No Delta do Níger, sul da Nigéria, a queima de gás na produção de petróleo causa danos a saúde e meio ambiente. As petrolíferas ignoram as queixas dos habitantes e quase nunca respeitam as leis que regulam a atividade.
Tocha de gás no Delta do NígerFoto: DW/Jan-Philipp Scholz
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Para Bubaraye Dakolo este é um dia bom, porque conseguiu sair de casa sem apanhar um ataque de tosse. A menos de cem metros da sua casa foi instalada uma chamada tocha de gás. Trata-se de uma construção simples de condutas com uma chama na ponta.
A indústria do petróleo usa estes sistemas para queimar os gases supérfluos que surgem quando furam a terra para prospeção. Calcula-se que no Delta do Níger, onde se encontra a maior reserva de petróleo do mundo, são anualmente queimados gases no valor de mil milhões de dólares,
Bubaraye Dakolo vive numa pequena aldeia perto da cidade de Yenagoa. A tocha de gás perto de sua casa só raras vezes é ativada. Mas quando é operada, respirar torna-se numa tortura para Dakolo e os seus vizinhos. "De repente fica tudo a cheirar a gás”, diz Dakolo, que é o líder local do clã dos ekpetiama nesta região.
A luta contra a poluição do ar é uma prioridade na sua agenda política. Conta que na maior parte das vezes a multinacional Shell, responsável pela exploração do petróleo, na maior parte das vezes nem sequer anuncia quando pretende operar a tocha: "E quando nos queixamos, não recebemos qualquer resposta”, acrescenta.
Bubaraye Dakolo, líder comunitário dos EkpetiamaFoto: DW/Jan-Philipp Scholz
Todos sofrem
Assim que Dakolo aparece no centro da sua pequena localidade, aparecem logo populares para se queixarem ao chefe. Um jovem diz que o seu telhado novo de zinco enferrujou por causa da chuva. Outro habitante diz que a colheita foi novamente miserável. Todos pedem a Dakolo que fale com a Shell, para que possam voltar a viver normalmente.
O líder tradicional tenta acalmar os homens. Ele sabe que as expetativas em relação à sua pessoa são grandes. Mas também sabe que tem um adversário muito poderoso. Geralmente as multinacionais de petróleo podem contar com o apoio da maioria dos políticos, diz Dakolo. "A existência das tochas de gás é uma consequência direta da corrupção. Os políticos são pagos, e por isso não defendem os nossos interesses”, acusa.
A indústria do petróleo viola a lei
Um bairro de YenagoaFoto: DW/Jan-Philipp Scholz
O mais forte aliado de Dakolo vive a poucos quilómetros de distância, na capital regional de Yenagoa. Há décadas que o ativista Alagoa Morris do "Niger Delta Resource Center” luta contra a destruição do delta do Níger pela indústria petrolífera. É um senhor já de idade que salienta que a queima do gás com tochas já é proibida na Nigéria há muitos anos.
O Tribunal Supremo concluiu em 2005 que a prática viola os direitos humanos dos habitantes do delta. "A indústria do petróleo nunca recorreu da sentença. Por isso é válida”, diz Morris. O problema é que a indústria só raras vezes é multada e muito pouco. Por isso os consórcios simplesmente ignoram as leis na Nigéria e já incluem o pagamento de poucas multas no planeamento do orçamento.
É algo que indigna Bolaji Babatunde. No seu pequeno escritório na Universidade de Port Harcourt, o bioquímico de renome internacional, que investigou as consequências da exploração de petróleo na região, fala de um verdadeiro escândalo.
Babatunde diz que a prática da queima provoca emissões maciças de gases de efeito estufa, que estão no topo da lista dos pecados contra o meio-ambiente. Mas isso não é tudo. Está provado que muitas das substâncias libertadas pela queima são nocivas para plantas, animais e pessoas na vizinhança.
A aldeia vai a tribunal
Aldeões conversam com Bubaraye Dakolo (dir.)Foto: DW/Jan-Philipp Scholz
"Seria tão fácil transformar o gás em energia”, diz o investigador. "A maioria das pessoas ainda usa madeira para cozinhar. E eu tenho que usar um gerador aqui no meu escritório. Ao mesmo tempo desperdiçam-se três quartos do gás que podia produzir energia”, diz Babatunde. As razões são óbvias acrescenta: o Delta do Níger é uma região pobre e de acesso difícil. As empresas petrolíferas não contam com lucros suficientes para lhes merecer os investimentos necessários para uma solução limpa.
A Shell recusou-se a comentar as acusações. Apenas uma pequena empresa petrolífera regional mostrou disposição para falar abertamente sobre o tema. O vice-diretor da Balema Oil promete que a sua empresa, fundada há apenas cinco anos, renunciará completamente à queima de gás até 2019.
"É surpreendente que após tantos anos de exploração de petróleo ainda não haja na região sequer uma infraestrutura técnica básica”, diz Pedro Diaz. A Balema Oil, acrescenta, quer aprender dos erros dos grandes consórcios.
Bubaraye Dakolo diz que só acreditará quando desaparecerem as tochas de gás. Desde criança que escuta as promessas incessantes da indústria petrolífera. Agora o líder comunitário começou a documentar todos os problemas de saúde da população local. E mostra-se decidido: "Se for preciso, levo os casos aos tribunais europeus”.
