Existe o risco de uma intervenção militar dos EUA no Mali?
7 de agosto de 2026
Há anos que o Mali luta contra a violência jihadista em expansão, mas os sucessos duradouros continuam a fazer-se esperar.
Após a retirada das tropas francesas e apesar da estreita cooperação com a Rússia, a Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), ligada à Al-Qaeda, continua a expandir a sua influência. Agora, um novo interveniente poderá entrar no conflito: os Estados Unidos.
A JNIM foi fundada em 2017 e reúne vários grupos islamistas sob a bandeira da Al-Qaeda. Nos últimos anos, a organização tornou-se a força jihadista mais poderosa do Sahel, tendo como objetivo a instauração de um regime islamista e a eliminação das estruturas estatais, bem como das influências ocidentais.
"Já não estamos a falar de um grupo que comete ataques isolados", explica Tobias Rüttershof, diretor do Programa do Sahel da Fundação Konrad Adenauer (KAS). "A JNIM controla de facto a situação de segurança em muitas regiões, cobra impostos, medeia conflitos locais e, em algumas áreas, tem uma presença mais forte do que o próprio Estado maliano", disse à DW.
Por que razão EUA poderiam agir agora?
Segundo dados do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, a JNIM foi responsável por mais de 1.200 mortes em 2025, tornando-se assim o segundo grupo terrorista mais mortífero do mundo. Particularmente preocupante é a expansão geográfica do grupo, que agora também está ativo no Burkina Faso, no Níger e, cada vez mais, nos países costeiros da África Ocidental.
O Governo dos EUA está dividido quanto à realização de ataques militares diretos. Defensores desta medida, como Sebastian Gorka, diretor-adjunto para a luta contra o terrorismo no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, argumentam que o JNIM é uma das organizações jihadistas mais perigosas do mundo e que o seu avanço tem de ser travado.
A estratégia de segurança da Rússia no Mali também não tem tido sucesso até ao momento, segundo Rüttershof: "Após a retirada das forças armadas francesas, da missão da ONU MINUSMA e das missões europeias de formação, o governo militar maliano argumentou que a Rússia poderia estabilizar a situação de segurança de forma mais eficaz. Esta expectativa ainda não se concretizou. Pelo contrário, o JNIM parece hoje estar mais forte do que há alguns anos."
Após os golpes militares de 2020 e 2021, Bamako afastou-se cada vez mais dos parceiros ocidentais e reforçou a cooperação com a Rússia.
Mali aposta na soberania
O Governo do Mali reage com cautela às notícias sobre possíveis ataques dos EUA. "Não temos qualquer confirmação por parte dos Estados Unidos. Mas posso garantir que o Mali não vai ficar de braços cruzados à espera que outros venham resolver o nosso problema", salientou ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdoulaye Diop.
O Mali aposta nas suas próprias forças de segurança e na defesa da sua soberania. Também entre a população as opiniões divergem."Tudo o que, em última análise, nos traga paz, e isto em todo o território nacional, é bem-vindo", disse à DW um habitante de Bamako.
Outro habitante refere a estreita cooperação com a Rússia: "Já existem forças russas presentes no nosso território e agora os americanos também querem vir. As nossas autoridades sabem melhor do que ninguém o que é bom para a população ou o que nos prejudica. Penso que a opção de uma intervenção militar americana no Mali não é má ideia."
Riscos de uma intervenção
Abdoulmoumouni Abbas, especialista em prevenção da radicalização no Sahel, adverte para que não se sobreestime o impacto dos ataques militares. Existem experiências com as operações antiterroristas apoiadas pelos EUA na Nigéria.
"Os resultados de tais missões, como as realizadas na Nigéria, dão, em muitos aspetos, motivo para reflexão. Os primeiros ataques falharam, de facto, o seu alvo no norte da Nigéria, nos estados de Sokoto e Kebbi", afirmou Abbas à DW.
Embora os ataques direcionados possam enfraquecer as estruturas de liderança do JNIM, as causas do conflito, como a pobreza, a fragilidade das instituições e as tensões étnicas, continuam a existir. Além disso, existe o risco de ataques de retaliação contra os interesses ocidentais na região.
"A situação torna-se problemática quando as medidas militares causam vítimas civis. Qualquer erro que afete civis pode ser explorado pelo JNIM para fins de propaganda e servir para recrutar novos membros", afirma Rüttershof. Em 2025, o grupo levou a cabo um bloqueio de vários meses a importantes transportes de combustível com destino a Bamako e, em 2026, esteve envolvido em ataques coordenados a instalações militares em várias regiões do Mali.
Importância geopolítica do Mali para os EUA
Uma intervenção dos EUA teria repercussões não só em termos de política de segurança, mas também geopolíticas. O Sahel tornou-se um palco de rivalidade internacional. A Rússia tem vindo a expandir consideravelmente a sua influência no Mali, no Burkina Faso e no Níger nos últimos anos.
"Se Washington vier realmente a agir militarmente, tal não seria apenas uma luta contra o terrorismo, mas também um sinal de que os EUA pretendem continuar a ter capacidade de ação no domínio da segurança", afirmou Rüttershof.
Para o governo do Mali, a questão seria saber como podem navegar entre os interesses de atores externos sem perderem a sua própria capacidade de ação política. "O que esperamos de um parceiro é que venha ao Mali e pergunte ao Mali o que precisa", sublinhou o ministro dos Negócios Estrangeiros do país.
Solução a longo prazo para o conflito
Rüttershof adverte que o conflito no Mali não pode ser resolvido de forma duradoura por meios militares. "A JNIM aproveita-se do descontentamento existente. Isso não significa necessariamente que a população partilhe a sua ideologia, mas muitas pessoas optam, por razões pragmáticas, pelos atores que conseguem, de alguma forma, estabelecer alguma ordem", explica.
Por isso, a luta contra o terrorismo requer também a consolidação do Estado, a boa governação e o desenvolvimento económico.
Ainda não se sabe se os EUA irão efetivamente levar a cabo ataques militares contra o JNIM no Mali. Caso o Presidente Donald Trump dê luz verde, o Mali seria já o oitavo país onde os EUA realizariam ataques militares desde o início do seu segundo mandato.