Dias e Guambe: "Não há vontade para resolver este caso"
20 de outubro de 2026
Em entrevista à DW, Wilker Dias considera que continuam por esclarecer vários aspetos da investigação dos homicídios de Elvino Dias e Paulo Guambe, ocorridos há dois anos em Moçambique.
O diretor executivo da plataforma Decide cita como exemplo os resultados de exames balísticos, a utilização de imagens de videovigilância e elementos que sustentam algumas das hipóteses avançadas pelas autoridades. Wilker Dias afirma que o caso não teve desfecho "porque isso não é da apetência dos principais detentores do poder em Moçambique".
DW África: Dois anos após o assassinato de Elvino Dias e Paulo Guambe, como é que a plataforma Decide avalia a investigação das autoridades?
Wilker Dias (WD): Muitos moçambicanos pedem justiça relativamente ao caso. [Mas] há falta de coerência por parte das autoridades locais. Basta olhar para a polícia de proteção e de investigação, que, numa primeira fase, falaram de crimes passionais. Depois, apareceu o Procurador-Geral da República a afirmar que um ex-detento [estaria envolvido nas mortes].
Portanto, a perceção geral é que este é mais um caso que envolve pessoas ligadas à oposição e à sociedade civil que acaba não tendo desfecho, porque isso não é da apetência dos principais detentores do poder em Moçambique. E isso eleva as especulações de [possível] associação daqueles que detêm o poder em Moçambique.
DW África: Referiu há pouco as alegações de motivações passionais. Tendo em conta o contexto em que os assassinatos aconteceram, considera, portanto, que motivações políticas não devem ser descartadas?
WD: Tudo indica isso, porque sabemos que Elvino Dias estava à frente do dossier das eleições de um dos candidatos mais bem posicionados na corrida à Presidência da República, neste caso concreto Venâncio Mondlane. As razões passionais nunca chegaram a ser comprovadas.
E em nenhum momento se apresentou evidências quanto a uma possível questão de negócios, a que o procurador também fez menção. O facto [dos assassinatos terem] ocorrido no período de pico de atenção à tensão política antes das manifestações propriamente ditas, na rua, também acaba elevando ainda mais [a possibilidade] de haver razões políticas por detrás deste crime.
DW África: Em relação à investigação, a plataforma Decide também levanta a questão da análise de imagens de videovigilância que existem nas proximidades do local do atentado. Do que se trata em concreto?
WD: Sim, praticamente a 300 metros do local do crime, está a Embaixada da Rússia, que tem câmaras ligadas 24 horas por dia. Um pouco mais à frente, a mais uns 300 metros, há uma instituição bancária, que também tem câmaras ligadas por conta do funcionamento das ATM. Praticamente toda aquela zona é monitorizada por câmaras e não se justifica que, até agora, não haja desfecho destes casos, com estes materiais disponíveis.
E há outra questão: Para que serve este laboratório de análise balística, de que tanto o país se orgulha? Porque, em nenhum momento, nós verificámos resultados. Tudo isso leva-nos a crer que não há vontade política para resolver este caso. Porque sabemos muito bem que a separação de poderes em Moçambique existe no papel, mas na prática a realidade é completamente diferente.