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Cabo Delgado: O risco sistémico da guerra em Moçambique

16 de abril de 2021

O académico Severino Ngoenha aponta questões étnicas, discrepâncias sociais e radicalização como causas do conflito em Cabo Delgado. Diz que se tornaram problemas graves desde que a FRELIMO assumiu o poder em Moçambique.

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Foto: Roberto Paquete/DW

A guerra em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, resulta de um "erro histórico" que a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) "não consegue remediar" desde a independência nacional, considera o filósofo Severino Ngoenha.

Segundo o reitor da Universidade Técnica de Moçambique, trata-se de problemas étnicos e discrepâncias sociais que a FRELIMO não foi capaz de corrigir desde que assumiu o poder, em 1975. O professor destaca que estas questões continuam abertas, mesmo com o partido tendo pessoas de origens étnicas diversas a governar o país.

O Islão é igualmente apontado como o suporte da insurgência, apesar de não ter constituído um problema social forte ao regime colonial. Apesar da relevância histórica para a independência, as comunidades muçulmanas terão sido marginalizadas pelo Governo socialista da FRELIMO. Isso, entretanto, nunca constituiu um problema social forte, diz Severino Ngoenha.

Radicalização do Islão

O académico acredita que o país deixou o Islão se radicalizar em nome de uma neutralidade e um laicismo questionáveis e hoje isto gerou um problema social grave.

"Nos últimos anos há provas de como o novo tipo de Islão, mais radical, que nem respeitava o Islão tradicional presente no território e no espaço, foi gradualmente emergindo no espaço moçambicano. E nós, como país e como Estado, fomos admitindo, em nome da neutralidade e de um laicismo discutível, que se apresentasse até chegar ao processo de radicalização", sublinhou.

A violência terrorista contra crianças em Cabo Delgado

02:28

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O académico considera ainda o facto de existir pobreza extrema em diferentes zonas do país e menos pobreza no sul como outro fator que coloca Moçambique em guerra.

Para Severino Ngoenha, trata-se de uma anomalia nacional que a política deveria encontrar maneiras de atenuar. "Não há razão para não transferirmos algumas sedes de poder para fora de Maputo. Não há nenhuma razão para que o Governo, os ministérios, a Presidência, o Parlamento, todos os símbolos do poder, sejam confinados no espaço em Maputo", diz.

As questões socioculturais do conflito

O historiador francês Michel Cahen, da Universidade Eduardo Mondlane, refere que a guerra em Moçambique é facilitada pelo facto de os insurgentes encontrarem jovens desesperados que aceitam filiar-se à sua causa.

"Essa seita 'Al-Shabab' de Cabo Delgado está a oferecer um projeto de vida aos jovens que não têm nenhuma esperança de melhorar socialmente. Aí, voltamos às questões socioculturais e económicas do conflito", salienta.

O conflito em Cabo Delgado começou em 2017. A ONU estima que a instabilidade na região causou já mais de duas mil mortes e fez perto de 700 mil deslocados.

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