Guerra no Médio Oriente: Moçambique abandona neutralidade?
6 de março de 2026
Num gesto pouco usual na diplomacia de Maputo, o Presidente de Moçambique terá manifestado muito rapidamente solidariedade aos Emirados Árabes Unidos, depois dos ataques pelo Irão sofridos desde 1 de março, de acordo com a Agência de Notícias dos Emirados, WAM.
Para o especialista em segurança Calton Cadeado, "Moçambique está a ser amigo dos seus interesses". O analista destaca o "triângulo" de interesses Emirados, Estados Unidos e Moçambique.
Esta posição de Maputo despertou ainda outros questionamentos, como a eventualidade de Moçambique se posicionar do lado de quem iniciou este novo conflito no Médio Oriente - sem que o Presidente norte-americano, Donald Trump, tivesse o aval do Congresso, nem do Conselho de Segurança da ONU e, segundo diversos especialistas jurídicos, a arrepio do direito internacional.
Em entrevista à DW, Cadeado diz que prefere contar com o tempo para deixar a verdade vir à tona.
DW África: Como comenta a rápida reação do Presidente moçambicano, Daniel Chapo?
Calton Cadeado (CC): Isto é estranho, não é o padrão normal dos últimos anos, na reação de Moçambique perante guerras, até pela velocidade que nós estamos a ver e pelo conteúdo que estamos a ver.
DW África: Moçambique dificilmente toma partido em conflitos de grande dimensão. O que é que o terá levado, neste caso, a fazê-lo?
CC: É preciso atentarmos que Moçambique se pronunciou, mas será que esse é o conteúdo de Moçambique ou o conteúdo que vem da parte visada neste caso? Por outro lado, nós também não conhecemos a comunicação que possa ter existido entre Moçambique e o Irão também.
Normalmente, quando há conflitos, o discurso de Moçambique é sempre neutro, apontando para a paz e nunca para a condenação das partes. A abordagem de Moçambique é sempre que os donos do conflito têm de ser os donos da solução do conflito.
DW África: Neste conflito, parece haver uma tendência de algumas partes beligerantes publicitarem apoios que na realidade não estão a ter. Vimos o caso do Presidente dos EUA, que disse que a Espanha tinha recuado na sua posição e decidido apoiar os Estados Unidos, o que foi prontamente desmentido pela Espanha.
Há o risco de outros países envolvidos neste conflito optarem pelas mesmas narrativas enganosas?
CC: Sim, o risco está lá. Há uma célebre frase que diz que a primeira grande vítima da guerra é a verdade. Então, neste caso, pode ser que isto faça parte de uma propaganda enganosa.
DW África: Moçambique terá condenado os ataques iranianos contra os Emirados Árabes Unidos. A ser verdade, o Presidente da República de Moçambique não se poderia estar a colocar do "lado errado" da história – se considerarmos, por exemplo, que o Presidente dos Estados Unidos, que é parceiro dos Emirados Árabes Unidos, iniciou uma guerra contra o Irão, violando o direito internacional? Nesse caso, não estaria Moçambique a ser cúmplice de um ato ilegítimo?
CC: Esse é um lado da história que pode ser provado, ou não, a curto, médio ou longo prazo. O outro lado da moeda é que o Presidente [Daniel Chapo] já tem no seu histórico uma visita aos Emirados Árabes Unidos que foi alvo de muitas críticas.
Se esta informação que estamos a receber for verdade, porque não associar esta visita a este posicionamento? Porque não pensar que algum interesse nacional de Moçambique bem forte pode estar a ligar Moçambique aos Emirados Árabes Unidos neste momento? Então, aí retomo a minha posição de que Moçambique está a ser amigo dos seus interesses.