Polémica marca início da comercialização da castanha de caju
Iancuba Dansó (Bissau)
7 de abril de 2021
Já começou a campanha de comercialização e exportação da castanha de caju, a maior atividade económica da Guiné-Bissau. O arranque ficou marcado por uma polémica em relação ao preço mínimo fixado pelo Governo.
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Há anos que a campanha de comercialização e exportação da castanha de caju é marcada por desentendimentos sobre as políticas adotadas pelas autoridades para a maior atividade económica da Guiné-Bissau. Este ano não é exceção.
O preço mínimo por quilograma foi fixado nos 360 francos cfa (55 cêntimos de euro), mas alguns operadores do setor estão contra. Mamadú Iero Jamanca, presidente da Associação Nacional dos Importadores e Exportadores da Guiné-Bissau (ANIE-GB), diz que, com este preço e a atual carga fiscal, a margem de lucro é mínima.
Reduzir os impostos seria melhor, defende Jamanca. "Todos os preços dependem diretamente da revisão das taxas e impostos. Com esta mexida das taxas e dos impostos, este preço está comprometido, porque nós preferíamos que o Governo baixasse as taxas para que o preço de referência pudesse subir."
Para o presidente da Associação Nacional dos Agricultores (ANAG), Jaime Boles Gomes, não há mal na decisão do Executivo em relação ao preço mínimo para cada quilograma da castanha. "O custo de referência, que é 360 francos cfa, é um preço de base, não é fixo. Significa que todos os agricultores que têm as necessidades básicas já podem vender a sua castanha, pelo menos vendendo um quilograma de castanha de caju. Já é suficiente para comprar um quilo de arroz. Portanto, o preço é agradável e aceitável", conclui.
Desafios da pandemia
A pandemia da Covid-19 está a colocar desafios enormes ao setor da castanha de caju, diz o economista Aliu Soares Cassamá. O preço fixado pelo Governo é tolerável, o problema são os impostos, comenta.
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"A única incoerência que vejo é a introdução da sobretaxa que poderá retirar aos diferentes intervenientes [nacionais] na fileira de caju a capacidade de comprar a castanha em pé de igualdade com os indianos, vietnamitas e chineses", observa.
Segundo Cassamá, também este preço irá diminuir a rentabilidade do produtor, que neste momento é muito baixa. "Agora temos que estar atentos se não haverá inflação do preço no mercado internacional. Se houver, vai ser catastrófica para a economia nacional", prevê o economista.
De acordo com a Agência Nacional de Caju (ANCA), em 2019, a Guiné-Bissau exportou mais de 195 mil toneladas de castanha de caju. No ano passado, o número baixou para cerca de 154 mil toneladas. Para este ano, ainda não há uma previsão do Governo, que diz estar à espera do desenrolar da campanha.
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Fiscalização da campanha
Ao discursar esta quarta-feira (07.04) na abertura da campanha, o primeiro-ministro guineense, Nuno Nabiam, anunciou medidas para que a atividade se desenrole da melhor forma: "O Governo, através do Ministério das Finanças, vai disponibilizar um fundo destinado à fiscalização da campanha" de castanha de caju.
Em termos administrativos, acrescentou, "o Governo, através do Ministério do Comércio, vai emitir duas circulares para reduzir as barreiras não tarifárias, relacionadas com a autenticação dos documentos necessários para a obtenção de licenças, comercialização e exportação da castanha de caju."
A campanha de comercialização da castanha de caju é uma importante fonte de rendimento para muitas famílias rurais.
Sumos, bolachas e até "bifes" para diversificar rendimento do caju
O caju é a principal fonte de rendimento dos produtores guineenses. A fim de estimular a economia, os produtores de Ingoré uniram-se na cooperativa Buwondena, onde produzem sumo, bolachas e até "bife" de caju.
Foto: Gilberto Fontes
O fruto da economia
Sendo um dos símbolos da Guiné-Bissau, o caju é a principal fonte de receita dos camponeses. A castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país. Este ano, foram exportadas 200 toneladas de castanha de caju, um encaixe de mais de 250 mil euros. A Índia é o principal comprador. O caju poderá trazer ainda mais riqueza ao país, se houver maior aposta no processamento local do produto.
