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Dependência de drogas: Estender a mão a quem ficou para trás

Sara Arnaud
20 de maio de 2026

O consumo de drogas está a crescer em Moçambique. Maputo concentra o maior número de casos, mas o consumo estende-se a várias outras regiões. No terreno, há quem tente mudar a forma como o problema é enfrentado.

Substâncias narcóticas e utensílios para a preparação de drogas em cima de uma mesa de madeira
Imagem ilustrativaFoto: Mykhailo Polenok/PantherMedia/Imago Images

Como sair da dependência das drogas? Muitas vezes, a sociedade vira as costas a toxicodependentes que precisam de apoio. Mas a UNIDOS - Rede Nacional de Redução de Danos estende-lhes a mão. E fá-lo também com a ajuda de quem conhece bem essa realidade: antigos consumidores que hoje acompanham outros no caminho da recuperação - com proximidade, escuta e confiança, como explica o gestor de programas, Cídio Generoso.

"O estigma é um grande problema que cria barreiras no acesso aos serviços de saúde. Muitas pessoas preferem esconder-se para evitar discriminação. Os educadores de pares facilitam essa aproximação e permitem que os serviços cheguem efetivamente à comunidade. São pessoas que já passaram por esta situação, sabem como abordar os seus pares e ajudam-nos a identificar novos pontos de consumo e novos beneficiários", afirma. 

Só em 2025, mais de 32 mil pessoas foram atendidas nas unidades sanitárias com perturbações mentais e comportamentais associadas a toxicodependência. A organização UNIDOS trabalha diretamente com pessoas que usam drogas desde 2006 e aposta numa abordagem de proximidade. Em vez de esperar que os beneficiários procurem ajuda, as equipas deslocam-se aos locais de consumo, conhecidos como "hotspots", para garantir acompanhamento de saúde e apoio social.

"Um espaço livre de estigma e discriminação"

Nos centros comunitários da organização, espalhados pelo país, o primeiro passo é acolher a pessoa e fazer uma avaliação completa da sua saúde física e emocional. Há cuidados médicos, apoio psicológico, acompanhamento social, tudo no mesmo espaço, pensado para receber sem julgamento. 

"A dependência é uma doença crónica e precisa de serviços especializados. Então, temos este centro a funcionar como uma espécie de paragem única. Lá podem ser oferecidos vários serviços, como testagem de HIV, rastreio da tuberculose, tratamento de feridas, apoio psicológico e assistência social direcionada tanto ao beneficiário como às famílias", salienta o gestor de programas.   

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O envolvimento familiar é, aliás, uma parte importante do processo de recuperação. Segundo a organização, muitas vezes são os próprios familiares os primeiros a procurar ajuda. "Dificilmente a pessoa que usa droga procura ajuda logo à primeira. Normalmente são familiares preocupados que nos contactam, porque não sabem como lidar com o comportamento do seu parente," sublinha.

Da criminalidade à saúde pública  

Mas fora destes espaços, a realidade é mais dura. A toxicodependência continua muitas vezes associada ao crime, ao medo e ao preconceito, e isso empurra mais pessoas para o silêncio. A recuperação e a reinserção tornam-se ainda mais difíceis.

Para Cídio Generoso, combater o problema passa também por mudar mentalidades: "Ainda é um problema pouco compreendido pela sociedade moçambicana. Muitas vezes, o utilizador de drogas é visto como criminoso ou como alguém que se comporta assim porque quer. Falta informação concreta sobre o que é a adição", evidencia o gestor de programas da UNIDOS. 

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"É preciso mobilizar toda a sociedade, provedores de saúde, parlamentares e o próprio governo, para tratarmos a toxicodependência como um verdadeiro problema de saúde pública, porque continua a ser um tabu em Moçambique", apela.

Combater a dependência através da dignidade

Para a UNIDOS, reduzir danos não significa ignorar os riscos associados ao consumo de drogas, mas reconhecer a complexidade do fenómeno e criar caminhos possíveis para a recuperação. 

"É preciso tratar este assunto com muita responsabilidade. Estamos a falar de um grupo altamente marginalizado e discriminado. Enquanto não mudarmos o nosso comportamento enquanto sociedade, o problema vai agravar-se. É um problema real e precisamos assumir isso. Este é o nosso grito de apelo enquanto UNIDOS", explica.

E é nesse vazio de compreensão que a organização insiste em estar presente. Todos os dias, no terreno, as equipas da UNIDOS continuam a tentar reconstruir o que o consumo e o estigma muitas vezes destroem, com dignidade, respeito e proximidade.

"No final do dia, queremos assegurar que a pessoa que usa droga esteja saudável, conheça os seus direitos e seja tratada com respeito pela sua saúde e pelos seus direitos humanos", salienta Cídio Generoso. 

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