Guiné-Bissau: Campanha marcada por falta de pluralismo

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A 23 de novembro, a Guiné-Bissau vai às urnas para eleições gerais que prometem definir o futuro político do país. A campanha está em plena estrada, marcada por discursos inflamados, alianças improváveis e promessas antigas repetidas com novas roupagens.
Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, o clima eleitoral é de gastos avultados e forte mobilização. Antigos rivais surgem agora lado a lado, confundindo eleitores que veem a política guineense como uma "dança de cadeiras".
A investigadora Lili Pontinta, em entrevista à DW, traça um retrato pouco animador: "Há muito tempo que o espaço público está dominado por um grupo. A democracia não funciona quando só alguns podem expressar as suas ideias", afirma, denunciando restrições às liberdades fundamentais e uma sensação generalizada de medo.
Segundo a investigadora, a presença constante de forças de segurança em Bissau é um sinal claro de intimidação: "Há segurança, mas não para todos. As pessoas têm medo de falar. A Constituição já não é respeitada, e isso coloca a democracia em perigo."
As eleições legislativas têm recebido menos atenção, uma vez que apenas uma plataforma política participa de forma significativa, levantando dúvidas sobre a pluralidade e transparência do processo. "Se as coisas continuarem assim, não teremos eleições livres nem justas", alerta Lili Ponte.
De um lado, o Presidente cessante Umaro Sissoco Embaló aposta na continuidade e na estabilidade, apoiado pela Plataforma Republicana. O ministro Viriato Cassamá, porta-voz da campanha, garante que Embaló "vai vencer com larga maioria", sublinhando que o atual governo "reposicionou a Guiné-Bissau no concerto das nações" e defende um programa assente em seis pilares: paz e estabilidade, Estado de direito, diversificação económica, educação e saúde, ambiente e desenvolvimento local.
Do outro lado, Fernando Dias da Costa, apoiado por Domingos Simões Pereira, apresenta-se como o candidato da “alternância democrática". O seu porta-voz, Gabriel Ié, acusa o regime de "banir a democracia" e defende um Presidente que “respeite os limites do seu poder" e promova a verdadeira separação de poderes.
O sociólogo Tamilton Teixeira considera estas eleições "as mais estranhas da história recente do país", afirmando que "a Guiné-Bissau vive um processo de fulanização do poder, onde todas as instituições estão subordinadas à vontade do Presidente". Teixeira alerta que estas eleições “não servem para escolher programas, mas para salvar o Estado e restaurar o respeito pelas instituições".
A sociedade civil e os meios de comunicação denunciam intimidações e censura, enquanto a confiança nas forças de defesa e segurança é cada vez menor. "As Forças Armadas deixaram de ser neutras", lamenta Teixeira, pedindo maior envolvimento da comunidade internacional na supervisão do processo.
Com a tensão a aumentar e a incerteza no ar, muitos guineenses temem que o resultado de 23 de novembro defina não apenas quem governa, mas se a Guiné-Bissau continuará — ou não — a ser uma democracia.