Crise em Madagáscar: Manifestantes desafiam Andry Rajoelina
Saleh Mwanamilongo
1 de outubro de 2025
Antananarivo, capital de Madagáscar, voltou a ser palco de protestos com a intervenção das forças de segurança, que usaram gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes que exigem a demissão do Presidente Rajoelina.
Manifestantes erguem barricadas na estrada durante uma manifestação em Antananarivo contra os frequentes cortes de energia e a escassez de águaFoto: Zo Andrianjafy/REUTERS
Publicidade
Na terça-feira (30.09), as forças de segurança dispersaram centenas de manifestantes com recurso a gás lacrimogéneo em Antananarivo, capital de Madagáscar.
Os protestos ocorreram em vários bairros da cidade e são liderados por jovens que, há cerca de uma semana, se manifestam contra os cortes de água e eletricidade, exigindo também o respeito pelas liberdades fundamentais.
Segundo Herizo Andriamanantena, porta-voz do coletivo "Gen Z Madagáscar", a mobilização vai continuar, com o movimento a exigir a demissão do Presidente Andry Rajoelina.
"Francamente, se o governo não responder às nossas reivindicações. Até agora, decidimos apenas continuar a lutar. Temos a obrigação de mudar tudo. Não penso em negociar, mas o que é certo é que esperamos a destituição e a demissão do Presidente, sobretudo essa demissão", afirmou Andriamanantena. O porta-voz acrescenta que os jovens mobilizados têm sido alvo de ameaças e intimidações por parte das autoridades.
Na segunda-feira (29.09), Andry Rajoelina anunciou ter ouvido os apelos da juventude e demitiu o primeiro-ministro e o governo. No entanto, isso não acalmou os manifestantes, que se mostram chocados e revoltados com a violência da repressão policial.
A juventude representa a esmagadora maioria dos habitantes da ilha de MadagáscarFoto: Zo Andrianjafy/REUTERS
"Será que pode ir mais longe?"
Raoto Adriamanambe, jornalista e analista político em Antananarivo, considera que o Presidente não está disposto a fazer mais concessões.
"O sentimento dos cidadãos hoje, especialmente dos jovens, é que ele (Rajoelina) falou sobretudo dos outros, mas não falou de si próprio. Será que pode ir mais longe? Não creio, porque se quisesse realmente ir mais longe, teria de ser ele a demitir-se. Essa é uma das exigências mais fortes dos manifestantes. Está ele nessa lógica? Não me parece. Não é o discurso de alguém que quer ceder mais", considera Adriamanambe.
O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou estar "chocado com a resposta violenta" às manifestações em Madagáscar, onde, segundo a ONU, "pelo menos 22 pessoas foram mortas e mais de uma centena ficaram feridas."
Esta terça-feira (29.09) houve um desfile de centenas de pessoas em Toamasina, no leste do país. Já na segunda-feira (28.09), a mobilização foi particularmente intensa em várias grandes cidades, como Antsiranana, no norte.
Publicidade
Antananarivo abalada
Estas são as manifestações mais significativas desde o período que antecedeu as eleições presidenciais de 2023, boicotadas pela oposição.
Andry Rajoelina, antigo presidente da câmara de Antananarivo, de 51 anos, chegou ao poder pela primeira vez entre 2009 e 2014, na sequência de uma revolta popular, tendo aceitado afastar-se temporariamente sob pressão internacional. Foi eleito em 2018 e reeleito em 2023, num escrutínio fortemente contestado.
A ilha de Madagáscar é famosa pela biodiversidade, fertilidade e riqueza em matérias primas. Mas a perene crise política paralisa a economia e agrava a pobreza da população.
Foto: DW/F.Müller
Recuo económico no país em crise
O país no Oceano Índico é rico em matérias primas, incluindo enormes reservas de titânio, níquel e petróleo no chão e ao largo da costa. Não obstante, uma grande parte da população vive na pobreza. Há quatro anos que uma crise política assola o país, que paralisa também a economia nacional. Os malgaxes vivem na incerteza, no medo e com grandes problemas financeiros.
