Guerra com o Irão ameaça abastecimento global de energia
9 de março de 2026
O Estreito de Ormuz é, neste momento, o grande centro das preocupações. A estreita passagem marítima, entre o Irão e Omã, é uma das rotas petrolíferas mais importantes do mundo: cerca de um quinto de todo o petróleo e gás transportado por mar passa por ali diariamente.
Segundo relatos, o Irão bloqueou o Estreito após ataques dos Estados Unidos e de Israel.
O especialista do setor petrolífero Christof Rühl, consultor da Crystol Energy, explica que as consequências podem ser imediatas.
"Cerca de 19 milhões de barris por dia passam pelo Estreito de Ormuz. Apenas oito ou nove milhões poderiam ser redirecionados por oleodutos terrestres através da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidossem serem carregados em navios. O resto ficaria bloqueado", afirma.
Segundo o especialista, o maior risco é que seguradoras e armadores deixem simplesmente de usar a rota ou que o estreito seja minado, provocando explosões e bloqueios numa via marítima "muito estreita e rasa".
Algumas grandes empresas de transporte marítimo já começaram a alterar as rotas. Em vez de atravessar o Médio Oriente, certos navios estão a contornar o Cabo da Boa Esperança, no sul de África do Sul — uma viagem consideravelmente mais longa e mais cara.
Europa e a China temem impacto na energia
Na Europa, cresce o receio de uma nova crise energética. Desde o início da invasão russa da Ucrânia em 2022, o continente reduziu a dependência do gás russo e passou a importar mais gás natural liquefeito.
Parte desse gás vem do Qatar, cujas exportações passam pelo Estreito de Ormuz. Se a rota permanecer interrompida, uma parcela importante do abastecimento energético europeu poderá desaparecer do mercado.
Para a analista de energia Jess Ralston, as consequências podem atingir diretamente os consumidores: "Se a situação durar mais tempo, vai afetar as contas de energia, os preços da gasolina e a inflação. Pode ter impactos realmente generalizados em várias partes da economia", alerta.
A situação representa também um desafio estratégico para a China, o maior importador de petróleo do mundo e principal comprador do crude iraniano. No ano passado, mais de 80% das exportações de petróleo do Irão tiveram como destino o país asiático.
Uma interrupção prolongada da rota poderia afetar diretamente o abastecimento energético e as cadeias de produção chinesas.
Petróleo mais caro pode beneficiar exportadores
Por outro lado, países exportadores de petróleo podem beneficiar da subida dos preços.
A Rússia, um dos maiores produtores mundiais, poderá lucrar com a valorização do crude. Se os preços do petróleo bruto subirem acima dos 100 dólares por barril, isso poderá adicionar 4,8 mil milhões de dólares mensais às receitas russas.
O mesmo pode acontecer com Angola. No entanto, o economista Nataniel Fernandes defende que o país precisa de gerir bem eventuais receitas adicionais: "Vamos ter um acréscimo de receitas fiscais e também das reservas em moeda estrangeira. O mais importante é definir exatamente o que fazer com esse aumento de receitas", afirma.
O que acontecer no Estreito de Ormuz nos próximos dias e semanas poderá determinar se o mundo enfrenta apenas um choque temporário - ou o início de uma nova crise energética global.