Foto: Gilberto Fontes
Aposta no processamento
Em Ingoré, no norte da Guiné-Bissau, produtores de caju uniram-se na cooperativa Buwondena - juntamos, em dialeto local balanta - para apostar no processamento do caju. Antes, aproveitava-se apenas a castanha, desperdiçando o chamado pedúnculo, que representa cerca de 80% do fruto. Na cooperativa produzem-se agora vários produtos derivados do caju.
Foto: Gilberto Fontes
“Bife” de caju
Depois de devidamente preparado, o pedúnculo, que é a parte mais fibrosa do caju, pode ser cozinhado com cebola, alho e vários temperos. O resultado final é o chamado “bife” de caju.
A partir das fibras, produz-se também chá, mel, geleia, bolacha, entre outros. Ao desenvolverem novos produtos, os produtores diversificam a dieta e aumentam os seus rendimentos.
Foto: Gilberto Fontes
Néctar de caju
Depois de prensadas as fibras do caju, obtém-se um suco que é filtrado várias vezes, a fim de se produzir néctar e sumo. Com 50% desse suco e 50% de água com açúcar diluído, obtem-se o néctar de caju. Este ano, a cooperativa Buwondena produziu quase 400 litros desta bebida.
Foto: Gilberto Fontes
Sumo de caju
O sumo resulta da pasteurização do suco que foi filtrado do fruto, sem qualquer adicionante. Cada garrafa destas de 33cl de sumo de caju custa quase 0.40€. Ou seja, um litro de sumo pode render até 1.20€. O que é bem mais rentável que vinho de caju, produzido vulgarmente na Guiné-Bissau, que custa apenas 0.15€ o litro. Em 2016, foram produzidos na cooperativa quase 600 litros de sumo de caju.
Foto: Gilberto Fontes
Mel de caju
Clode N'dafa é um dos principais especialistas de transformação de fruta da cooperativa. Sabe de cor todas as receitas da cooperativa e só ele faz alguns produtos, como o mel. Mas devido à falta de recipientes, este produziu-se pouco mel de caju. Desde que se começou a dedicar ao processamento de fruta, Clode N'dafa conseguiu aumentar os seus rendimentos e melhorar a vida da sua família.
Foto: Gilberto Fontes
Castanha de caju
Este continua a ser o produto mais vendido pela cooperativa. O processamento passa por várias etapas: seleção das melhores castanhas, que depois vão a cozer, passam à secagem, ao corte e vão à estufa. As castanhas partidas são aproveitadas para a produção de bolacha de caju. Este ano, a cooperativa conseguiu fixar preço da castanha de caju em 1€ o quilo, protegendo os rendimentos dos produtores.
Foto: Gilberto Fontes
Potencial para aumentar produção
A maior parte dos produtos são vendidos localmente, mas alguns são comercializados também em Bissau e exportados para o Senegal. A produção decorre sobretudo entre os meses de março e junho, período da campanha do caju. No pico de produção, chegam a trabalhar cerca de 60 pessoas. Se a cooperativa conseguisse uma arca frigorífica para armazenar o caju, continuaria a produção depois da campanha.
Foto: Gilberto Fontes
Aposta no empreendedorismo
A cooperativa Buwondena aposta na formação a nível de empreendedorismo, para que os produtores possam aumentar o potencial do seu negócio. A cooperativa pretende criar uma caixa de poupança e crédito. O objetivo é que, através de juros, os produtores possam rentabilizar as suas poupanças e apostar noutros negócios.
Foto: Gilberto Fontes
É urgente reordenar as plantações
A plantação de cajueiros é outra das preocupações da cooperativa: uma plantação organizada, com ventilação é fundamental para aumentar a rentabilidade.
Devido ao peso do sector do caju na economia da Guiné-Bissau, todos os anos são destruídos entre 30 e 80 mil hectares de floresta para a plantação de cajueiros. Especialistas defendem uma reordenação urgente das plantações.