Foto: DW/F.Müller
Isolado e empobrecido
Sob a politica económica liberal do Presidente Marc Ravalomanana, e graças a investimentos e assistência ao desenvolvimento, a economia malgaxe recuperou um pouco entre 2002 e 2008. Andry Rajoelina, encontra-se no poder desde o seu golpe de Estado em 2009, à frente de um controverso Governo de transição. Os países doadores congelaram a assistência e os preços dos alimentos básicos subiram.
Foto: DW/F.Müller
O dinheiro não chega para uma refeição quente
Nas ruas da capital, Antananarivo, um prato com arroz com um pouco de carne e legumes custa cerca de 500 ariary, o que equivale a 17 cents do euro. O que é muito dinheiro no Madagáscar. Segundo o Banco Mundial, 92% da população vive do equivalente a menos de 1,50 euros por dia. Muitas famílias passam fome.
Foto: DW/F.Müller
Colheitas pobres
Não obstante do cultivo extensivo de arroz, o principal alimento malgaxe também tem que ser importado. Mesmo havendo solos férteis e água abundante. Mas a agricultura não desenvolveu o seu potencial. Apesar de quase 90% da população trabalhar na agricultura, o sector só gera um quarto do Produto Interno Bruto, diz o Banco Mundial.
Foto: DW/F.Müller
Natureza perigosa
Partes da ilha são regularmente assoladas por ciclones, cheias e secas extremas, ameaçando as colheitas. Ainda não existe um sistema eficiente de alerta e protecção. Acresce a invasão de uma praga de gafanhotos desde a primavera de 2012. A produção de arroz arrisca-se a perdas enormes de até 630 000 toneladas por ano, estima a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO.
Foto: DW/F.Müller
Ajuda inicial para agricultores
Desde que começou a crise política e económica em 2009, muitas pessoas procuram o seu ganha pão na agricultura. É frequente não terem a formação necessária, só conhecerem técnicas antiquadas e não terem dinheiro para comprar maquinaria, diz a organização não-governamental CITE. Esta ONG ajuda os jovens agricultores a levarem os seus produtos para o mercado.
Foto: DW/F.Müller
À espera de clientes
A agricultura representa a única esperança também para Jean-Noël und Erick Régis. Por enquanto ainda se esforçam por alimentar a família trabalhando como condutores de riquixás na cidade de Antsirabe, no centro do país. Mas nem todos os dias conseguem pagar a renda equivalente a dois euros para o “pousse-pousse”. Antes da crise tinham 20 clientes nos dias bons, hoje são apenas quatro ou cinco.
Foto: DW/F.Müller
Receio pelos zebus
Para muitas famílias, os zebus são animais de trabalho, alimento e investimento e cruciais à sobrevivência. Mas com a crise aumentou a criminalidade. Quase diariamente os jornais relatam assaltos de ladrões de gado a aldeias, das quais roubam centenas de cabeças. A esta prática deu-se o nome de “dahalo”. Os conflitos com os habitantes e as forças de ordem muitas vezes resultam e mortos e feridos.
Foto: DW/F.Müller
Viver na insegurança
Eliane (atrás, à direita) perdeu o seu irmão num desses assaltos. Os “dahalo” mataram-no, diz. Juntamente com os seus familiares, Eliane colhe algodão num campo no sul seco do Madagáscar. A família vive, sobretudo, do cultivo de mandioca e milho. Mas no ano passado um ciclone destruiu grande parte da colheita. Eliane tem à sua disposição por ano mais ou menos o equivalente a 100 euros.
Foto: DW/F.Müller
Eleições para sair da crise?
Antananarivo, a capital, é o centro político do Madagáscar. Os observadores são unânimes: para que o país se liberte da crise e da pobreza é necessário pôr termo à situação de transição política. Mas as eleições já foram adiadas por várias vezes. De qualquer modo, muitos malgaxes dizem que não importa quem governa o país. Importa ter o que comer no dia seguinte.