A redação Português para África da DW está de luto. Faleceu na noite de quarta-feira (12.03), aos 37 anos, o jornalista moçambicano Luciano da Conceição, vítima de doença.
Luciano da Conceiçao iniciou a sua colaboração com a DW no ano de 2016Foto: Privat
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De acordo com familiares, o jornalista Luciano da Conceição passou mal durante a noite de quarta-feira (12.03) e foi levado ao Hospital Rural de Chicuque, na cidade de Maxixe, onde acabou por não resistir. Morreu aos 37 anos de idade.
A notícia de sua morte foi recebida com profunda tristeza pela equipe da DW. O chefe da redação Português para África, Marcio Pessôa, lamentou a perda de um profissional dedicado. "Estamos todos de luto e bastante consternados. Luciano era um repórter genuíno, de apuração de campo e de imenso valor na nossa equipa," declarou.
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"Vigilante, dedicado e destemido"
Marcio Pessôa resumiu as habilidades do repórter descrevendo-o como "vigilante, dedicado e destemido, que combateu injustiças de qualquer espécie através do jornalismo."
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"Era uma voz que o povo moçambicano tinha contra os abusos sofridos diariamente. Durante anos, contribuiu significativamente para que a DW cumprisse seu papel como mídia independente no país. Estamos muito tristes," afirmou.
Na África, os seus colegas de trabalho estão desolados com a partida de um jornalista tão querido e demasiado jovem.
Sitoi Lutxeque, correspondente da DW em Nampula, destacou o papel essencial de Luciano na defesa da liberdade de imprensa na região.
Os colegas descrevem Luciano da Conceição como um profissional que dedicou a sua vida ao jornalismo investigativo, sobretudo à denúncia e combate à corrupção e injustiças.
De Cabo Verde, Ângelo Semedo, correspondente da DW na Cidade da Praia, manifestou pesar e solidariedade à família do jornalista.
"'Cabo Verde' era como ele me chamava. Nunca estivemos juntos presencialmente, mas nosso trabalho e a língua portuguesa uniram-nos como irmãos. Deixo um abraço de consolo à sua família, especialmente aos seus quatro filhos. Sei que estão a viver um momento difícil," disse Semedo.
Moçambique: De barco à vela para a ilha de Inhambane
Os habitantes da ilha de Inhambane deslocam-se de barco à vela para as principais cidades continentais para vender e comprar produtos locais. Para enfrentar os dias de mar revolto, pedem ao Governo um barco a motor.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Apenas três dias por semana
Os únicos cinco barcos à vela privados que ligam o continente à Ilha de Inhambane só trabalham três vezes por semana: às segundas, quartas e sextas-feiras. Nesses dias, os habitantes locais transportam marisco para poderem ganhar dinheiro na cidade de Maxixe e são obrigados a pernoitar em casas de familiares ou amigos para regressar no dia seguinte.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Um euro para transporte
A maioria das pessoas que fazem a travessia três vezes por semana são mulheres. Muitas optam por viajar com os maridos, devido à necessidade de dormirem uma noite em Maxixe. O preço de ida e volta ronda um euro. Apesar de não ser elevado, os residentes locais pedem ao Governo que disponibilize um barco a motor para poder fazer as ligações nos dias de mau tempo.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Sem alternativas
Na ilha de Inhambane não existem lojas para grande comércio. Quando querem fazer compras, os locais deslocam-se à cidade de Maxixe. Os custos de transporte variam consoante a carga da mercadoria.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Também falta água na ilha
Amélia Rungo vive da venda de marisco seco em Maxixe. Viaja duas vezes por semana, porque o marido, que é pescador, nem sempre consegue produto suficiente para que a mulher o possa comercializar. Para ela, viver na ilha é melhor que viver no continente. Só lamenta a falta de transporte digno e de água, pelo que pede ao Governo a construção de um sistema de abastecimento de água potável.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Amêijoa seca, uma iguaria local
A Ilha de Inhambane é tida como o principal produtor de amêijoa, um dos ingredientes essenciais no caril de amendoim ou mesmo para confecionar a matapa, um prato feito à base de folha de mandioca. Vinte quilos desta iguaria custam dez euros. Ainda assim, as alterações climáticas dos últimos anos têm afastado este molusco da costa da ilha.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Revender para sustentar a família
Assim que as peixeiras desembarcam na costa continental, são procuradas por potenciais clientes. O camarão fino é outro dos produtos mais procurados. Vinte quilos podem custar cerca de vinte euros. Depois de despacharem a mercadoria, estas mulheres procuram abastecer-se de bens nas lojas do centro da cidade, que depois são revendidos na ilha.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Troca por troca
Flora Firmize também é residente na Ilha de Inhambane e vive do comércio de peixe seco nas cidades de Maxixe e Inhambane. O pescado é adquirido pelo marido que é pescador. "Venho vender peixe aqui em Maxixe, sendo que às vezes troco-o com outros produtos como por exemplo sal, açúcar, arroz e óleo para poder comer em casa com os meus filhos", conta. "Na ilha não temos outra alternativa", conclui.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Falta de turistas
Dinis Paulo é residente na Ilha de Inhambane desde que nasceu, há 54 anos. Não teve oportunidade de estudar e vive da pesca e do transporte de passageiros. Apesar de ser um dos poucos habitantes locais que possui barco, não tem conseguido fazer dinheiro com os transportes devido à falta de turistas na sequência da pandemia de Covid-19.
