COP30: “É hora de agir”, diz Vladimir Russo sobre o clima
10 de novembro de 2025
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) começou oficialmente nesta segunda-feira (10) em Belém, no Brasil. Pela primeira vez, o encontro global sobre o clima realiza-se em território brasileiro, e no coração da Amazónia. Representantes de cerca de 170 países participam do evento, que decorre até 21 de novembro, com o objetivo de acelerar compromissos concretos para travar o aquecimento global.
Em Angola, o impacto das alterações climáticas já é visível, alerta Vladimir Russo, diretor executivo da Fundação Kissama. Em entrevista à DW, o ambientalista afirmou que o país enfrenta mudanças nos padrões de precipitação e um aumento gradual das temperaturas, sobretudo no sul, o que afeta as florestas, a biodiversidade e a vida das populações.
Para ele, a COP30 precisa traduzir discussões em ações concretas, sobretudo no financiamento climático, na proteção das florestas tropicais e na transferência efetiva de recursos prometidos em conferências anteriores.
Russo defendeu ainda uma maior cooperação entre os países africanos lusófonos, que partilham vulnerabilidades semelhantes face aos fenómenos climáticos extremos.
DW África: Angola é um país particularmente exposto aos efeitos das mudaças climáticas?
Vladimir Russo (VR): Se olhamos para os relatórios do IPCC e os relatórios de investigação que é feita a nível da África Austral e que toca também em Angola, é possível notar que há alguns efeitos sobre os nossos recursos hídricos, sobre as nossas florestas, sobre os aspetos ligados à precipitação, particularmente a nível do sul do país, e sobre o aumento ligeiro das temperaturas.
DW África: É possível apresentar dados concretos sobre o aumento das temperaturas médias em Angola nos últimos anos?
VR: Não é possível apresentar dados concretos porque, de facto, é preciso continuar a fazer estudos, mas é possível identificar algumas nuances no tempo, nos padrões climatéricos, que não tínhamos há 20 anos. Portanto, isso é uma preocupação não só para o governo angolano, mas para as associações que trabalham na defesa do ambiente e da biodiversidade e que notam um aumento de determinados fenómenos que têm um impacto sobre a população e sobre a vida selvagem.
DW África: Olhando de Angola para esta COP 30, qual seria a posição certa nesta COP 30?
VR: Entre as COPs há discussões de vários elementos, alguns assuntos antigos, outros mais recentes, como é o caso dos danos e reparações, e alguns mais antigos sobre o financiamento climático. Portanto, as expectativas são sempre grandes, não só nas discussões, mas no que depois resulta das resoluções das COPs.
Este ano, obviamente, as questões relacionadas com o financiamento climático e a proteção das florestas tropicais, as florestas que nós também temos em Angola, as negociações que vão ocorrer sobre o controlo do desmatamento e a redução das emissões de gases de efeito estufa também são outro aspeto importante. E a apresentação de novos projetos de preservação da biodiversidade, incluindo tecnologias de monitoramento ambiental.
Nós percebermos como é que, de facto, com essas tecnologias, estamos a perceber, não diria em tempo real, mas em curto espaço de tempo, quais são os impactos que estarão a acontecer.
Nós temos um satélite e esperamos que este satélite possa contribuir para uma melhor compreensão dos efeitos climáticos em Angola.
E, depois, o maior compromisso dos países envolvidos em relação àquela temática que já é antiga, que é a transferência de recursos e o cumprimento dos acordos anteriores, que têm sido discutidos nas COPs anteriores, para que, de facto, isso seja implementado.
Então, essas são as principais ações que vão ocorrer e que nós gostaríamos de ver com resultados concretos.
DW África: Tem uma perspetiva sobre o que se passa nos outros PALOP?
VR: Sim. Nós vamos trabalhando em parcerias com vários projetos, particularmente, eu refiro-me aqui, a Moçambique e também a São Tomé e Cabo Verde. São os países com quem temos mais relação do ponto de vista das novas ações que temos aí e notamos que, de facto, há perspetivas muito semelhantes.
Claro que, se olharmos para Moçambique, é um país muito mais afetado pelos fenómenos extremos climatéricos e temos reparado fenómenos que têm impacto nas infraestruturas, com perdas incalculáveis do ponto de vista das infraestruturas e de vidas humanas, e trazendo também pobreza para as populações.
Temos o caso particular de uma ilha pequena, que é São Tomé e Príncipe, que também tem alguns impactos, e Cabo Verde, que tem feito alguns esforços no sentido de se modernizar. Não tem o mesmo tipo de floresta que nós temos em Angola e Moçambique, mas tem outros processos que podem ajudar na mitigação das alterações climáticas.
Todos estes países com os quais nós trabalhamos têm tido um impacto significativo das alterações climáticas.