"Homens-catana" causam terror em Chimoio
20 de janeiro de 2026
De acordo com relatos de vítimas e testemunhas, os "homens-catana" atacam sem discriminação, tanto crianças como idosos. "Já perdemos familiares por homens catanas. A dor nunca passa, pois perder uma pessoa já adulta e responsável de família é doloroso", relata a jovem Maria Gonçalves, moradora no bairro 1º de Maio em Chimoio, na província de Manica, centro de Moçambique.
"A nossa vida está em risco, mesmo estando em casa. Não sabemos o que fazer porque os homens-catana não perdoam quando te encontram. Nem têm piedade, mesmo crianças eles degolam. Estamos a pedir ao Governo para acionar os militares a fazerem patrulhas durante a noite", apela ainda a jovem.
Os agressores atacam as vítimas mesmo estando dentro das viaturas a conduzir, conta à DW Chico Mpacue, que sofreu um ataque quando chegava a sua casa numa noite.
"De repente apareceram uns moços, que de onde saíram não me apercebi. Eles partiram o vidro do carro e apanharam-me o braço. Tentei acelerar tentando fugir, entrei numa cova, mas seguiram-me e começaram a catanar-me. Tentavam tirar-me de dentro do carro, eu mostrei resistência e perguntei o que queriam, mas mesmo assim catanaram-me toda a cabeça", contou a vítima, que pede "justiça".
O Hospital Provincial de Chimoio tem registado um número elevado de vítimas de agressões físicas, com muitos casos de traumatismo craniano e fraturas graves.
"Casos de trauma têm tido um peso muito grande e as agressões físicas representam o segundo principal problema. As agressões físicas tem sido dramáticas porque resultam em traumatismos crânio-encefálicos e em fraturas graves que requerem tratamento cirúrgico ou transferência apara o Hospital Central da Beira", explica Juvenale Chitovele, diretor clínico da maior unidade sanitária na província.
Entrada de terroristas na província?
O ativista social Rui Francisco alerta para uma possível entrada de terroristas na província, uma vez que o "modus operandi" dos "homens-catana" se assemelha ao dos insurgentes em Cabo Delgado.
"Foi assim que começou lá. Este fenómeno é preocupante. As autoridades têm de se coordenar com as comunidades para identificar possíveis 'ondas' de pessoas que provêm de outros locais, províncias ou distritos e não fazem parte daquela comunidade. De certo modo, as pessoas estão a ter medo de andar, estão aterrorizadas e sem liberdade dentro da própria cidade", disse.
A governadora de Manica, Francisca Tomás, reuniu-se recentemente com líderes comunitários e religiosos para alertar sobre a situação e pedir que tomem atenção nos bairros, especialmente com as novas caras que se instalam nas comunidades. "Os homens-catana chegam e catanam as pessoas. Eles 'caçam' na altura em que a pessoa está a entrar dentro do seu quintal; por vezes, puxam a pessoa até à porta da casa e depois vão embora", contou.
"A população está insegura por causa dos homens-catana, da criminalidade e de muitos fenómenos estranhos que estão a acontecer, alheios à nossa vontade", afirmou a governadora, que procura respostas para "que tipo de fenómeno é este" e "como se pode estancá-lo" em todos os bairros de Chimoio.
Polícia pede que população denuncie casos
A Polícia da República de Moçambique (PRM) em Manica apela à população para que denuncie quaisquer casos que atentem contra a vida humana e se distancie das ondas de desinformação que se têm propagado nas redes sociais.
O porta-voz da PRM, Mouzinho Manasse, disse que no ano passado foram registados 25 casos de "homens-catana", dos quais 11 consumados e 14 frustrados. 73 indivíduos foram levados à Justiça para responderem pelos seus atos.
"Queremos apelar para que a população denuncie [estes casos] à polícia, para juntos podermos acabar com essa situação", apelou. No ano passado, "no período em que nós registámos maior incidência, unimo-nos à comunidade e conseguimos estancar."
Devido ao recrudescimento da criminalidade, o edil da cidade de Chimoio, João Ferreira, colocou câmaras de segurança nos bairros. "Porque, assim, todos nós vamos controlar o crime. As câmaras têm modo de gravação, podemos puxar para trás e ver um crime que aconteceu numa determinada altura, para diminuirmos e acabarmos com essa coisa de andar a catanar pessoas na cidade de Chimoio. Isso é gravíssimo", concluiu.