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Cultura

"Continuamos a ser invisíveis"

24 de junho de 2017

O ator são-tomense Ângelo Torres, com mais de 20 anos de carreira, é homenageado este fim de semana em Portugal devido ao seu trabalho nas artes. Ele, contudo, reconhece que o sucesso de atores negros ainda é limitado.

Portugal Angelo Torres
Foto: DW/J. Carlos

O ator Ângelo Torres "atravessou o deserto e atingiu a ribalta" no teatro e nos meios audiovisuais portugueses, com participações em vários projetos televisivos. Um deles é a novela luso-angolana "A Única Mulher", onde se destaca encarnando a figura de "Norberto".

O jovem são-tomense é um caso de sucesso entre os atores africanos em Portugal, que muitas vezes encontram barreiras diversas para serem reconhecidos. Pelo seu desempenho, artistas africanos e o poder local decidiram homenageá-lo este fim de semana na Festa Multicultural da Baixa da Banheira, nos arredores de Lisboa, pelo trabalho que tem vindo a desempenhar ao longo da sua carreira nas artes.

Na verdade, Ângelo Torres nasceu na Guiné Equatorial em 1966. Filho de pais são-tomenses. Viveu em Espanha e se formou em Engenharia Termodinâmica pelo Instituto Lázaro Cardenas, em Cuba. O pai, um comunista ferrenho, decidiu enviá-lo para Cuba para ser engenheiro, com tendências de esquerda; mas foi o próprio pai que desejou ver o filho em Portugal para que o curso tivesse equiparação num país capitalista. Foi daí que optou por instalar-se em Lisboa, embora o desejo fosse viver em São Tomé e Príncipe, onde esteve apenas quatro anos.

Fez o curso de Artes Performativas na Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo, o conhecido Chapitô. Frequentou antes o Conservatório, sem sucesso.

Torres destaca-se por trabalhar em diversos meios das artesFoto: DW/J. Carlos

Oportunidade na arte

"A minha vida é um livro aberto", afirma o ator em entrevista à DW. Ele estreou no teatro em 1991, na peça a "Missão", de Heine Müller, encenada por Luís Miguel Cintra. Mas, a primeira incursão no teatro foi um mero acaso, por impulso de um amigo são-tomense, Quintero Aguiar, que fez a adaptação de uma peça das ilhas, "Camarada Morto", experimentada na Estefânia.

Com efeito, costuma dizer taxativamente que "foi atropelado pelo teatro" pelas mãos do ator português João Grosso. Na altura estavam à procura de atores negros para a série televisiva "Café de Ambriz", realizada por Jaime Campos.

Embalou-se perante o desafio. Para ele, tinha começado a maratona. Todos os dias era posto à prova no processo de afirmação como ator, num mercado dominado por atores brancos. Atento às transformações sociais ao longo destes anos, repara que Portugal está a mudar até neste aspeto por ser hoje um país multicultural e multi-étnico. "Aquele chavão que se criou nos anos 90 de que 'somos todos diferentes, mas todos iguais' foi um grande erro", recorda.

Do teatro para a televisão

Ao longo da caminhada, lembra vários episódios que marcaram os primeiros anos da sua carreira. Na primeira das "travessias do deserto", quase queria desistir do teatro. Superou a dor e usou todas as técnicas e o conhecimento do meio para tirar disso proveito, vindo daí a descobrir a sua faceta de realizador.

Viria a dar o salto e abraçar o desafio que lhe foi lançado a nível da TV, participando em séries e novelas, com a ajuda de vários atores portuguesas da altura. Em "A Única Mulher", recém exibida pela televisão independente TVI, Ângelo Torres dá vida ao personagem "Norberto".

Ângelo Torres durante cena da peça "A Geração da Utopia", encenada no ano de 2014 em LisboaFoto: DW

É igualmente protagonista com o angolano Miguel Hurst no mais recente filme de Jorge António, "A Ilha dos Cães", que fala do pesadelo colonial lusitano em África. A produção, que entrou este ano no circuito dos cinemas portugueses, conta também com a prestação de outros atores africanos.

"O papel aplaudido por muitos espetadores foi desafiador, mas estava à espera de uma maior repercussão junto do público", desabafa, para acrescentar: "continuamos a ser invisíveis, sobretudo para a grande imprensa", remata, a pensar nos companheiros que não alcançaram o mesmo patamar que ele. "Sou uma exceção. As coisas não mudaram muito para os meus colegas", revela.

Reconhecimento

Só agora, depois de vinte anos de carreira, começou a sentir o reconhecimento por parte do público pelo seu percurso. E diz com orgulho: "sou dos poucos atores em Portugal que faz cinema, teatro e televisão, com prémios nacionais e internacionais".

Reconhece que é dos que menos razão de queixa tem. Mesmo assim, ainda não se sente um ator realizado, muito por culpa própria. Por isso, decidiu ser mais pró-ativo em grupo, que viria a criar a GRIOT, associação cultural que congrega não só atores africanos.

Como realizador, possui uma extensa filmografia, que lhe permitiu desenvolver uma excelente carreira ao nível internacional.

Este domingo (25.06), Ângelo Torres é homenageado no encerramento das Festas Multiculturais 2017, na Baixa da Banheira e Vale da Amoreira (freguesias da Moita), em reconhecimento ao trabalho que tem vindo a desenvolver ao longo da sua carreira no mundo das representações teatrais e da televisão. É visto como um dos casos de sucesso nos meios portugueses por ter conquistado espaço próprio, destacando-se entre os atores africanos de língua portuguesa que se esforçam também para se afirmarem como tal.

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