Guiné-Bissau poderá registar em 2026 uma das piores campanhas de produção e comercialização da castanha de caju, principal produto estratégico da economia nacional.
"Temos três variáveis que preocupam o futuro da economia da Guiné-Bissau"Foto: Seyllou/AFP/Getty Images
Publicidade
Produtores de castanha de caju em várias regiões da Guiné-Bissau alertam para uma forte quebra na produção. Embora não haja um estudo para saber os motivos desta situação, técnicos da área apontam possíveis causas como o envelhecimento dos pomares e efeitos do stress hídrico provocado pelas alterações climáticas.
Em várias zonas produtoras do país, o cenário nos pomares de caju é preocupante. Muitas plantações apresentam árvores praticamente sem frutos, enquanto noutras localidades a produção é visivelmente inferior à de anos anteriores. Nas zonas norte, leste e sul há tabancas (aldeias) onde não há caju para colher, o que tem gerado inquietação entre agricultores e comerciantes.
As causas exatas desta situação ainda não são conhecidas. Especialistas apontam hipóteses como os efeitos das alterações climáticas, com destaque para as temperaturas extremas, e o envelhecimento dos pomares. Mas apenas uma avaliação técnica mais aprofundada poderá determinar as razões concretas para a fraca produção registada nesta campanha de caju.
Produtoras de caju em BissauFoto: Seyllou/AFP/Getty Images
A população receia que a fraca produção e comercialização de caju este ano provoque fome e instabilidade económica, uma vez que os dados apontam que cerca de 80% da população depende deste produto para o seu sustento e que é o motor da economia da Guiné-Bissau.
A DW tentou ouvir o Ministério da Agricultura, mas sem sucesso.
O economista guineense Serifo So afirma que, em 2026, a comercialização de caju vai ter um impacto negativo no tecido económico da Guiné-Bissau, afetando populações, produtores, intermediários e o próprio Estado.
Publicidade
Futuro da economia guineense
"Temos três variáveis que preocupam o futuro da economia da Guiné-Bissau no espaço de três ou quatro meses. Primeiro, a variável sobrenatural. Sabemos que este ano a produção da castanha de caju é muito fraca a nível nacional. A segunda variável é a situação política e social do país que não favorece, e a terceira diz respeito aos conflitos mundiais, sobretudo no Médio Oriente."
Serifo So lembra que, graças a este rendimento anual vindo da comercialização da castanha de caju, os produtores agrícolas conseguem fazer investimentos na construção de casas, na alimentação e no pagamento dos estudos dos filhos.
O caju é a principal fonte de rendimento dos produtores guineenses. A fim de estimular a economia, os produtores de Ingoré uniram-se na cooperativa Buwondena, onde produzem sumo, bolachas e até "bife" de caju.
Foto: Gilberto Fontes
O fruto da economia
Sendo um dos símbolos da Guiné-Bissau, o caju é a principal fonte de receita dos camponeses. A castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país. Este ano, foram exportadas 200 toneladas de castanha de caju, um encaixe de mais de 250 mil euros. A Índia é o principal comprador. O caju poderá trazer ainda mais riqueza ao país, se houver maior aposta no processamento local do produto.
Foto: Gilberto Fontes
Aposta no processamento
Em Ingoré, no norte da Guiné-Bissau, produtores de caju uniram-se na cooperativa Buwondena - juntamos, em dialeto local balanta - para apostar no processamento do caju. Antes, aproveitava-se apenas a castanha, desperdiçando o chamado pedúnculo, que representa cerca de 80% do fruto. Na cooperativa produzem-se agora vários produtos derivados do caju.
Foto: Gilberto Fontes
“Bife” de caju
Depois de devidamente preparado, o pedúnculo, que é a parte mais fibrosa do caju, pode ser cozinhado com cebola, alho e vários temperos. O resultado final é o chamado “bife” de caju.
A partir das fibras, produz-se também chá, mel, geleia, bolacha, entre outros. Ao desenvolverem novos produtos, os produtores diversificam a dieta e aumentam os seus rendimentos.
Foto: Gilberto Fontes
Néctar de caju
Depois de prensadas as fibras do caju, obtém-se um suco que é filtrado várias vezes, a fim de se produzir néctar e sumo. Com 50% desse suco e 50% de água com açúcar diluído, obtem-se o néctar de caju. Este ano, a cooperativa Buwondena produziu quase 400 litros desta bebida.