Foto: Luciano da Conceição/DW
500 euros por um barco
As alterações climáticas têm sido um dos principais entraves a esta rota marítima que é percorrida sobretudo por quem vive do comércio de peixe e marisco. O ciclone Dineo destruiu grande parte dos barcos disponíveis. Uma embarcação, feita por especialistas em madeira, chega a custar 500 euros, uma quantia que para ser reunida exige vários meses de trabalho.
Foto: Luciano da Conceição/DW
Cuidado com a pegada
Para visitar a Ilha de Inhambane, tem de se avisar as autoridades locais. Depois, é preciso arranjar "bilhete". Para isso, deve contactar-se os proprietários dos barcos para saber se existe transporte. Outro facto interessante: como são poucos habitantes, consta que na ilha todos se conhecem pelas pegadas. Se entrar um turista, os habitantes locais saberão reconhecer a presença de estranhos.
Foto: Luciano da Conceição/DW
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Defensor da Liberdade de Imprensa
Tomás Júnior, do Instituto de Comunicação Social da África Austral (MISA Moçambique), destacou o impacto de Luciano na comunicação social moçambicana. "Era apaixonado pela comunicação e criou o seu próprio canal, a Âncora TV, que tem dado voz a diversas regiões de Moçambique," afirmou.
O Sindicato Nacional de Jornalistas de Moçambique também lamentou a perda: "Que a alma de Luciano da Conceição descanse em paz", declarou a entidade em comunicado.
Correspondente da DW desde 2016, Luciano da Conceição atuou em diversas redações moçambicanas, incluindo a Televisão Independente de Moçambique (TVM) e o semanário Canal de Moçambique.
Ao longo deste artigo, relembramos coberturas feitas pelo jornalista que também se dedicou a reportar sobre o que a província de Inhambane tem de mais belo e positivo. A sua última reportagem para a DW foi emitida no passado dia 21 de fevereiro e questionava a transferência compulsiva de professores que se manifestaram pelo pagamento de horas extraordinárias e do décimo terceiro salário.
Até ao momento de sua morte, investigava o assassinato de dois apoiantes do projeto político de Venâncio Mondlane no distrito da Massinga.
O jornalista Luciano da Conceição deixa quatro filhos e um legado de coragem e compromisso com a verdade.
Os coqueiros de Inhambane
O coqueiro é muito usado na província de Inhambane, no sul de Moçambique. Seja na construção de casas, salas de aulas, estâncias turísticas e até na gastronomia, esta palmeira garante o sustento de muitas famílias.
Foto: DW/L. da Conceição
"A vida começa assim"
O coqueiro dá novos horizontes principalmente aos jovens que não têm oportunidades de emprego depois de formados. Eles dedicam-se à construção de barracas (casas típicas da região) suportadas pelas ripas de madeira proveniente do coqueiro, cujas folhas são aproveitadas também para vedação dos quintais. As pessoas que vivem nestas condições habitacionais dizem que "a vida começa assim".
Foto: DW/L. da Conceição
Baixa produção
Inhambane chegou a transportar cerca de 1.500 toneladas de derivados de coco, mas nos últimos 10 anos as rendas baixaram e as plantações de coqueiro foram afetadas por pragas. Os cidadãos são prejudicados pelo encerramento de fábricas que tinham como matéria-prima aqueles derivados. O silêncio do Governo preocupa o conselho empresarial, que apela para o uso sustentável dos coqueiros.
