Sete funcionários do Conselho Municipal da Cidade de Nampula estarão alegadamente envolvidos num esquema de desvio de mais de 2 milhões de meticais (o equivalente a mais de 29 mil euros). Familiares falam de injustiça.
Foto: DW/S.Lutxeque
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A detenção aconteceu esta quarta-feira (25.01) a mando do Gabinete Provincial de Combate a Corrupção. Os sete funcionários trabalham no Balcão de Atendimento Único (BAU), no setor de contabilidade e finanças. Entre eles está o vereador das finanças e urbanização, Momade Rachad, que ocupa o cargo há menos de um ano.
Segundo Francisco Bauque, porta-voz da instituição, a detenção resulta de uma denúncia feita pela própria edilidade, em finais do ano passado.
Foto: DW/S.Lutxeque
"Alguns funcionários estavam a desviar avultadas somas de dinheiro, socorrendo-se a esquemas de falsificação das cadernetas, avisos de multas, dos balancetes e, por via disso, aproveitavam-se dos próprios valores”, explicou Bauque. No âmbito das investigações, acrescentou, "comprovou-se que cerca de 2,95 milhões de meticais foram desviados”.
Os factos tiveram lugar entre finais de 2014 e dezembro do ano passado. Há um total de 11 funcionários envolvidos. Quatro estão foragidos e são procurados pelo Gabinete de Combate a Corrupção de Nampula.
Familiares dizem não haver provas
26.01.17 Funcionários detidos Nampula - MP3-Mono
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Os familiares dos suspeitos de desvio de fundos estranham o caso e lamentam a atitude das autoridades. Falam de injustiça e pedem a libertação imediata.
‘'Os nossos filhos estão presos, são inocentes. É um problema que aconteceu há anos atrás, quando houve roubo no BAU Municipal. Os gatunos estão, neste momento, em casa sentados e outros estão a trabalhar e a dar dinheiro ao senhor Amurane [edil] para comprar casa em Portugal [onde vive a sua família desde o ano passado]”, acusa Luísa Marrovissa, familiar de um dos detidos.
Abdu Cadre diz que o preocupa é também o facto de muitos dos detidos terem chegado recentemente à instituição, como aconteceu com o irmão,o vereador Momade Rachad,
Mahamudo Amurane, presidente do Conselho Municipal da Cidade de NampulaFoto: DW/Nelson Carvalho Miguel
"E depois o que está a acontecer é mais grave. Diretamente do gabinete anticorrupção são levados para a cadeia civil. Não há nenhum processo aqui? E onde estão as provas? Os miúdos estão a chorar e a dizer que nem sabem o que esta acontecer ", afirma.
A DW - África não conseguiu falar com o advogado dos funcionários detidos. O causídico, a pedido dos familiares dos detidos, vai ser substituído por um outro para flexibilizar o processo, uma vez que o atual é apontado como moroso.
Tolerância zero
No final do mês passado, o presidente do Conselho Municipal da Cidade de Nampula, que já tinha algumas suspeitas, deixava um alerta aos funcionários: "se situações de fraudes continuarem, como temos vindo a constatar, vamos continuar a expulsar todo o indivíduo que se apresentar nessa linha de corrupção”. Segundo Mahamudo Amurane, do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), o compromisso " é de combater a corrupção, portanto tolerância zero”.
Sancionar os corruptos
Após a votação pública dos 15 casos "mais simbólicos de grande corrupção", a ONG Transparência Internacional selecionou e anunciou esta quarta-feira (10.02) os 9 casos que passaram para a "Fase de Sanção Social".
Foto: picture alliance / AP Photo
Isabel dos Santos
Depois da votação pública dos 15 casos "mais simbólicos de grande corrupção" da Transparência Internacional, 9 casos foram destacados pela organização. A filha mais velha do Presidente angolano não faz parte, apesar dos 1418 votos. Segundo a TI, a seleção dos 9 foi baseada não só nos votos, mas também no impacto nos direitos humanos e na necessidade de destacar o lado menos visível da corrupção.
Foto: Nélio dos Santos
Teodoro Nguema Obiang
Conhecido pelo seu estilo de vida luxuoso, o filho do Presidente da Guiné Equatorial é, desde 2012, o segundo Vice-Presidente da República. A Guiné Equatorial é o país mais rico de África, per capita, apesar do Banco Mundial alegar que mais de 75% da população vive na pobreza. Teodoro somou apenas 82 votos e - como Isabel dos Santos - não foi nomeado para a fase de sanção social.
Foto: DW/R. Graça
Banco Espírito Santo
As suspeitas de corrupção do BES (Banco Espírito Santo) começaram quando o grupo financeiro português entrou em bancarrota em 2014. Foram descobertas fortes evidências de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro. Ricardo Salgado, ex-presidente do BES, já esteve preso e foi recentemente libertado sob fiança. O BES somou 193 votos e também não passou aos 9 maiores casos de grande corrupção do mundo.
