade de Pemba, capital de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, arrancou em junho de 2023, prevendo 36 salas para 4.500 alunos, num investimento superior a 200 milhões de meticais (2,9 milhões e euros) financiando pela agência de desenvolvimento norte-americana USAID.
"Caso realmente a USAID não continue, existem parceiros de boa-fé que estão com vontade de concluir a obra", garantiu Ivaldo Quincardete.
A paragem na obra de construção da escola, a cargo do Ministério da Educação e a maior edificada na província nos últimos 50 anos, aconteceu em janeiro, na sequência da ordem do Presidente norte-americano para congelar por 90 dias todos os projetos financiados pela USAID.
A administração Trump iniciou em janeiro o desmantelamento da agência de desenvolvimento norte-americana USAID, que tinha um orçamento anual de 42,8 mil milhões de dólares (cerca de 39,3 mil milhões de euros) e que, por si só, representava 42% da ajuda humanitária em todo o mundo.
Escolas e material degradado na Zambézia
Para além da sobrelotação, há várias escolas sem condições na província da Zambézia, no centro de Moçambique. As infraestruturas encontram-se deterioradas e há falta de material escolar.
Foto: DW/M. Mueia
Escola Primária de Nacogolone
Aqui as crianças estudam debaixo das árvores, estando as aulas dependentes da meteorologia. A maior parte das crianças que estuda nesta escola foi vítima das cheias de 2015, tendo as suas famílias sido reassentadas nas proximidades do bairro Nacogolone. Foram já várias as iniciativas que surgiram no bairro para a reconstrução de salas convencionais, mas a falta de recursos não as deixou avançar.
Foto: DW/M. Mueia
Escola Primária de Mutange
As salas de aula desta escola, localizada a 15 quilómetros do extremo sul da vila sede do distrito de Namacurra, foram construídas com material convencional. No entanto, estão deterioradas. As secretárias escolares e o material didático para os professores estão em más condições e os assentos são trazidos e levados pelos alunos todos os dias de e para as suas casas.
Foto: DW/M. Mueia
Escola Primária 17 de Setembro
Embora se localize na capital da província, as condições desta escola estão muito abaixo das expetativas. Algumas paredes estão corroídas, outras parcialmente destruídas. O mesmo acontece com as carteiras escolares. O teto está deteriorado, o que constitui um perigo para os alunos. A direção da escola recebeu cerca de 200 mil meticais, mas diz não ser suficiente para reabilitar toda a estrutura.
Foto: DW/M. Mueia
Escola Primária de Quelimane
Localizada no centro, em frente ao edifício do Governo da Província da Zambézia, é umas das escolas mais privilegiadas da cidade. Tem condições favoráveis e adequadas ao ensino e à aprendizagem, possuindo até uma sala de conferências. É a mais antiga escola primária - no tempo colonial, era frequentada pelos filhos dos colonos e filhos de negros assimilados.
Foto: DW/M. Mueia
Escola Comunitária Mártires de Inhassunge
Fundada pela congregação religiosa Padres Capuchinhos, a Escola Comunitária Mártires de Inhassunge acolhe alunos do 1º ao 10º ano e é muito frequentada por pessoas carenciadas e órfãs. Apesar de ter dificuldades no acesso ao fundo de apoio direto às escolas, a instituição conta com infraestruturas adequadas e salas de aula equipadas com carteiras. Uma realidade diferente das escolas públicas.
Foto: DW/M. Mueia
Escola Secundária Geral de Sangarriveira
Integrando alunos da 8ª à 12ª classe, esta escola, que começou a funcionar em 2013, apresenta já rachas nas paredes, janelas partidas e chão degradado. A diretora Paulina Alamo afirma que as obras não obedeceram ao que estava estabelecido. A dimensão das salas é pequena para a quantidade de alunos existente. Há estudantes que têm de se sentar no chão.
Foto: DW/M. Mueia
Escola Primária e Completa de Wazemba
O problema alastra-se também aos professores. Os gabinetes dos diretores e gestores das escolas localizadas em sítios mais distantes das vilas e postos administrativos estão em péssimas condições. Exemplo disso é a Escola Primária e Completa de Wazemba, no distrito de Namacurra. No gabinete do diretor, há atlas geográficos pendurados nas paredes feitas de material de construção local.
Foto: DW/M. Mueia
Pais, alunos e professores garantem manutenção
A estrutura externa do gabinete do diretor da Escola Primária de Wazemba foi construído com materiais locais - paus e folhas de coqueiro para cobrir o teto. As paredes são revestidas por lama. Em muitas outras infraestruturas escolares semelhantes a esta, a reabilitação é garantida pelos próprios alunos, encarregados de educação, lideres comunitários e professores.
Foto: DW/M. Mueia
Governo conhece situação
Carlos Baptista Carneiro, administrador de Quelimane, garante que a reabilitação das escolas e a compra de carteiras escolares está dependente da disponibilidade de fundos, pelo que não será possível reabilitar todas as escolas da cidade ao mesmo tempo. Segundo o administrador, o número das instituições de ensino que aguardam reabilitação é grande e o Governo tem conhecimento da situação.