Jovens de Cabo Delgado sentem-se incluídos nos projetos ligados à futura exploração de gás em Palma, mas pedem mais oportunidades de formação técnica para poderem contribuir para o sucesso das operações e do país.
Autoridades e megaprojetos, têm promovido programas de formação de mão-de-obra localFoto: Roberto Paquete/DW
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Foram retomadas, no início deste ano, as obras da plataforma de exploração de gás natural do projeto Mozambique LNG, na península de Afungi, em Palma, na província moçambicana de Cabo Delgado. Este é apenas um dos vários megaprojetos de extração de recursos naturais petrolíferos a serem implantados no norte de Moçambique.
Muitos jovens ouvidos pela DW África consideram que, nos últimos tempos, tem havido abertura de oportunidades, tanto para formações técnicas específicas do ramo petrolífero como para a integração no mercado de trabalho.
Mane Jabu, jovem residente em Pemba, capital de Cabo Delgado, não está empregado nestes projetos, mas diz notar com satisfação uma maior abertura de espaço para os jovens trabalharem nos megaprojetos, ao contrário de anos anteriores.
"Desta vez está a ser muito diferente, porque tenho visto muitos jovens, nomeadamente carpinteiros e eletricistas, a saírem para lá [em Palma, onde decorrem os trabalhos preparatórios para a exploração de gás natural liquefeito]. Digo que, se este ritmo de abertura de oportunidades de trabalho para os jovens se mantivesse por pelo menos mais um ano, teríamos uma vida diferente. Os jovens estão a ser incluídos", relata à DW.
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Jabu, que espera poder vir a integrar o grupo dos novos recrutados em Palma, acredita que a inclusão nas oportunidades de emprego nos megaprojetos poderá estimular o desenvolvimento das comunidades: "A inclusão será melhor para a nossa província, porque, com mais jovens empregados, teremos menos desemprego, o que representa um sucesso para Cabo Delgado e para o país inteiro."
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Mais formação e bolsas de estudo
As autoridades governamentais de Cabo Delgado, em conjunto com os próprios megaprojetos, têm promovido programas de formação de mão-de-obra local, proporcionando bolsas de estudo, particularmente para áreas técnicas como carpintaria, serralharia, eletricidade, mecânica e canalização. As bolsas formativas incluem também o ensino superior.
Recentemente, 38 bolsas de estudo para o ensino superior e técnico-profissional foram atribuídas a jovens da província pelo Programa de Empoderamento Pessoal e Académico (PEPA), uma iniciativa financiada pelo projeto Rovuma LNG, através da ExxonMobil Moçambique.
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Igor Camilo recebeu uma bolsa para se formar em engenharia geológica. Para ele, o objetivo é claro: quer participar na extração de recursos energéticos da sua província. "Vim adquirir conhecimento e aprender mais sobre como me posso enquadrar na exportação de petróleo e de muitos outros minerais", conta.
A iniciativa é vista pelo Governo como um passo decisivo rumo ao empoderamento económico e à preparação da mão-de-obra local para os diversos projetos de extração de recursos em Cabo Delgado.
Ainda há muito por fazer
O ativista social Feliciano Atanásio reconhece os esforços governamentais para dotar os jovens locais de ferramentas e oportunidades de acesso aos megaprojetos, mas considera que ainda há muito por fazer.
"Não seria justo dizer que os jovens não estão a ter oportunidades. Têm-nas, porque tenho visto amigos e jovens a viajarem para Palma para trabalhar em projetos subcontratados pela TotalEnergies. Alguns vão mesmo trabalhar diretamente para a TotalEnergies. Portanto, aos jovens de Cabo Delgado estão a ser dadas oportunidades", afirma.
O que falta sobretudo é abertura de portas para que os jovens já formados consigam aceder a posições de relevo ao nível das empresas extrativas, considera o ativista. "Que tipo de oportunidades são dadas a estes jovens? Será que servem, de facto, para desenvolver as suas vidas e as das suas comunidades? Não há abertura para colocar os jovens de Cabo Delgado em posições de liderança e de confiança, como, por exemplo, serem gestores. O que acho que falta é exatamente isto. Não se trata apenas de levar um jovem para ser carpinteiro ou serralheiro. Quanto às posições de liderança, quem as assume?", questiona.