Ogoniland – O dia a dia após o derrame de petróleo
Apesar de gerar receitas, o petróleo também causa desilusão na região de Ogoniland, no Delta do Níger. A pesca tornou-se quase impossível nas águas contaminadas e o ar está poluído pelos gases tóxicos da queima de gás.
Foto: Katrin Gänsler
Pesca ineficaz
A aldeia de Bodo, na Nigéria, sempre viveu da pesca. Mas desde os derrames de petróleo no Delta do Níger, em 2008 e 2009, as redes dos pescadores estão vazias. Quem hoje em dia ainda pretende viver da pesca tem de ir para o mar, o que significa mais horas de trabalho e custos mais elevados.
Foto: Katrin Gänsler
Dependentes da água
Bodo fica na região de Ogoniland, no Delta do Níger, no extremo sudeste do país. Aqui, quase todos os canais do Níger estão contaminados por petróleo. E as pessoas sempre viveram na e com a água. Ainda hoje muitos vilarejos só são acessíveis por barco.
Foto: Katrin Gänsler
Manchas de petróleo por toda a parte
O caso do derrame de petróleo em Bodo e noutras partes de Ogoniland também foi abordado pelo Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (PNUMA). Num relatório publicado em agosto de 2011, o PNUMA recomendou que o governo e as petrolíferas disponibilizem mil milhões de dólares para trabalhos de limpeza. No entanto, as manchas de petróleo, que reluzem na água, continuam até agora.
Foto: Katrin Gänsler
O meio ambiente não tem interesse na Nigéria
Saint Emmah Pii, o chefe da aldeia de Bodo, está zangado. “Estamos todos a morrer aqui. Bebemos água contaminada. Inalamos fumos tóxicos. A culpa é do petróleo.” Fora de Bodo, no entanto, ninguém parece preocupado. “Até ao momento, nem o governo em Abuja nem mesmo as multinacionais se interessaram pelos nossos problemas”, lamenta o chefe da aldeia.
Foto: Katrin Gänsler
Nada funciona sem o ouro negro
Desde o início da produção de petróleo, em 1958, a Nigéria tornou-se no oitavo exportador de petróleo no mundo. O Estado depende fortemente do ouro negro, do qual advém 90% das receitas de exportação. Cerca de 80% dos impostos do país derivam da produção do crude. Oleodutos como estes no estado de Rivers têm, portanto, de ser tolerados.
Foto: Katrin Gänsler
Na sombra das chamas de gás
Em todo o Delta do Níger, chamas como estas aparecem de repente. E não importa se a aldeia mais próxima fica a poucas centenas de metros de distância. Aqui, a queima de gás é oficialmente proibida desde 1984. Porém, 28 anos depois, ninguém se preocupa com o cumprimento da lei.
Foto: Katrin Gänsler
Tão ricos, tão pobres
Furioso, Chukwuma Samuel mostra as chamas de metros de altura com as quais ele e toda a aldeia têm de viver perto da pequena cidade de Egbema. “Olhem para as pessoas aqui. Elas estão indignadas”, diz, apontando para o pequeno mercado em que se encontra. “Estamos a sofrer aqui. Temos de lutar. Para nós, não sobra nada da riqueza do petróleo.”
Foto: Katrin Gänsler
O povo deve decidir
As petrolíferas não gostam de ouvir que não se importam com as pessoas. Portanto, o Grupo Shell anunciou um programa chamado GMoU - "Memorando de Entendimento Global". Os municípios recebem o dinheiro e decidem eles mesmos o que fazer com ele. Na maior cidade do Delta do Níger, Port Harcourt, o Hospital de Obio Cottage foi renovado. Todos os pacientes elogiam o empenho da Shell.
Foto: Katrin Gänsler
Bodo sem qualquer apoio
Contudo, a Bodo não chegou qualquer apoio, critica Kentebe Ebiaridor da organização de defesa ambiental Environmental Rights Action (ERA). E a maior prova disso são as margens sujas de petróleo. "As pessoas estão desiludidas", diz.
Foto: Katrin Gänsler
Petróleo barato do governo
Que a Nigéria é um país produtor de petróleo, os nigerianos só o notam nos preços da gasolina subsidiados pelo Estado. Até o final de 2011, um litro de gasolina custava 65 nairas (32 cêntimos). No início de 2012, o governo acabou com uma parte dos subsídios. Isto causou uma onda de protestos. Atualmente o litro custa 97 nairas (50 cêntimos), bem menos do que em muitos outros países de África.
Foto: Katrin Gänsler
A sonhar com uma pequena loja
Franziska Zabbey nada sabe sobre os preços da gasolina barata. Vive da terra e raramente sai de Bodo. O dinheiro que ganha mal lhe chega para sobreviver. “Se a Shell nos pagar uma indemnização pelo derrame de petróleo, eu poderia abrir uma pequena loja”, espera. Tudo o resto teria pouco futuro em Bodo.
Foto: Katrin Gänsler
Pescadores para sempre
Apesar de ser quase impossível viver da pesca, os barcos de pesca de Bodo são bem preservados. Quando voltarão a poder ser usados como antigamente não se sabe bem. As Nações Unidas estimam que irá demorar entre 25 e 30 anos até Ogoniland ficar limpa do petróleo.