Fraudes com criptomoedas lesam famílias em Cabo Verde
12 de janeiro de 2026
Nos últimos tempos, a plataforma conhecida por WS tornou-se vulgar no país e tem comprometido famílias inteiras que venderam animais, parcelas de terreno e até se endividaram no banco para investir quantias em dinheiro, sob alegada vantagem de multiplicação ou triplicação em tempo record, ficando muitas vezes sem absolutamente nada.
A situação tem gerado polémica e inquietado as autoridades, que alertam para os riscos e consequências legais para quem entra neste jogo.
Esquema WS
Não podem ser tocadas, vistas ou colocadas no bolso. São um tipo de moeda que dispensa instituições financeiras como intermediárias. Parecem ser de outro mundo, pois são do mundo virtual. Chamam-se criptomoedas ou moedas digitais.
Nestes últimos anos, segundo as nossas fontes, a plataforma WS, também conhecida como "pirâmide da ilusão”, introduziu o esquema de criptomoedas em Cabo Verde, atraindo muitos curiosos que embarcaram num sistema de fraude. Muitos investiram tudo o que tinham e não tinham para tirarem lucros multiplicados ou triplicados em poucas semanas, como explica à DW o especialista em Sistemas anti-fraude financeiro, Denis Rodrigues.
"De facto tem sido muito explorado, porque era uma terra de ninguém e muito profícuo para as redes criminosas. Eu acredito que neste momento as pessoas em Cabo Verde estão à procura de alternativas para aplicarem as suas poupanças fora do mercado tradicional, mas têm de estar reguladas. O que nós estamos a assistir neste momento em Cabo Verde, segundo alerta do Banco de Cabo Verde e da Polícia Nacional, é um mau uso, ou seja pessoas que estão a ser ludibriadas com taxas atrativas, e que vão ganhando dinheiro, mas têm de ter noção", disse Denis Rodrigues.
"Oferta milagrosa" e sem retorno
A proposta surge como uma espécie de "oferta milagrosa" para questões financeiras. Por isso, muitos viram-na como uma saída para driblarem a pobreza e resolverem diversos problemas.
O taxista Igor Mendes é uma das muitas vítimas desta plataforma, que opera no país desde 2021. Influenciado pela presença de pessoas ditas esclarecidas, o estreante nestas andanças deixou-se facilmente enganar, levando consigo outras vítimas. "No início quando nos apresentaram o esquema parecia tão confiável que nunca poderia imaginar que era uma armadilha", conta Mendes.
"A pessoa que me convenceu já estava há muito tempo no jogo e estavam pessoas que aparentavam ter estabilidade financeira, com casa própria, negócios e carros. Perguntaram-me se eu gostaria de ter um rendimento extra e parar de depender somente do meu salário e explicaram-me que eu iria ter vantagens a curto e longo prazo, até me ofereceram vaga para trabalhar como eles na plataforma e convencer outras pessoas a entrarem também, dizendo que com o dinheiro que eu ia fazer podia até deixar o meu atual emprego se eu quisesse", acrescentou.
O inesperado e inaceitável chegou quando o taxista não teve retorno, nem o dinheiro investido, nem o prometido dividendo. "Investi muito dinheiro, inicialmente disseram que se eu trabalhasse a sério teria o meu retorno e de facto consegui. Mas o que me dói até ainda é que muitas pessoas que eu trouxe para o esquema perderam o seu tempo e dinheiro. Por isso, sinto-me culpado e envergonhado por não poder devolver o dinheiro dessas outras pessoas, porque nem eu tenho mais acesso à plataforma, pois foi bloqueada há três meses", lamentou o taxista.
Pirâmide financeira e perdas avultadas
Mas afinal o que aconteceu? "Convém separar duas coisas: a narrativa que é utilizada para atrair as pessoa e como é a arquitetura desta fraude. Neste momento, o investimento em criptomoedas é meramente a narrativa de base, a justificativa para tentar vender a ideia", explica o economista Paulino Dias.
"Há dois elementos centrais para se identificar uma fraude desta natureza que é conhecida como pirâmide financeira. O primeiro elemento é que a pessoa que entra tem de entrar com algum capital, e o segundo elemento é a angariação, quem entra é incentivado a trazer novas pessoas. Mas é fácil identificar que a base desta fraude em Cabo Verde não é correta, não tem substância. Tive o cuidado de ir consultar a evolução da cotação do criptomoedas e a informação que obtive é que nos últimos meses não corresponde a nada do que se está a prometer, a duplicação do capital em dois ou três meses", destaca o ecomnomista.
Carlos Correia chegou a perder cerca de quatro mil euros neste tipo de esquema. À DW, o empresário da ilha do Fogo conta que, apesar de não ter conseguido o seu dinheiro de volta, a experiência serviu para alertar os amigos. "Em 2019 tive perda de mais de quatrocentos mil escudos e jamais entrei em esquemas do tipo. Já alertei muito dos meus amigos, mas os cabo-verdianos muitas vezes encaram conselhos como inveja dos seus projetos, mas eu já sabia de antemão que se tratavam de propostas falsas porque conheço muito bem o esquema da pirâmide", afirmou Correia.
Também Paulino Dias deixa o aviso: "O sistema continua, vai ganhando nova roupagem com esquemas para sacar dinheiro às pessoas, e quem quiser vai acreditando que vai conseguir sacar o dinheiro, mas não vai. Fiquei a saber que há pessoas de alguns setores, como por exemplo do sistema financeiro, que estão na fase de angariação. Isto é preocupante porque se há um regulador que já disse que estas entidades não estão devidamente registadas não me passa pela cabeça que haja funcionários do sistema financeiro que estejam a fazer o papel de angariadores", alertou o economista.
O Banco de Cabo Verde já alertou para os riscos de adquirir, deter ou negociar moedas virtuais, como a Bitcoin, explicando que a moeda virtual não tem nenhum registo oficial nem licenciamento para operar no mercado nacional.