Feliciano Atanásio considera que o Governo tem apostado mais na arrecadação de receitas fiscais do que, propriamente, em iniciativas que promovam e melhorem as condições de vida das populações.
Pemba: degradação em tempos de boom
Apesar do crescimento económico causado pelas descobertas de gás no norte de Moçambique, os edifícios históricos de Pemba continuam degradados. Os investimentos vão à construção de novos edifícios e não à reabilitação.
Foto: DW/E. Silvestre
Casas históricas em ruínas
Apesar do crescimento económico causado pelas descobertas de gás no norte de Moçambique, os edifícios do centro histórico de Pemba continuam degradados. Os investimentos vão à construção de novos edifícios e não à reabilitação. A degradação não poupa prédios com elevado valor histórico como esta casa, que foi na era colonial e até 1979 a residência do governador da província de Cabo Delgado.
Foto: Eleutério Silvestre
Mercado central de Pemba
O mercado localiza-se na cidade baixa da cidade desde 1940. Foi uma atração turística de Pemba, que em tempos coloniais era chamada Porto Amélia. Os números e as letras na placa por cima da fachada da entrada, resistem as intempéries naturais e ainda testemunham o quanto foi importante o mercado para os colonos portugueses.
Foto: Eleutério Silvestre
Negócio parado: as bancas do mercado
Nestas bancas simples eram expostos cereais, leguminosas e outros produtos alimentares. Antes do total abandono nos anos 2000, o mercado era frequentado por cidadãos da classe média de diferentes bairros de Pemba, atraídos pelo nível de higiene que caraterizava na exposição dos produtos. Vendia-se o melhor peixe e a melhor carne da cidade de Pemba.
Foto: Eleutério Silvestre
Abandono total: o cinema de Pemba
O cinema de Pemba, localizado na periferia da cidade baixa, era o único da cidade. Até 1990, eram projetados filmes na sala: das 14 às 16 horas os filmes para menores e das 17 às 21 horas as longas metragens para maiores de 18 anos. O cinema era ponto de encontro de cidadãos de diferentes idades de Pemba. O edifício funcionou também como ginásio de 2008 a 2012.
Foto: Eleutério Silvestre
Novas construções na vizinhança
Em vez de renovar e adaptar edifícios históricos já existentes, constroem-se novos prédios em Pemba, a capital da província moçambicana de Cabo Delgado. Este projeto do anfiteatro de Pemba é fruto de uma parceria público privada, entre o Hotel Wimbe Sun e o Conselho Municipal de Pemba. Mais um exemplo de que os investimentos vão para a construção e não para a reabilitação.
Foto: DW/E. Silvestre
Construir de raiz em vez de reabilitar
Mesmo para escritórios, que facilmente poderiam ser instalados em prédios históricos renovados, a opção preferida é construir de raiz. Assim sendo, o "boom" económico causado pela descoberta de grandes quantidades de gás na Bacia do Rovuma na província de Cabo Delgado não beneficia o centro histórico da cidade de Pemba. Este edifício é destinado para albergar uma filial bancária.
Foto: DW/E. Silvestre
Antiga delegação da Cruz Vermelha
Esta casa localiza-se na principal via de acesso à cidade baixa de Pemba. Serviu em regime de arrendamento como primeira delegação da Cruz Vermelha na província. A partir deste edifício, a Cruz Vermelha desencadeou ações humanitárias durante a guerra civil de Moçambique. Em 1999, a Cruz Vermelha de Moçambique abandonou a casa e mudou para infraestruturas próprias modernas.
Foto: Eleutério Silvestre
Armazém histórico de Pemba
Este armazém na cidade baixa faz parte dos edifícios históricos abandonados. Durante a guerra civil, serviu para o armazenamento de alimentos. Foi aqui que os residentes do bairro mais antigo de Pemba, Paquitequete, compravam produtos de primeira necessidade. Teve um papel muito importante durante a emergência de fome que assolou a população de Pemba durante a guerra civil no ano de 1980.
Foto: Eleutério Silvestre
Porto de Pemba
Quando o centro histórico está em degradação, uma das zonas mais dinámicas de Pemba é o porto. Do lado direito, as antigas instalações, do lado esquerdo a zona de ampliação destinada a carga do material da exploração do gás. O cais flutuante foi construído pela empresa francesa Bolloré. A esperança é que o boom do gás ajuda a reabilitar para além do porto também os edifícios históricos de Pemba.