Foto: DW/J. Carlos
Mohamed Hosni Mubarak
Presidente do Egito entre 1981 e 2011, Mohamed Hosni Mubarak somou 207 votos e encontra-se agora preso. Mesmo assim, não aparece na lista dos casos de grande corrupção que a Transparência Internacional quer sancionar socialmente. Também o comércio de jade do Myanmar e a China Communication Construction Company ficaram de fora com 47 e 43 votos, respetivamente.
Foto: picture-alliance/AP
Transparência Internacional
"Unmask the Corrupt" é um projeto da Transparência Internacional que após receber 383 submissões, nomeou os 15 casos mais simbólicos de corrupção. Após receberem mais de 170 mil votos, reduziram os 15 para 9 casos. A Transparency International quer promover uma campanha mundial para aplicar sanções sociais e políticas nestes exemplos de corrupção. A DW África mostra-lhe os 9 casos nomeados.
Estado americano de Delaware
O Estado norte-americano de Delaware está entre os 9 casos mais simbólicos de corrupção. O jornal The New York Times chegou mesmo a apelidar o Estado como "paraíso fiscal corporativo" pela possibilidades que oferece às empresas. Somou 107 votos. "Está na hora da justiça e das pessoas mostrarem o poder das multidões", afirmou em comunicado de imprensa José Ugaz da Transparência Internacional.
Foto: Getty Images/M. Makela
Zine al-Abidine Ben Ali
Com 152 votos está o ex-Presidente da Tunísia, que governou entre 1987 e 2011. É acusado de roubar mais de dois mil milhões de euros à população tunisina e de beneficiar amigos e companheiros a escapar à justiça. É conhecido pelo seu estilo de vida extravagante e saiu do Governo em 2011, na sequência de protestos nas ruas da Tunísia conhecidos como a Revolução de Jasmim ou Primavera Árabe.
Foto: picture-alliance/dpa
Fundação Akhmad Kadyrov
A Fundação Akhmad Kadyrov tem como fim o desenvolvimento social e económico da Chechénia. Mas é acusada de gastar as verbas a entreter e oferecer presentes a estrelas de Hollywood e para o benefício de Ramzan Kadyrov (na foto), presidente da região russa da Chechénia e filho do falecido Akhmad Kadyrov. Segundo a TI, Ramzan Kadyrov usou as verbas para comprar jogadores de futebol. Reuniu 194 votos.
Foto: imago/ITAR-TASS/Y. Afonina
Sistema político do Líbano
Com 606 votos, o sistema político no Líbano, nomeadamante o Governo, as autoridades e as instituições, encontram-se também na lista da Transparência Internacional. Segundo a filial libanesa da TI, a corrupção encontra-se em todos setores sociais e governamentais, existindo "uma cultura de corrupção" no país. Considera o Líbano um país "muito fraco" em termos de integridade.
Foto: picture-alliance/dpa
FIFA - Federação Internacional de Futebol
A Federação Internacional de Futebol, mais conhecida como FIFA, é acusada de ultrajar milhões de fãs. Os respoonsáveis pelos cargos mais elevados são acusados de roubar milhões de euros e estão a ser analisados 81 casos suspeitos de branqueamento de capitais um pouco por todo o mundo. Há suspeitas que várias eleições de países anfitriões de mundiais de futebol foram manipuladaa. Conta 1844 votos.
O senador da República Dominicana conta 9786 votações. Foi acusado de branqueamento de capitais, abuso de poder, prevaricação e enriquecimento ilícito no valor de vários milhões de dólares. Bautista já esteve em tribunal, mas nunca foi considerado culpado, o que originou vários protestos por parte da população dominicana.
Foto: unmaskthecorrupt.org
Ricardo Martinelli e companheiros
É ex-Presidente do Panamá e empresário. Ricardo Martinelli terminou com 10166 votos e possui atualmente uma rede de supermercados no país, entre outras empresas. Está envolvido numa polémica de espionagem política durante o seu mandato entre 2009 e 2014, utilizando alegadamente dinheiros públicos. Tem outras acusações em tribunal, incluindo vários crimes financeiros e subornos e perdões ilegais.
Foto: Getty Images/AFP/J. Ordone
Petrobras
A petrolífera Petrobras, empresa semi-estatal brasileira, ficou em segundo lugar com 11900 votos. As acusações de subornos, comissões e lavagens de dinheiro de mais de dois mil milhões de euros, conduziram, alegadamente, o Brasil a uma profunda crise política. O caso envolve mais de 50 políticos e 18 empresas. A população brasileira já protestou várias vezes nas ruas para exigir justiça.
Foto: picture alliance/CITYPRESS 24
Viktor Yanukovych
O ex-Presidente da Ucrânia foi o mais votado. Acumulou 13210 acusações e é acusado de "deixar escapar" milhões de ativos estatais em mãos privadas e de ter fugido para a Rússia antes de ser acusado de peculato. Yanukovych começou o seu mandato em 2010, foi reeleito em 2012 e cessou as suas funções no ano de 2014, quando foi destituído após vários protestos populares.