Foto: DW/L. da Conceição
Água de coco
É um cartão de visita na região. Composta por vitaminas e sais minerais ricos em benefícios para a saúde, que vão da hidratação à prevenção de doenças, a água de coco é comercializada nos centros das cidades por mulheres oriundas dos subúrbios. Nas praias, é um excelente negócio para adolescentes e jovens. Os vendedores dizem que conseguem um rendimento médio de 10 euros por dia.
Foto: DW/L. da Conceição
De Inhambane a Maputo
José Alfredo, comerciante de coco desde a década 90 em Inhambane, mudou a rota do seu negócio ao Lourenço Marques, hoje Maputo (capital de Moçambique), para conseguir mais lucros. Conseguiu construir duas casas com material convencional e tem algumas cabeças de gado. E ele afirma que os seus filhos nunca deixaram de frequentar a escola.
Foto: DW/L. da Conceição
Fábricas de sabão e óleo
A província de Inhambane tem fábricas para o beneficiamento do coco, empregando cidadãos locais e alguns estrangeiros. Mas, os agricultores reclamam do preço baixo para a venda dos derivados de coco, que são exportados para países da África Austral, Europa, América e Ásia. Nos últimos cinco anos, quatro fábricas já fecharam as portas por falta de matéria-prima.
Foto: DW/L. da Conceição
"Vivo na casa de coqueiro"
Uma frase que todo visitante escuta dos residentes de Inhambane, principalmente os cidadãos com baixo poder aquisitivo. Essa casa alberga cinco pessoas num dos bairros suburbanos. Como forma de proteger a terra, tem-se emprestado o espaço para habitação, mas não se pode construir com material convencional.
Foto: DW/L. da Conceição
"Não tive outra escolha"
Zaqueu Guiamba, jovem que trabalha numa das serrações de madeira na região sul de Moçambique, diz que não teve "outra escolha" depois de concluir o ensino médio. Casado e pai de dois filhos, com este trabalho ele tem rendimento médio de 3 euros por dia - o que dificulta o seu futuro. Zaqueu ainda está de olho em novas oportunidades.
Foto: DW/L. da Conceição
Capela de coqueiro
Principalmente nas zonas rurais, onde muitos grupos religiosos professam cultos, as estacas, ripas, barrotes, madeira e macuti são usados para a construção. O custo do material é muito barato e os próprios fiéis são responsáveis nas reabilitações.
Foto: DW/L. da Conceição
Sura, a bebida do coqueiro
Sura é um líquido extraído das palmeiras e que dá origem a uma bebida alcoólica tradicional na região. Ele também é o ingrediente de bolinhos e pães de sura, que são vendidos nas paragens dos auto-carros. Muitas pessoas, principalmente mulheres, sobrevivem com este negócio. Visitantes desta região sempre provam a iguaria. Uma tradição antiga preservada pelo povo.
Foto: DW/L. da Conceição
Escassez de coco nos mercados
O preço do coco duplicou nos últimos anos e as vendedoras dizem que é devido ao abate constante dos coqueiros, que afeta a sua produção e, consequentemente, os negócios de quem vive desta palmeira. E os clientes reclamam da qualidade do coco, muito utilizado na gastronomia típica da região.
Foto: DW/L. da Conceição
Atração turística
Os coqueiros também servem o tursimo de Inhambane. Várias estâncias turísticas são construídas com as matérias provenientes do coqueiro, principalmente os troncos e as folhas, que são usadas para forrar o telhado.
Foto: DW/L. da Conceição
Bom negócio
Romao Wacela dedica-se ao negócio do tronco de coqueiro há mais de 10 anos na cidade de Maxixe. Ele vende tábuas para porta, barrotes, ripas e prancha. Por dia consegue arrecadar cerca de 10 euros e diz que "coqueiro dá bom negócio". O comerciante sustenta a sua família e ainda tem projetos em carteira para utilizar o coqueiro mesmo sabendo que não está fácil encontrá-lo para o abate.
Foto: DW/L. da Conceição
Indústrias encerradas
A falta de políticas para a produção do coco e a sua reposição levou o encerramento de algumas fabricas que operavam apenas com o material fornecido pelo coqueiro. Esta indústria pertence a um grupo de investidores sul-africanos, mas não funciona há mais de um ano, deixando dezenas de cidadãos sem emprego.