Manica suspende mineração artesanal para travar poluição
13 de setembro de 2025
O aumento galopante de garimpeiros artesanais nacionais e estrangeiros no distrito de Manica, centro de Moçambique, está a poluir as águas dos rios. Em causa está o uso excessivo de mercúrio na busca do minério, um produto altamente letal para a vida humana e para o ecossistema.
Como forma de reorganizar a atividade, o governo provincial de Manica suspendeu temporariamente a exploração da atividade mineira. A prática tem contribuído para a seca dos principais rios provocando assoreamento, com destaque para a albufeira de Chicamba, a principal fonte de abastecimento de água potável na região.
A governadora de Manica, Francisca Tomás, quer ver a atividade mineira a ser explorada de forma sustentável, acompanhada de uma fiscalização periódica: "Não é ir lavar o ouro no rio. Nós temos que deixar o leito do rio à vontade e com água boa para permitir que os outros que não participam na exploração mineira possam produzir as suas culturas e também para podermos beber água potável".
"Esses químicos podem fazer mal em termos de saúde pública, por isso nós como governo providencial tomámos a decisão de que temos que interromper temporariamente para nos reorganizarmos melhor na exploração dos recursos", frisou.
O distrito de Manica é o epicentro, possuindo jazigos de ouro em abundância no país. A situação agravou-se nos últimos dias com a tomada desenfreada de garimpeiros que estão a explorar os recursos sem a observância das regras e medidas previstas no plano de maneio - uma prática aliada à fraca fiscalização do setor ambiental.
As regiões de Mukurumadzi e Penhalonga possuem rios com braços que drenam as águas no rio Révuè, mas nos últimos dias apresenta-se altamente poluído devido à exploração inadequada.
Leonardo Beissicopo, um dos garimpeiros ilegais interpelado aquando da lavagem de ouro num dos rios, disse que usa mercúrio e vários tipos de máquinas para extração:
"Antes da lavagem, vamos moer aquela areia usando um tapete que pega ouro, depois usamos mercúrio para reter o ouro. A água desce para os rios, um dos rios é esse de Mukurumadzi. Estou aqui há um bom tempo, desde que explodiu o ouro. Aqui usamos máquinas drilas, máquinas de energia, compressor para perfurarmos até explosivos", contou o garimpeiro.
Veloso Elias, outro garimpeiro, está ciente de que o químico usado quando depositado no rio é prejudicial para os seres humanos e para os animais aquáticos, mas diz não ter outra forma de fazer a exploração mineira.
"Para a lavagem de ouro, nós utilizamos só mercúrio e deitamos a água de qualquer maneira. O mercúrio apenas colocamos na bacia para conseguirmos ver o ouro", contou.
A governadora de Manica, Francisca Tomás, já pediu a colaboração dos líderes comunitários e religiosos do distrito para apertar o cerco, visando fazer valer as medidas tomadas:
"Nós estamos com uma grave situação da poluição do nosso recurso hídrico, as águas estão muito sujas, rios já secaram, a barragem de Chicamba está assoreada com água muito turva, o que mina a saúde pública", comentou. "Queremos a liderança para trabalhar continuamente na mobilização dos garimpeiros e todo aquele que participa na exploração mineira para poder garantir o controlo e fiscalização desse assoreamento dos rios e da poluição das águas", admitiu.
O ambientalista Bernardo Xavier alerta para danos nefastos à saúde pública pelo consumo da água e espécies aquáticas devido à presença de metais oxidados: "A água está bastante turva devido à mineração, é preciso que se trabalhe por forma a que a água torne a ficar limpa e os que praticam a mineração tenham que obedecer aos critérios preconizados para uma mineração sustentável".
"Muitos. por não terem alternativas. vão continuar a beber daquela água bastante turva com consequências nefastas no que tange à saúde humana. Muitas doenças poderão ocorrer nos próximos tempos. É difícil controlar os garimpeiros porque não são apenas moçambicanos, temos estrangeiros", concluiu.