Foto: Gilberto Fontes
Sumo de caju
O sumo resulta da pasteurização do suco que foi filtrado do fruto, sem qualquer adicionante. Cada garrafa destas de 33cl de sumo de caju custa quase 0.40€. Ou seja, um litro de sumo pode render até 1.20€. O que é bem mais rentável que vinho de caju, produzido vulgarmente na Guiné-Bissau, que custa apenas 0.15€ o litro. Em 2016, foram produzidos na cooperativa quase 600 litros de sumo de caju.
Foto: Gilberto Fontes
Mel de caju
Clode N'dafa é um dos principais especialistas de transformação de fruta da cooperativa. Sabe de cor todas as receitas da cooperativa e só ele faz alguns produtos, como o mel. Mas devido à falta de recipientes, este produziu-se pouco mel de caju. Desde que se começou a dedicar ao processamento de fruta, Clode N'dafa conseguiu aumentar os seus rendimentos e melhorar a vida da sua família.
Foto: Gilberto Fontes
Castanha de caju
Este continua a ser o produto mais vendido pela cooperativa. O processamento passa por várias etapas: seleção das melhores castanhas, que depois vão a cozer, passam à secagem, ao corte e vão à estufa. As castanhas partidas são aproveitadas para a produção de bolacha de caju. Este ano, a cooperativa conseguiu fixar preço da castanha de caju em 1€ o quilo, protegendo os rendimentos dos produtores.
Foto: Gilberto Fontes
Potencial para aumentar produção
A maior parte dos produtos são vendidos localmente, mas alguns são comercializados também em Bissau e exportados para o Senegal. A produção decorre sobretudo entre os meses de março e junho, período da campanha do caju. No pico de produção, chegam a trabalhar cerca de 60 pessoas. Se a cooperativa conseguisse uma arca frigorífica para armazenar o caju, continuaria a produção depois da campanha.
Foto: Gilberto Fontes
Aposta no empreendedorismo
A cooperativa Buwondena aposta na formação a nível de empreendedorismo, para que os produtores possam aumentar o potencial do seu negócio. A cooperativa pretende criar uma caixa de poupança e crédito. O objetivo é que, através de juros, os produtores possam rentabilizar as suas poupanças e apostar noutros negócios.
Foto: Gilberto Fontes
É urgente reordenar as plantações
A plantação de cajueiros é outra das preocupações da cooperativa: uma plantação organizada, com ventilação é fundamental para aumentar a rentabilidade.
Devido ao peso do sector do caju na economia da Guiné-Bissau, todos os anos são destruídos entre 30 e 80 mil hectares de floresta para a plantação de cajueiros. Especialistas defendem uma reordenação urgente das plantações.
Foto: Gilberto Fontes
10 fotos1 | 10
Para evitar os riscos futuros, o economista aconselha os agricultores a diversificarem a produção, uma vez que o rendimento da castanha de caju é bastante reduzido. "Este risco deveria ser evitado há muitos anos. Eu aconselho sempre as pessoas a diversificarem a produção, porque a castanha de caju tem um ciclo muito curto", afirma.
Campanha
O Governo procedeu à abertura oficial da campanha de 2026 em março e fixou o preço base da castanha de caju para a campanha de 2026 em 410 francos CFA (cerca de 0,63 EUR) por kg ao produtor. Mas, devido à fraca produção, a compra está muito baixa.
Em declarações à DW, o diretor-geral do Comércio Interno, Abdulai Mané, revela que houve evolução e que o preço em vigor nesta altura, a nível nacional, é de 425 francos CFA (algo em torno de 0,65 euros). Diz ainda que o Governo está preocupado face à fraca produção da castanha de caju, sobretudo com a maturação tardia do produto.
Abdulai Mané reconhece que os fenómenos climáticos podem ter impacto na meta preconizada pelo executivo de transição no início da campanha da castanha de caju, que é exportar mais de 200 mil toneladas do produto visando superar o desempenho de 2025.
A Guiné-Bissau figura entre os dez maiores produtores da castanha de caju no mundo. O país exporta cerca de 200 mil toneladas por ano. É o maior produto estratégico para a economia do país.